15
jan
2017
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “Querida Wendy”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Matheus Benjamin

Querida Wendy (Dear Wendy)

Thomas Vinterberg, 2005
Roteiro: Lars von Trier
Dinamarca
Nordisk Film

3.5

Em meados dos anos 90, dois jovens cineastas dinamarqueses se aventuraram pela vontade de mudar um pouco o jeito de se fazer cinema, deixando-o cada vez mais autoral e menos comercial. Inspirados por diversas ideias e teorias de cineastas do passado, mas agregando novas tendências e jeitos de se pensar o “modo de fazer filmes”, Lars von Trier e Thomas Vinterberg escrevem um manifesto e é assim que surge o Dogma 95; considerado o último movimento cinematográfico, o dogma expressava uma série de regras básicas para se fazer esse cinema mais autoral e livre de imposições da indústria cinematográfica. Embora pareça contraditório aplicar-se regras sobre regras, diferentes cineastas de diversos lugares se uniram à ambição dos dinamarqueses e embarcaram na jornada árdua de produzir filmes orgânicos e com nuances próprias. É claro que muita coisa deu errado e nem mesmo seus “fundadores” obedeceram suas normas impostas. O resultado é o pequeno legado de filmes inusitados que valem a pena serem estudados e recordados. E o filme da vez de nossa Volta ao Mundo é dinamarquês, com uma boa parte da equipe do referido país (incluindo o diretor e o roteirista – que se unem depois de algum tempo de parceria do Dogma), embora se passe nos Estados Unidos com elenco norte-americano e seja falado em língua inglesa.

Querida Wendy é um misto de surrealismo com convencionalismo, mas funciona até certo ponto. O espectador é apresentado ao protagonista Dick (Jamie Bell), um garoto aparentemente introvertido que trabalha em um supermercado e é supervisionado por uma espécie de babá, a nada delicada Clarabelle (Novella Nelson). Por conta dela, o garoto acaba adquirindo uma arma que acredita ser de brinquedo, mas com a percepção de um colega de trabalho descobre que trata-se de uma verdadeira. Esse colega é Stevie (Mark Webber) e junto dele passa a praticar e estudar a arte de se ter uma arma e ser um pacifista. Aos poucos os dois encontram novos membros para o clube que montam e juntos, todos eles, passam a trocar figurinhas sobre seus gostos e a venerar diversos tipos de armas de fogo.

O roteiro de Lars Von Trier (sim, ele mesmo, o diretor de Dogville e Ninfomaníaca) caminha a passos lentos em sua construção. Os personagens vão sendo introduzidos aos poucos e suas paixões são postas à tona com uma serena e interessante crescente ao espectador. Dick se revela um bom narrador à trama e em formato de carta escreve e declama sua própria história à arma, Wendy – todas as armas no clube de armas precisam de um nome e isso é bastante levado a sério. Alguns pontos chaves no final do segundo ato dão uma força diferente ao longa que se quebra e transforma-se em um estudo de personagens e conflitos. De repente, o espectador está assistindo a um fogo cruzado entre os membros do clube (com objetivos nobres) com a polícia local altamente munida e sem medos exteriores, o que deixa tudo muito mais instigante de ser acompanhado.

A direção tem uma certa ousadia na forma de desenvolver a trama, quando faz pequenos cortes para ilustrar inventividades do roteiro, como as fotos de certos personagens depois de mortos. Thomas Vinterberg é o diretor dos ótimos Festa de Família (1998) – que inclusive é um dos filmes mais importantes do Dogma 95 – e A Caça (2012); esse longa é bastante criativo quando se alia ao roteiro e o ritmo imposto se torna crescente assim como a apresentação da trama. E embora os atos sejam um tanto quanto destoantes, os personagens são interessantes mesmo não apresentando tantas dimensionalidades. A arte possui tons muito neutros, frios e quase livre de quebras, tudo para mostrar um ambiente sem muitos atrativos para os jovens que ali estão inseridos. Isso é mostrado não só nos cenários, mas também nas vestimentas. Os únicos momentos em que cores novas são apresentadas é quando os protagonistas se aventuram por seu universo particular de devoção ao seu hobby de amar armas. A cinematografia é bacana apenas no terceiro ato, quando o diretor faz uso de câmeras na mão e mais distantes, mostrando ainda mais o cenário vulnerável e seco em que todos estão.

No fim das contas, Querida Wendy é um filme interessante e que parece querer dizer mais do que apresenta. Algumas coisas podem ficar soltas nas entrelinhas para gerar reflexões posteriores, algo que não é tão facilmente percebido por todos os espectadores.

Na próxima semana desembarcamos no Egito com o longa Cairo 678. Não perca!       



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-MA-LA" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta Produções.