08
fev
2017
Afinal, Azul é a Cor Mais Quente?
Categorias: Livro e Filme • Postado por: Matheus Benjamin

Já vi o filme Azul é a Cor Mais Quente algumas várias vezes e em todas elas não me senti nem um pouco cansado com a história delicada de amor entre duas mulheres encantadoras e um pouco diferentes entre si.

Livro: Azul é a Cor Mais Quente, de Julie Maroh. Martins Fontes. 160 páginas. Skoob.

Filme: Azul é a Cor Mais Quente, de Abdellatif Kechiche (2013). Roteiro de Abdellatif Kechiche e Ghalya Lacroix.

Nessa HQ com traço marcante e bonito de Julie Maroh, conhecemos Emma que acabara de perder o grande amor de sua vida. Por meio de escritos deixados por Clementine em um diário, Emma consegue então nos contar sua história. Conhecemos a partir de então como fora a vida de Clementine antes de conhecer Emma e quando conheceu Emma até seus últimos dias. Aqui temos um ponto não mostrado no filme, tendo em vista que Clementine se chama Adéle na adaptação e não temos essa mostra de Emma lendo seus diários.

Seguimos com Clementine encontrando Thomas um rapaz que estava interessado nela e suas dúvidas acerca do que sente por ele. Aqui ela se questiona diversas vezes sobre estar com ele há um tempo e ele ser legal, mas ela não querer nada com ele. Certo dia, Clementine cruza com uma moça de cabelos azuis acompanhada de sua companheira e isso fica em sua mente fazendo ela ter alguns sonhos relacionados com a cor azul. Na escola, ela tem sua primeira experiência com outra moça que em um momento de “carência” acabam se beijando. Essa cena me lembrou diretamente como fora retratado no filme e as emoções das personagens são incríveis no traço da autora. O modo como ela expõe por meio dos desenhos com muita intensidade esses sentimentos deixa o leitor com os olhos cheios para as próximas cenas.

Temos então uma série de acontecimentos até quando suas amigas preconceituosas lhe viram as costas porque Emma está sendo sua amiga e Valentin é de fato seu melhor amigo por estar sempre a seu lado. Lá vai mais uma vez Clementine questionar o que sente tendo em vista que tem muito medo do julgamento dos outros, da reação da família que, segundo ela, pode ser completamente agressiva, tendo em vista o que a mãe pensa sobre coisas que vê na TV a respeito do assunto e etc. Coisas tensas vão surgindo para o conflito ir se moldando.

A autora conduz a história de maneira extraordinária com seus desenhos incríveis e abordagem com foco no azul. Enquanto Emma lê os diários em determinada época, apenas o azul é válido enquanto todo o resto é opaco e frio. As cenas mais íntimas, que no filme são conduzidas de forma excepcional, são desenhadas de forma sutil. Voltando a falar do filme, certas cenas que estão no longa são lindas na HQ e é claro, temos muita coisa diferente e também muita coisa que colocaram a mais no filme para ter um pouco mais de envolvimento. O final é diferente e isso eu garanto. Tem uma coisa aqui que faz muito mais sentido na HQ do que no filme e isso se tornou claro pra mim na obra cinematográfica, dirigida por Abdellatif Kechiche e que traz diversas polêmicas à tona, como um abuso por parte dele que obrigava as atrizes principais (Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux) a repetir inúmeras vezes as longas cenas de sexo lésbico.

A propósito, o filme dá muito mais margem a interpretações acerca da sexualidade de Adèle. Nele podemos deduzir a bissexualidade da protagonista, pois ela acaba tendo experiências com ambos os gêneros e se sentindo atraída por ambos, mas vivendo um romance homossexual na maior parte dele, o que não a faria ter “se tornado” lésbica, afinal de contas não se pode definir a sexualidade alheia por conta de com quem ela está tendo um relacionamento. Uma pessoa hétero, por exemplo, não deixa de ser hétero quando está solteira, ou seja, isso não faria sentido. Mas isso é algo que o filme deixa para o expectador pensar e refletir, pois não define suas personagens com base em suas sexualidades. Ele as deixa seguir, viver e sentir o que precisarem, necessitarem ou quiserem. Assim como na HQ, a cor azul é a principal na paleta de cores do design de produção e está presente em diversos momentos importantes do filme, como nas primeiras cenas em que Adèle e Emma se cruzam, conversam ou em roupas, detalhes de cenários, luzes e quadros. O longa também foi bastante premiado ao redor do mundo e venceu a Palma de Ouro de 2013.

Por fim, preciso dizer que logo em seguida à leitura ouvi uma música do Bon Iver chamada For Emma que pode ser conectada com essa história da HQ. Recomendo então que ouçam a música depois de ler ou enquanto lê!

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Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba”, ambos pela Pessoas na Van Preta.