17
jan
2017
Crítica: “O Apartamento”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2017 • Postado por: João Vitor Moreno

O Apartamento (Forushande)

Asghar Farhadi, 2016
Roteiro: Asghar Farhadi
Pandora Filmes

4

Poucos diretores conseguem ser tão universais quanto o iraniano Asghar Farhadi. Isso porque mesmo contando histórias que têm muito a dizer sobre seu país de origem e sua cultura, seus personagens vivem dilemas humanos com os quais qualquer um pode se identificar (eventos aparentemente simples, mas que desencadeiam séries de imprevistos que mesmo às vezes extremos, são sempre plausíveis), isso para não contar seu primor técnico e excelente direção de atores. E por mais que novo O Apartamento esteja um pouco abaixo de seus trabalhos anteriores (À Procura de Elly, A Separação, e O Passado), ainda é um filme humano, universal, e muito, muito bom.

Não darei muitos detalhes da trama, pois acredito que o filme seja melhor apreciado assim. Basta dizer que o roteiro acompanha um casal que precisa se mudar para um novo apartamento, e um incidente envolvendo um cliente da antiga moradora faz com que suas vidas mudem completamente.

Assim como os outros trabalhos de Farhadi, uma das coisas que mais surpreende no filme é sua capacidade de criar personagens completamente humanos, que se encontram em situações com as quais qualquer um pode se identificar. Aqui não há vilões e heróis, ou um lado certo e um errado, todos são humanos capazes de bondade e também de atos repulsivos.

Sendo assim, mesmo sendo quase todo composto de diálogos, o filme prende a atenção muito mais do que muitos filmes de ação.

Mas mesmo tratando de dilemas que são universais, o diretor não deixa de comentar o cenário histórico de seu próprio país, mas de forma sutil, o que torna o filme ainda mais gratificante para olhos mais atentos. Por exemplo, a própria estrutura da trama funciona como uma metáfora da história recente do Irã: os personagens vivem em um local (Irã antes da revolução), este local sofre um “abalo na estrutura” (a própria revolução), então mudam para outro lugar (novo Irã, agora como teocracia islâmica), mas este acaba sendo ainda pior do que o anterior. Além disso, os paralelos entre a trama do filme e a trama da peça de teatro “A Morte do Caixeiro Viajante” que está sendo interpretada pelos personagens dentro do filme também é algo que enriquece a experiência – aliás, é uma pena que o título brasileiro não aponte esse paralelo como fazem o título original e o inglês, o que talvez contribua para que isso passe despercebido para algumas pessoas.

É verdade que falta um pouco ao filme a qualidade estética normalmente presente nos trabalhos do diretor (principalmente se compararmos ao seu filme anterior, O Passado), e em seu terceiro ato o roteiro verbaliza algumas coisas que poderiam ser mais sutis: em determinado momento, por exemplo, uma personagem diz “Este homem é tudo para mim”, verbalizando algo que poderia ter ficado claro apenas com suas ações – o próprio diretor já demonstrou ser capaz de muito mais. Mas o impacto do que o filme tem a dizer (e como ele diz) é tão forte que isso acaba nem sendo um problema tão grande.

Sendo uma experiência impactante e marcante, mesmo que abaixo do que seria o esperado de um diretor tão eficiente, O Apartamento está sem dúvidas entre os melhores filmes do ano e mesmo já tendo sido premiado em Cannes como Melhor Ator e Melhor Roteiro, com certeza merece também uma indicação ao Oscar de Filme Estrangeiro.



Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.