01
jan
2017
Crítica: “Um Cadáver Para Sobreviver”
Categorias: Críticas • Postado por: Marcelo Silva

Um Cadáver Para Sobreviver (Swiss Army Man)

Dan Kwan e Daniel Scheinert, 2016
Roteiro: Dan Kwan e Daniel Scheinert
Blackbird, Cold Iron Pictures e Tadmor

5

5

Percebo que estou diante de um grande filme quando, ao subir dos créditos finais, me vejo com os olhos marejados, completamente atordoado e sem conseguir pensar em mais nada – como se, por algum tempo, eu saísse do sofá e fosse para outro lugar. É assim que descrevo a minha experiência com Um Cadáver Para Sobreviver, longa de estreia no cinema dos diretores Dan Kwan e Daniel Scheinert.

Filmado em apenas 22 dias, Um Cadáver Para Sobreviver traz o jovem Hank (Paul Dano), que, perdido em uma ilha deserta, decide se enforcar. Mas, bem na hora em que ia dar fim à sua vida, ele encontra o corpo de Manny (Daniel Radcliffe) à beira-mar. A partir do momento em que Hank descobre que o rapaz, mesmo morto, consegue conversar e pode ser sua salvação na ilha, tem início uma improvável amizade, marcada por aventuras, fantasias sexuais, reflexões sobre a vida e peidos (não, você não leu errado).

Para que o filme seja desfrutado da melhor maneira possível, é preciso entender que ele, propositalmente, abraça o ridículo, o surreal, o pitoresco. Não perca tempo tentando compreender a geografia da ilha ou a razão de um cadáver soltar gases que, na água, o transformam em um verdadeiro jet-ski. A obra não obedece aos nossos padrões lógicos – o mundo retratado na tela é o mundo de Hank e Manny, com suas devidas particularidades. Esse talvez seja o grande acerto da dupla de diretores (que também assinaram o roteiro), nos poupando da racionalidade sufocante que se tornou tão comum nos nossos tempos.

Paul Dano está tão convincente que imaginar outro ator no papel se torna uma tarefa quase impossível. Carregando consigo um verdadeiro mosaico de insegurança, solidão e mágoa, Hank parece a adaptação legítima de muitos de nós. Não são poucas as cenas que nos conectam ao personagem. Em uma delas, Hank relata que sempre imaginou que, instantes antes da morte, as belas imagens da sua vida viriam à cabeça. Mas, como ele não tinha boas lembranças, isso obviamente não aconteceu ao tentar o suicídio – quem nunca teve medo, assim como eu, de passar a vida em “branco”, chegando ao final dela sem conseguir dizer que valeu a pena? A sua incapacidade de comunicar os sentimentos, então, dispensa comentários. Quantas vezes, do mesmo jeito que ele, não fomos capaz de dizer uma única palavra para a “garota ou o garoto do ônibus”, vendo a pessoa ir embora?

“A verdade é que não sou bom nisso” é a frase que Hank diz para Manny, na tentativa de explicar por que nunca criou coragem para falar com Sarah (a “garota do ônibus” do filme, vivida por Mary Elizabeth Winstead), mantendo os seus sentimentos escondidos. Na hora, me senti representado pela frase, até porque sempre soube que também nunca fui bom “nisso”. Outro ponto bastante pertinente é a relação entre o rapaz e seu pai. Os dois não se falam e, para evitar esquecimentos, a mensagem de “feliz aniversário” é programada para ser enviada ao celular automaticamente, algo não muito diferente da nossa realidade, em que dependemos de avisos do Facebook para lembrar o aniversário de amigos e familiares – e, na maioria das vezes, o “parabéns” fica só na mensagem, já que não fazemos a mínima questão de encontrar a pessoa para lhe dar um abraço ou lhe dedicar um tempo do dia. Da mesma maneira que o pai de Hank se contenta com o recado automático, nós apertamos umas teclas e consideramos nosso dever cumprido.

Daniel Radcliffe, que já apareceu na minha lista de atores que ficaram presos a um determinado papel, surge aqui na pele do personagem mais esquisito da sua carreira até então: um cadáver falante, sem memória e flatulento. Graças à dedicação de Radcliffe – é interessante notar que ele recusou ser substituído por um boneco em certas cenas -, Manny passa de uma figura que tinha tudo para ser considerada artificial e forçada para uma totalmente simpática. Junto com Hank, o personagem tem momentos memoráveis: o passeio de ônibus, a sessão de cinema, a festa, entre outros. Tudo improvisado no meio da mata, é claro. A química entre os dois é tão grande a ponto de levar o espectador a torcer para que o relacionamento vá além da amizade, já que, no segundo ato, fica impossível imaginar um existindo sem o outro.

Da parte técnica, chama atenção o bom uso da fotografia e da edição. A primeira, com movimentos de câmera cuidadosos e uma iluminação eficaz, é bem-sucedida ao fazer o espectador sentir o ambiente da ilha. O trabalho de edição também mostra-se cuidadoso, considerando a construção das sequências envolvendo os personagens em suas peripécias.

No Festival de Sundance, Um Cadáver Para Sobreviver foi rotulado como o “filme mais estranho do evento” e dividiu opiniões. Parte do público saiu antes do final, incomodado com as piadas de flatulência trazidas pelo roteiro, em uma prova de falta de sensibilidade em entender que a história não se resume a isso. Mesmo assim, Dan Kwan e Daniel Scheinert venceram os prêmios de direção. O longa também foi reconhecido no Festival de Cinema Fantástico de Sitges, em Barcelona, onde foi premiado nas categorias de Melhor Filme e Melhor Ator (para Daniel Radcliffe).

Dificilmente Um Cadáver Para Sobreviver vai ter a repercussão que merece – e a sua trama inusitada pode contribuir para isso, afastando uma determinada parcela do público. De qualquer forma, é um filme que tem muito a dizer sobre nós mesmos e é uma ótima opção para quem, em pouco menos de uma hora e quarenta minutos, está disposto a ir do riso à lágrima.



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!