22
jan
2017
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “Cairo 678”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Pedro Bonavita

Cairo 678 (678)

Mohamed Diab, 2011
Roteiro: Mohamed Diab
Egito
Imovision

4

2016 foi um ano de polêmicas. O noticiário, a cada dia, dava motivos e mais motivos para que as polêmicas fossem criadas. As redes sociais são capazes de disseminar esses assuntos com uma velocidade impressionante. Os assuntos viram polêmicas. Vivemos em um mundo onde não se aceitam opiniões contrárias e muito menos luta por direitos, que nem deveriam ser lutados de tão direitos que esses são. Uma das principais polêmicas que se criou no Dacebook foi quando as pessoas começaram a colocar em seus avatares os dizeres: “Eu Luto Contra a Cultura do Estupro”. Os machistas de plantão logo começaram: “Como assim?”. Vieram aquelas discussões com argumentos infelizes e vazios. No Rio de Janeiro, onde vivo, o metrô possui um vagão destinado somente às mulheres, homens não entram por culpa dos próprios homens. A existência desses vagão por si só já é um grande argumento de que de fato existe essa cultura.

No Egito não é diferente, até a década passada (isso mesmo, século XXI já) o assédio sexual não era considerado crime no país africano. E acredito que ainda não seja considerado em tantos outros países, em tantos outros continentes. A criminalização não pareceu surtir tanto efeito, já que até hoje as mulheres lutam contra o assédio. Mas elas então se sentindo mais encorajadas à fazer denúncias, o que já é um avanço. Existem projetos culturais também a fim de conscientizar as mulheres.

Cairo 678, filme dirigido e roteirizado por Mohamed Diab conta a história verídica de três mulheres: Fayza (Bushra Rozza) mulher casada, que mesmo passando por dificuldades financeiras prefere andar de táxi a pegar um ônibus lotado onde será assediada com toda certeza; Seba (Nelly Karim) mulher divorciada que dá aulas de defesa pessoal para que as mulheres possam se defender de molestadores, sofreu assédio sexual durante uma comemoração de uma vitória da seleção de futebol do Egito e foi deixada pelo marido porque ele não conseguia mais tocá-la após o assédio; Nelly (Naheb El Sebai) noiva, trabalha em um call center onde é constantemente assediada por homens do outro lado da linha, humorista stand up que sofre com o machismo da platéia, foi assediada por um agressor na frente da casa de sua mãe e resolveu denunciar o crime.

Em determinado momento do roteiro as três se encontram e unem forças e diferenças contra o abuso sexual. A montagem ajuda muito para que esse encontro aconteça de maneira orgânica, apesar de já dar indícios desde o início da projeção que fatalmente aconteceria. A apresentação das protagonistas acabam se entrelaçando por circunstâncias naturais da vida de uma cidade grande, valorizada pelo fato de Seba ter dado uma entrevista na televisão. De qualquer forma, o longa não se destaca exatamente pela parte técnica, apesar de bem dirigido e contando com uma câmera que dá um tom documental e urgente, trazendo a denúncia o tempo todo à tela.

A força do filme se concentra na temática e a maneira como é abordada pelo roteiro. A sensação de repetição que o roteiro nos causa é proposital e acaba incomodando. É importante que incomode. Você assistir a assédios sexuais a cada 5/10 minutos precisa ser incômodo. O início do longa já denuncia o que está por vir, já que ao apresentar Fayza dentro de um táxi onde toca uma música no rádio com o refrão dizendo que “mulheres são loucas” mostra o quão o machismo está enraizado naquela cultura. Enraizado de uma tal forma que sofrer o assédio acaba sendo motivo de vergonha para a mulher e não para o agressor como deveria ser. Na época (antes da primavera árabe que ocorreu também no Egito) em que a trama é ambientada o governo fazia questão de esconder a existência do abuso sexual no Egito, usando a religião muçulmana como uma muleta para isso. Exatamente por isso a revolução conduzida pelas três mulheres são tão importantes: se Fayza e Seba acreditam que somente uma reação violenta vai resolver, Nelly confia na justiça para que isso resolva. Fato é que, mesmo que fazer justiça com as próprias mãos não seja a forma mais correta para se conseguir o que quer, foi o conjunto das duas atitudes que fizeram com que aquele país tivesse uma mudança em sua legislação

Cairo 678 é um grito de liberdade das mulheres (Nelly constantemente diz se sentir presa no sentimento de “denuncio ou perco meu noivo?”), mas também é a confirmação da certeza de que a culpa nunca é da mulher, independente da roupa que ela usa, ela não está pedindo que você passe a mão nela. E essa questão da roupa fica ainda mais claro no filme, já que Fayza anda na rua toda coberta, enquanto Seba e Nelly andam com roupas mais “ocidentais”. Ambas são abusadas. Se não é um primor de qualidade técnica, o longa é extremamente necessário.

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Semana que vem nosso avião volta para a América do Sul e desembarca no Equador com o longa A que Distância. Não perca!



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.