25
jan
2017
Crítica: “Don’t Think Twice”
Categorias: Críticas • Postado por: Andressa Gomes
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Don’t Think Twice

Mike Birbiglia, 2016
Roteiro: Mike Birbiglia
The Film Arcade

3

Todo o mundo sabe compadecer o sofrimento de um amigo, mas é preciso ter uma alma realmente bonita para se apreciar o sucesso de um.  A frase de Oscar Wilde, citada pelo comediante Mike Birbiglia durante uma entrevista para divulgar seu filme mais recente, Don’t think Twice, sintetiza muito bem do que se trata essa obra. Birbiglia não só escreveu e dirigiu, como também atuou nessa adorável comédia que tem como tema a própria comédia, a busca pelo sucesso e aqueles que escolheram fazer do humor o seu ofício.

O filme tem como centro o grupo de improviso teatral nova- yorkino chamado The Commune, formado por: Allison (Kate Micucci), Bill (Chris Gethard), Lindsay (Tami Sagher), Miles (Mike Birbiglia) e o casal Jack (Keegan-Michael Key) e Samantha (Gillian Jacobs). Eles se apresentam semanalmente em um pequeno teatro na periferia da cidade. Cada um deles possui seus sonhos e aspirações dentro da área do entretenimento e durante os outros dias tem que se virar com bicos e empregos que realmente pagam suas contas, com exceção de Lindsay, que vem de uma família rica.

A parceria entre eles não é só profissional. Desde o inicio fica claro que a ideia de Comunidade não faz parte apenas do nome do grupo, mais tambem da conduta  de seus membros. Todos se esforçam para que o grupo obtenha mais sucesso e  e tem um forte laço de amizade fora do palco. Com 10 anos de existência,eles possuem uma base de fãs sólida, dentro do nicho underground da comédia de  improviso, mas aquela grande oportunidade ainda não chegou na vida de nenhum deles. Todos compartilham não só a paixão pelo que fazem mais também dos mesmos medos: O fracasso profissional diante da família, as dúvidas quanto ao talento, e pra completar, a recente possibilidade de perderem seu espaço de apresentação.

A harmonia do grupo é abalada quando Jack acaba sendo aprovado após fazer um teste a convite de um produtor, para um conhecido programa de TV, e atinge uma fama instantânea. Conforme vai conquistando cada vez mais reconhecimento e oportunidades, ele vai se afastando do grupo, não só profissionalmente como também no plano pessoal. Ainda que exista uma alegria genuína por “um do grupo” ter conseguido finalmente a grande oportunidade, o conflito e as duvidas que os outros passam a sentir com essa conquista são notáveis, sobretudo da parte de Miles, quem fundou o grupo e ensinou a todos, e não consegue esconder a frustração de ver seus ex alunos chegando a lugares que ele jamais conseguiu.

Uma das personagens mais interessantes é Samantha, namorada de Jack, que também consegue a mesma oportunidade para o texto, mas age de forma diferente.. Ela é feliz com a vida que já tem, com o grupo e com seu relacionamento, prefere viver o momento, e ainda que também tenha seus sonhos, teme as mudanças que o sucesso gera inevitavelmente. Fama e dinheiro não tem o mesmo valor para todas as pessoas e essa personagem é uma prova disso.

Todos os atores tem uma vasta experiência com improviso e stand up comedy na vida real, e isso faz os diálogos e a dinâmica entre os personagens soar muito natural, por vezes se assemelhando a um documentário. As cenas em que os personagens improvisam não parecem ensaiadas e fluem muito bem. Ponto para Birbiglia na direção. As sequencias que contam com as participações especialíssimas de Ben Stiller e Lena Dunham (como eles mesmos) são divertidas e também merecem destaque.

Don’t Think Twice é uma comédia adorável, com fortes momentos de reflexão, que trata de um tema comum para a maioria das pessoas: a frustração profissional. Enquanto a maior parte dos filmes tem como protagonistas os aspirantes ao sucesso que conseguem conquistar o estrelato, este vai fundo na angustia e insegurança sentida por aqueles que ficam para trás quando comediantes avançam na carreira.

Com relação ao roteiro, Birbiglia desenvolveu personagens e arcos interessantes, mas falhou em equilibrá-los de forma inteligente. Ficou aquela sensação de “quero mais”,  de que ainda tem mais para  se explorar em termos de história e  dos personagens. Esse conceito de revelar os bastidores do ramo da comédia, a coxia de um grupo de improviso, poderia funcionar melhor como uma sitcom – inclusive os diálogos e personagens têm um ritmo e perfil  que em muito lembram séries como New Girl e How I met your mother. Uma série que acompanhasse a rotina do grupo certamente cairia bem, e esse filme poderia funcionar como o episódio piloto. Quem sabe futuramente? Inspiração e bagagem  para contar boas histórias desse universo é o que não falta para Birglia ou qualquer comediante/roteirista que já esteja na estrada há muito tempo e que escrevesse para esse projeto.



Não lembro de uma época em que os filmes ou a TV não fossem parte da minha vida. Considero o Cinema mais do que entretenimento, uma das mais completas formas de arte e de registro da humanidade. Estudante de Cinema e Audiovisual. Dentre os diretores/roteiristas favoritos estão: François Ozon, Lars Von Trier, Michael Haneke, Satoshi Kon e Vincent Minneli. Sem vergonha de gostar de consumir/discutir cultura pop, viciada em “The Big Bang Theory”, alguns reality shows (Master Chef, The Bachelor) e séries coreanas.