08
jan
2017
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “Morango e Chocolate”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Raphael Cancellier

Morango e Chocolate (Fresa y Chocolate)

Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabío, 1994
Roteiro: Senel Paz
Cuba
Miramax Films

4

Na nossa Volta ao Mundo em 80 Filmes desta semana vamos visitar a cidade de Havana, Cuba, para falar sobre Morango e Chocolate, uma coprodução cubana-mexicana-espanhola, que recebeu diversos prêmios no Festival de Berlim e de Gramado.

A obra conta a história de David (Vladimir Cruz), um universitário militante e comunista e Diego (Jorge Perugorría), um homossexual que não aceita a forma como o regime de Fidel Castro trata a comunidade LGBT e a censura artística. David, por conta da sua orientação sexual e o seu posicionamento político, evita Diego após ser abordado por ele. Aos poucos, os dois constroem uma sólida amizade, independentemente da visão de mundo de ambos.

O próprio título do filme já nos dá a ideia desse confronto de ideais, com o sabor delicado  e intenso do morango, personificado por Diego, e do chocolate, firme e duro, representado por David. Em nenhum momento o filme se torna panfletário e nos faz escolher entre uma visão ou outra. Seu enredo apresenta e critica os dois lados em doses homeopáticas.

A narrativa da produção lembra em muitos momentos as telenovelas brasileiras, com ganchos entre as cenas e cortes nos diálogos importantes para uma mudança de cenário e, assim, a resolução do conflito. A história paralela traz uma comicidade sutil, com Nancy (Mirta Ibarra), amiga de Diego. Ela possui transtornos psicológicos, conversa com as imagens dos santos e tem um repertório frases espirituosas.

Os planos gerais do cortiço em que Diego mora nos remetem às telenovelas do México, talvez herdado do país coprodutor, assim como as cores, o figurino e a performance dos atores, que assemelham-se aos filmes espanhóis. O filme também possui excelentes planos para a época, com uma câmera ágil, que se movimenta e penetra pelo cenário, direcionando o nosso olhar juntamente com a movimentação dos personagens.

Um grande momento do filme é quando Germán (Joel Angelino), amigo de Diego, quebra as imagens sacras que o amigo possui com um grito de desespero. A cena das imagens quebradas e sem cabeças causa uma estranheza, porém, possui uma bela fotografia. As imagens dos santos possuem a foice, símbolo do comunismo, transpassada em seus corpos.

Apesar da força de Morango e Chocolate, ele peca pelo excesso de diálogos semelhantes uns aos outros. No primeiro encontro entre Diego e David já percebemos a antítese dos personagens. Porém, a partir de sua metade, o filme ganha uma barriga por conta da repetição de frases que tentam reforçar algo que já foi dito anteriormente.

A homofobia e a discriminação em Cuba é algo muito discutido pelas pessoas hoje em dia, principalmente para depreciar o país e o seu regime político, porém, é necessário lembrar que elas não são específicas do local, uma vez que todos os países possuem uma herança patriarcal, machista, branca e heterossexual. Em 1976, quando foi criado o Ministério da Cultura, foi adotada uma nova Constituição, em que declarava ser inconstitucional separar os homossexuais do mundo da educação e da cultura, como dizia a anterior. O país adotou o regime socialista a partir de 1960 com a Revolução Cubana, liderada por Fidel Castro e Che Guevara. Em muitos momentos do filme, somos apresentados à pobreza do país, com os planos gerais da região em que Diego mora, em contraponto com a diegese universitária, estudada e esclarecida de Cuba. No entanto, é importante reforçar que essa não é a única visão da obra, que nos coloca para pensar, porém, sem fazer com que escolhamos qual é o lado melhor.

A última cena, do abraço entre David e Diego, é forte e tocante, mostrando a transformação dos personagens e a delicadeza da amizade que foi construída ao longo do filme. Morango e Chocolate é uma obra que fala da amizade que é inabalada independentemente do posicionamento das pessoas (quem dera que na vida real fosse assim, não é mesmo?).

Na semana que vem desembarcaremos na Dinamarca com o filme Querida Wendy, não perca!



Futuro roteirista de TV e cinema, assisto de tudo, sem preconceitos, e procuro prestar atenção na forma como a história é contada. Sou apaixonado pelo cinema brasileiro contemporâneo, mas também sou Disneymaníaco. Meus diretores preferidos são Almodóvar, Gabriel Mascaro, Tarantino, Aïnouz, Von Trier e Sofia Copolla.