12
jan
2017
Crítica: “Moana: Um Mar de Aventuras”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2017 • Postado por: Raphael Cancellier

Moana: Um Mar de Aventuras (Moana)

John Musker, Ron Clements, 2016
Roteiro: Jared Bush
Walt Disney Studios

4.5

Responsável por alguns dos grandes sucessos dos estúdios Disney, a dupla John Musker e Ron Clements, afastada desde A Princesa e o Sapo (2009), última animação do estúdio produzida em desenho 2D tradicional, volta à ativa com Moana: Um Mar de Aventuras.

Moana, a jovem-título do filme, é filha do chefe de uma ilha na Polinésia e tem como destino se tornar a líder do local e substituir seu pai. No entanto, ela é escolhida pelo oceano para ir atrás do coração roubado da deusa que toma conta das ilhas, antes que a sua região sucumba à escuridão. Contrariando a ordem de seu pai, que pretende manter tudo como está, e proíbe que as pessoas entrem no mar e passem dos recifes de corais, Moana se lança no mar em busca de Maui, o semideus que roubou o coração da deusa Te Fiti.

O roteiro da produção não traz novidades, se comparado às produções anteriores. A protagonista recebe uma missão, vai em busca do seu objetivo, enfrenta os perigos e se transforma no final. No entanto, Moana traz uma personagem principal fora dos padrões. Ela possui cabelos cacheados, um tom de pele avermelhado e um corpo comum, diferente dos corpos magros e torneados das protagonistas anteriores. A princesa se aproxima muito mais à figura das crianças do que de adolescentes e adultos. Além disso, Moana possui fibra, coragem, desafia os padrões e não depende de um homem para cumprir a sua missão. Inclusive, não existe uma história de amor que guie a obra, nem como pano de fundo. O filme confirma um fato que já vimos anteriormente em Frozen: Uma Aventura Congelante, com foco nas protagonistas femininas, sem a figura masculina ao lado, e em histórias de amor que não seja de homem/mulher.

Outro fator que difere Moana das outras produções é a de que ele é um filme direto, com foco na história principal e no seu objetivo. Não existem narrativas paralelas e personagens secundários que atravessem o enredo principal. Temos Moana e Maui, o barco e a missão de chegarem até Te Fiti, com cenas ágeis, cada uma em função da anterior, dando a sensação de encadeamento e desencadeamento. Inclusive, os personagens secundários – o galo acéfalo e o porco medroso – são extremamente dispensáveis, não trazem graça e não acrescentam em nada ao enredo principal. Eles não sustentaram o alívio cômico do filme, que ficou por conta do mar; este sim, rendendo bons momentos de riso e utilizado com muita originalidade.

A maioria das cenas da obra possui excessiva profundidade de campo, mostrando a imensidão do oceano, da natureza e do céu, com o azul da manhã e com as estrelas da noite, trazendo sequências belíssimas. A paleta de cores é solar, transmitindo a aura praiana à qual o filme está imerso, diferente dos tons azuis, brancos e melancólicos utilizados em Frozen, que davam a sensação de prisão e da tristeza de Elsa. O tom de azul utilizado no mar é vívido e agradável aos olhos, parecendo real. A produção caprichou nos efeitos visuais e, em certos momentos, não sabemos se estamos assistindo a uma animação ou a um live-action. Definitivamente, Moana foi feito para ser assistido nas telonas.

A trilha sonora também dá o seu show à parte. Com canções compostas pelo produtor da Broadway Lin-Manuel Miranda juntamente com o músico polinésio Opetaia Foa’i e instrumentalização de Mark Mancina, as músicas dão a impressão de uma saga mágica no Oceano Pacífico. Os solos dos personagens são os grandes destaques do filme. O solo de Maui, com imagens que misturam desenhos digitais e em 2D, é um estímulo visual muito próximo ao da cena do banquete em A Bela e a Fera (1991). Já a cena musical do caranguejo Tomatoa, com luzes neon e psicodélicas, hipnotiza os nossos olhos.

A mitologia costurada como pano de fundo é forte e interessante, com os deuses, demônios e a gênese das ilhas da região. Nota-se o cuidado do roteiro no momento da pesquisa e de pré-produção. No final, ainda conseguimos observar a semelhança da deusa Te Fiti com Iemanjá (sério, não tem como não perceber a semelhança!). O filme fecha com um clímax surpreendente e uma quebra de expectativa que não citarei aqui, mas que trouxe originalidade à obra no quesito mocinhos e vilões.

Moana: Um Mar de Aventuras é a força da mudança, da luta pelos objetivos e superação dos desafios. Ela quebra com a norma imposta e movimenta aquilo que é estático. É um filme inspirador e grandioso em sua totalidade e em suas entrelinhas.



Futuro roteirista de TV e cinema, assisto de tudo, sem preconceitos, e procuro prestar atenção na forma como a história é contada. Sou apaixonado pelo cinema brasileiro contemporâneo, mas também sou Disneymaníaco. Meus diretores preferidos são Almodóvar, Gabriel Mascaro, Tarantino, Aïnouz, Von Trier e Sofia Copolla.