06
jan
2017
Crítica: “Passageiros”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2017 • Postado por: João Vitor Moreno

Passageiros (Passengers)

Morten Tyldum, 2016
Roteiro: Jon Spaihts
Sony Pictures

2.5

Passageiros se passa em uma nave espacial que está levando milhares de pessoas da Terra para habitarem outro planeta. A viagem tem duração prevista de mais de 100 anos e todos a bordos estão hibernando, porém, após uma falha no sistema, um passageiro acorda 90 anos antes no esperado e não consegue voltar ao processo de hibernação. Após conviver um tempo com a perspectiva de que vai ter que viver o resto de sua vida sozinho na nave, ele decide então acordar outra passageira para lhe fazer companhia, mas não a conta que tomou essa decisão deliberadamente, fingindo que sua cápsula de hibernação também sofreu uma pane.

Primeiro preciso fazer um comentário sobre algo que nunca falo, pois acredito que não é papel de um crítico de cinema: a campanha de divulgação. A campanha de divulgação de um filme (especialmente os trailers) não deve influenciar na qualidade e na avaliação de um filme em si, e com este trabalho não é diferente, mas me sinto na necessidade de comentar algo, até por uma questão ética. Os trailers e sinopses oficiais deste filme omitem deliberadamente a informação de que o despertar da personagem feminina foi na verdade provocado pelo outro personagem. É claro que não há problemas em omitir informações importantes nos trailers (na realidade, acredito que quanto menos um trailer mostra sobre a trama em si, melhor ele é), mas essa omissão não existe para fazer suspense, e sim para sugerir que a pane da nave acordou os dois, e com isso esconder a premissa real do filme, que com certeza geraria protestos por ser obviamente sexista (um homem que priva uma mulher de sua vida – literalmente! – para que ela possa servi-lo: e não importa se depois ela venha a realmente se apaixonar por ele, pois quando ele tomou a decisão de acorda-la não tinha como ter certeza disso). Que fique claro: não sou a favor de boicotar (ou mesmo de evitar) qualquer filme por este ter uma visão da qual discordo, e não acho que este filme especificamente deva ser ignorado por conta de sua premissa sexista, mas esconder isso propositadamente e sugerir algo diferente apenas para fugir de polêmicas é, no mínimo, um desvio ético que me vejo na obrigação de apontar.

Esclarecimento feito, vamos ao filme!

O design de produção merece créditos por criar o ambiente interno da nave como um lugar interessantíssimo (dá até vontade de passar uns dias lá), e a sequência que acompanha o protagonista sozinho explorando as possibilidades deste seu imprevisto lar está entre as melhores coisas do filme. Os efeitos visuais também são bons (não será injustiça se forem indicados ao Oscar), tanto ao retratarem os mecanismos tecnológicos do ambiente quanto ao explorarem as possibilidades visuais dos cenários em que a nave passa – que são quase sempre visíveis pelas janelas. Já o 3D vale um pouco a pena nas cenas externas, que criam um deslumbramento interessante, mas é praticamente imperceptível ao longo de todo o filme, que se passa inevitavelmente em ambientes com profundidade de campo reduzida.

Mas quanto ao roteiro, o filme é um desastre. Já se atrapalhando desde os minutos iniciais ao incluir falas completamente expositivas (como quando o protagonista diz para si mesmo “Acordei cedo demais” mesmo quando essa informação já está claríssima pelo que vemos em tela), o roteiro não consegue nem fazer o básico que é criar uma dinâmica interessante entre seus dois protagonistas, já que o relacionamento deles vai sempre para o caminho mais óbvio possível, e desde o início já dá para antever todos os principais acontecimentos entre eles (é óbvio que eventualmente vão namorar, é óbvio que em algum momento ela vai descobrir a verdade, é óbvio que no fim… bem, você já pode imaginar).

E o pior é ver que o roteiro parece fazer questão de descartar toda e qualquer eventual complexidade que seria possível surgir entre eles. Desta forma, até mesmo a atitude reprovável do protagonista de condenar a “amada” (?) antes mesmo de conhece-la é algo que o filme não parece disposto a discutir, já que deixa claro que acredita que o personagem agiu da forma correta, ou ao menos um “errado que deu certo”, pois no fim o que importa é o amor entre eles. E o fato de escalarem um ator tão carismático e difícil de não gostar como Chris Pratt para o papel deixa claro a visão pretendida ao personagem. Isso sem contar o sexismo claro de trazer um homem que priva uma mulher de sua vida para satisfazer seu desejo.

E se me permitem uma breve suposição: acho que o filme poderia ser consideravelmente melhor contando quase a mesma história, desde que transformasse a personagem feminina em protagonista e se iniciasse com o seu despertar, assim não saberíamos se o outro personagem estaria falando a verdade ou não, o deixando como uma figura apropriadamente suspeita. E mesmo se depois o filme quisesse ir para o romance, desde que tivesse ela como protagonista daria para manter certa dubiedade em torno dele, e pelo menos não o retrataria como herói.

(Pule para o próximo parágrafo se quiser evitar spoilers). E o que dizer do absurdo que é trazer o personagem de Laurence Fishburne entrando e saindo do filme sem a menor explicação, apenas para resolver alguns problemas para a trama poder acabar? Ele aparece por uma coincidência absurda (de todos os milhares de passageiros que poderiam acordar, a pane afeta justamente um dos mais poderosos), despeja vários diálogos expositivos, oferece aos protagonistas coisas que de outra forma seriam impossíveis (como acesso “vip” para a enfermaria), e morre sem explicação, conseguindo no processo trazer mais um ultrapassado clichê: o do personagem doente que tosse sangue.

E se não fosse o suficiente, o terceiro ato contradiz completamente o que havia sido feito até então: o que era um filme supostamente intimista de drama e romance vira uma ação megalomaníaca. E não é só por se contradizer que este ato final se mostra tão falho, já que, além disso, também é completamente insatisfatório em sua resolução, escolhendo o caminho mais genérico e desinteressante possível para seu desfecho, e também implausível (aqui não darei detalhes para evitar spoilers, mas pode ter certeza de que quando você assistir ficará muito claro).

Não comovendo por seus personagens e não trazendo nada de novo como ficção científica, Passageiros é um filme que até tem uma premissa que poderia render algo interessante se bem explorada, mas descarta suas possibilidades em troca de um filme convencional e esquecível.



Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.