18
jan
2017
Crítica: “Moonlight – Sob a Luz do Luar”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2017 • Postado por: Matheus Benjamin
Moonlight – Sob a Luz do Luar (Moonlight)
Barry Jenkins, 2016
Roteiro: Barry Jenkins
Diamond Filmes

4.5

Em determinado momento da projeção de Moonlight – Sob a Luz do Luar, Juan (Mahershala Ali) explica ao pequeno Chiron (Alex R. Hibbert) o que queria dizer quando pronunciava essa palavra e o espectador pode perceber tudo isso de forma visual na última cena do longa. Esse é um filme dividido em três momentos da vida de uma mesma pessoa: na infância, Little; na adolescência, Chiron e na fase adulta Black.

Em forma linear, na infância, Little é um garoto negro que mora com sua mãe (Naomie Harris) a quem já não consegue mais suportar devido ao vício excessivo em drogas que ela mantém. Um dia fugindo de garotos que o chamavam de “bicha”, ele se esconde em um apartamento sem moradores e é acolhido por Juan, que o leva para casa e apresenta à esposa Teresa (Janelle Monáe). Uma relação de amizade se inicia a partir desse momento e de rivalidade para com sua mãe, que se vê ameaçada por esse casal.

Vida seguindo, Little na adolescência é chamado por seu nome: Chiron (Ashton Sanders), o garoto continua retraído, calado e tímido. Sua relação com a mãe vai de mal à pior, tendo em vista que ela o expulsa de casa várias e várias vezes para se encontrar com rapazes aleatórios e rouba seu dinheiro, que lhe é dado por Teresa, para alimentar seu vício. Nessa fase, Chiron tem um melhor amigo Kevin (Jharrel Jerome) que sempre lhe conta sobre transar com garotas e beijar garotas; Chiron não lhe dá muita importância e sofre um bullying constante de valentões na escola, uma perseguição latente que parece não ter fim.

Na terceira fase, Chiron é Black (Trevante Rhodes). Black porque as lembranças de seu passado e pessoas de sua fase adolescente voltam para sua vida, que mudara bastante e talvez para melhor, mesmo com os problemas permanentes, a distância que lhe ocorre e a mesma característica de ser presente: Black ainda é um menino tímido que fala pouco.

O roteiro de Moonlight (escrito pelo próprio diretor) é bastante objetivo ao retratar a história de Chiron, um garoto negro que sofre bullying na escola que frequenta desde a infância e é bastante retraído por conta da mãe, das piadinhas que lhe fazem, do que apanha dos colegas de escola, dos xingamentos; tudo isso contribui para a figura que ele apresenta. Os traumas e as marcas que ficam em si até podem fortifica-lo, mas o que o espectador vê é somente alguém que quer viver em paz. Aliás, o roteiro não explicita sobre sua sexualidade, mesmo com certas cenas de descobertas e seus sentimentos expostos através de ações e olhares, há de se levantar a hipótese de uma opressão contra um garoto pobre negro e gay que foi se reprimindo aos poucos por sua violência sofrida. Algumas cenas possuem uma construção de direção magnificas e evidenciam o trabalho primoroso de Barry Jenkins, sobretudo na cena em que Chiron aparece na escola um dia após ter sofrido uma surra e caminha abrindo portas como se estivesse querendo descontar toda a sua raiva nelas e culmina para a chegada dentro de sua sala de aula, onde algo impressionante acontece.

A cinematografia alia-se à arte e juntas transformam o longa em algo ainda mais grandioso. Há diversos planos subjetivos do protagonista em conflito consigo mesmo e também com outros; há planos orgânicos onde a câmera acompanha todos os personagens de perto; há diálogos intensos e emocionantes que provocam o espectador e o deixa aflito e inquieto. E se Chiron caminha na neutralidade das cores, é Teresa e Juan que o quebram com cores mais vivas tanto em suas vestimentas quanto nos cenários. Na escola, há cores muito frias que mostram os sentimentos do personagem para com aquele ambiente. No terceiro ato, com Black as cores quentes e os tons pasteis são os principais elementos, sobretudo nos reencontros que ocorrem.

A representatividade dos personagens, do roteiro e das situações fazem de Moonlight um grandioso filme sobre a verdade nua e crua, sem romances, sobre a vida de uma minoria reprimida que precisa matar um leão por dia para continuar na selva. É um longa pesado sobre a jornada de Chiron, um garoto que enfrentou o bullying desde cedo por seu jeito de ser, o vício de uma mãe não muito acolhedora nos momentos difíceis e a vida passando de forma dura e sem formas de se escapar. Merece ser visto e apreciado!



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.