24
jan
2017
Crítica: “Manchester à Beira Mar”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2017 • Postado por: João Vitor Moreno

Manchester à Beira Mar (Manchester by the Sea)

Kenneth Lonergan, 2016
Roteiro: Kenneth Lonergan
Sony Pictures

4.5

Manchester à Beira Mar está entre os filmes mais tristes que eu vi em muito tempo. Compreendendo a natureza trágica de seus personagens, mas também seu lado humano, o filme não precisa apelar para melodrama ou conflitos artificiais para provocar lágrima, e é beneficiado por um elenco homogeneamente competente, que faz da obra uma experiência intensa e devastadora.

O roteiro escrito por Kenneth Lonergan acompanha o personagem Lee Chandler (Casey Affleck), que atualmente trabalha como zelador em um prédio, e que se vê obrigado a voltar para sua cidade natal, da qual tinha se exilado, para ficar com a guarda do sobrinho (Lucas Hedges) após a morte de seu irmão (Kyle Chandler). Enquanto isso há também flashbacks que mostram sua relação com esse irmão, e também com sua ex-esposa (Michelle Williams).

A fotografia de Jody Lee Lipes é desde o início hábil em evocar a tristeza e melancolia nas quais o protagonista vive, utilizando paleta de cores frias, que realçam o azul claro do céu e o branco da neve que cobre o filme inteiro. Já o design de produção faz um ótimo trabalho em diferenciar o tempo presente do personagem, que vive mergulhado na solidão e autopunição, e o tempo passado que o mostra bem mais feliz com sua família: enquanto no presente o personagem só usa roupas escuras e vive em um quarto minúsculo sem cores e sem vida, no passado sua casa era um lugar cheio de cores vivas, com paredes amarelas, sofá vermelho, roupas verdes no cabideiro, e onde o próprio personagem vestia roupas com cores quentes. Da mesma forma, a montagem merece créditos por incluir os flashbacks todos no momento certo, alterando passado e presente com fluência, ajudando a construir a carga dramática da narrativa ao invés de deixa-la irregular ou confusa.

A direção de Kenneth Lonergan tem muitas peculiaridades interessantes. Enquanto a maioria dos diretores com um roteiro desses iria optar por uma abordagem estética mais com cara de cinema independente, com câmera na mão sempre colada nos rostos dos personagens, Lonergan vai na direção oposta, apostando em planos mais abertos e estáticos (mesmo quando a câmera se move, ela o faz em trilhos, não na mão – balançando pouco), o que deixa espaço para muitas sutilezas de interpretações por parte dos atores: reparem, por exemplo, como Casey Affleck apenas mexe os olhos para demonstrar desconforto quando vai ver o corpo do irmão no necrotério. Além disso, muitas vezes o diretor e sua montadora Jennifer Lame prolongam alguns planos um pouco além do esperado (como quando o protagonista vai dar a notícia da morte do irmão para seu sobrinho), o que cria um clima de desconforto impressionante, como se quiséssemos desviar o olhar de algo constrangedor, mas não pudéssemos.

E se sua abordagem visual é interessante, o mesmo também pode ser dito para a parte sonora: enquanto alguns momentos-chave onde vários diretores apostariam em músicas instrumentais, Lonergan insiste no silêncio para acentuar a realidade e o desconforto da situação (a cena que traz o protagonista indo ver o corpo de seu irmão no necrotério mais uma vez serve de exemplo). Por outro lado, em várias cenas impactantes o diretor aposta sem pudor em uma trilha sonora orquestral belíssima, que cria um balé trágico em tela e faz com que seja difícil segurar as lágrimas (uma sequência em especial é particularmente dolorosa e difícil de ver, não darei detalhes para evitar spoilers, mas quando você assistir saberá ao que me refiro).

A única ressalva que tenho ao trabalho de Kenneth Lonergan é por incluir um cameo (aquelas participações especiais tipo Stan Lee em filme da Marvel) incluindo ele próprio e que é completamente descartável e chama demais a atenção para si, tirando momentaneamente o foco da trama principal.

Já o elenco é todo excelente. Casey Affleck, que vem surgindo como o favorito para o próximo Oscar, vive um personagem completamente trágico, o que se reflete em sua linguagem corporal congelada, seu olhar pesado, e sua voz cansada que parece não estar mais acostumada a falar. Além dele, Lucas Hedges impressiona por equilibrar sua vivacidade juvenil com sua melancolia por ter perdido o pai, e Michelle Williams, mesmo com pouco tempo de tela, comanda um dos momentos mais fortes e significativos de toda a projeção.

Mesmo se prejudicando um pouco por se alongar demais e perder um pouco de força conforme o tempo passa, Manchester à Beira Mar ainda compreende o drama de seus personagens e o retrata de maneira humana e surpreendentemente comovente. É uma experiência intensa e emocionante, que impressiona pelo primor técnico e também pelo talento de seu forte elenco.



Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.