29
jan
2017
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “A Que Distância”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Marcelo Silva

A Que Distância (Qué Tan Lejos)

Tania Hermida, 2006
Roteiro: Tania Hermida
Equador
Corporación Ecuador para Largo

2

Road movies são um prato cheio para quem quer contar uma boa história: a estrada é o cenário perfeito para aventuras, autodescobertas e encontros entre personagens que, muitas vezes, possuem em comum apenas o fato de estarem no mesmo local. E bons títulos do gênero não faltam – Thelma e Louise, Central do Brasil, Pequena Miss Sunshine e Na Natureza Selvagem, só para citar alguns. Infelizmente, o longa A Que Distância, da equatoriana Tania Hermida, entrega uma história absolutamente vazia, uma viagem que fica a anos-luz das que vemos nos grandes road movies.

O enredo acompanha a turista espanhola Esperanza (Tania Martinez), recém-chegada a Quito, capital do Equador, e a jovem estudante Tristeza (Cecilia Vallejo). As duas acabam se conhecendo em um ônibus com destino a Cuenca, no interior do país. Quando as estradas são paralisadas por uma greve do movimento indígena, elas são obrigadas a seguir viagem a pé e pegando carona com desconhecidos – enquanto Esperanza viaja preocupada apenas em conhecer as atrações turísticas, Tristeza está numa corrida contra o tempo, pois planeja chegar antes da festa de casamento do seu amante para fazê-lo desistir de se casar.

A princípio, cheguei a pensar que estava assistindo a um filme de Pedro Almodóvar. A presença de voice over (voz sobreposta, que sai da boca de um personagem que não está em cena) e off screen (quando ouvimos um personagem que não vemos, mas que está fisicamente presente na cena, no mesmo ambiente) para apresentar os personagens – a partir de informações como filiação e idade da primeira menstruação ou ejaculação – é um recurso que parece bem a cara do diretor espanhol. Duas mulheres protagonistas também são parte do repertório de Almodóvar, um especialista em abordar personagens femininas fortes na tela grande. No entanto, as semelhanças param por aí.

A incapacidade de Tania Hermida – que também assinou o roteiro – de criar bons diálogos pesa bastante para o fracasso do filme. Em muitos momentos, Esperanza e Tristeza (os nomes são uma tentativa falha de dar uma dimensão poética às personagens, sendo que a segunda inventou que se chamava Tristeza só para sinalizar que estava angustiada) têm falas que parecem saídas da boca de uma criança de onze anos. A cena na praia em que elas discutem ao comparar a Espanha e o Equador é de dar vergonha alheia.

As protagonistas também são construídas da maneira mais caricata possível, com Tania Martinez dando vida à turista ingênua que só vê a beleza natural e o lado bom do país e a péssima Cecilia Vallejo como a jovem nativa ranzinza e desiludida com a situação do Equador. Quando surge em cena Jesús (Pancho Aguirre), um ator que, carregando as cinzas da avó, se une a Esperanza e Tristeza, temos a leve sensação de que é um personagem que vai mudar o rumo da história. Lamentavelmente, isso fica só na promessa – com exceção do monólogo que faz para Tristeza, explicando que a felicidade é só uma questão de saber onde colocar o ponto final e comparando a situação com o desfecho de um filme (raro acerto do roteiro de Hermida), Jesús nada acrescenta ao longa.

Percebe-se, ainda, que a intenção da diretora era traçar um perfil do Equador, mostrar suas contradições, seus atrativos, seu povo. Mas, conforme a história vai esbarrando em personagens estereotipados, fica difícil extrair alguma coisa. O rapaz fanático por futebol, a velhinha que não perde a novela e o jovem Don Juan que se envolve com mais de uma mulher ao mesmo tempo são tipos encontrados em múltiplos países mundo afora. É só mudar o idioma (ou o sotaque, em alguns casos) e o espaço que a trama poderia se passar tranquilamente na Argentina, no Brasil, no México. Ou seja, falta a essência, a identidade do país.

Premiado no Festival de Cinema de Havana e de Montreal, A Que Distância também fica devendo na parte técnica. A fotografia é bastante econômica, dando a impressão de que se trata de um filme produzido na década de 1970 ou 80. Houvesse um trabalho melhor, as cores das paisagens equatorianas teriam muito mais impacto sobre o público. Faz falta também uma trilha sonora memorável – algo que Antônio Pinto e Jaques Morelenbaum conseguiram em Central do BrasilA Que Distância é, enfim, uma parada sem graça da nossa Volta ao Mundo em 80 Filmes.

Apertem os cintos porque a viagem continua. Semana que vem vamos desembarcar na Escócia, com o filme O Lixo e o Sonho, da diretora Lynne Ramsaya mesma de Precisamos Falar Sobre o Kevin.



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!