10
fev
2017
Crítica: “A Garota no Trem”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Benjamin

A Garota no Trem (The Girl on the Train)

Tate Taylor, 2016
Roteiro: Erin Cressida Wilson
Universal Pictures

3.5

Bons filmes de suspense se constroem com a habilidade da direção em camuflar pequenos detalhes do desfecho da narrativa, da imersão do espectador com o roteiro (e aqui podemos também citar as ações dos personagens durante esse roteiro) criando um clima favorável para dar o bote. Tendo isso em vista e, provavelmente mais ideias da “receita: como fazer um suspense de sucesso”, o diretor Tate Taylor (de Histórias Cruzadas) tem nas mãos uma história completamente desmontada para confundir sua plateia e então resolvê-la. Acontece que, apesar dos pesares, essa história perde um pouco de ritmo e acaba sendo desenvolvida de forma muito expositiva e até mesmo corrida.

A Garota no Trem é um filme bacana, mas em sua proposta pedia um pouco mais do que fora entregue. Rachel (Emily Blunt) é uma alcoólatra que vive com uma amiga e sai todos os dias para trabalhar em Manhattan passando de trem por uma vizinhança muito conhecida por ela. Afinal de contas, ela era casada com Tom (Justin Theroux) que agora tem uma esposa nova, Anna (Rebecca Ferguson) e uma filha chamada Evie. Aparentemente, Rachel não superou o término e possui algum tipo de mágoa para com o ex-companheiro e sua nova família, passando a rodeá-los e enchê-los de mensagens de números privados. Rachel também sempre observa um casal novo na vizinhança e imagina o quão perfeita é a vida dos dois, criando histórias fantasiosas sobre esse relacionamento em sua cabeça, desenhando-os e os fitando diversas vezes.

Acontece que Megan (Haley Bennett) e Anna se conhecem. Inclusive, Megan é a babá de Evie e as duas são muito parecidas fisicamente. Rachel quase as confunde e em um belo dia acaba observando Megan na sacada de sua casa com outro homem e fica intrigada, um tanto quanto alterada e acaba se entregando mais uma vez ao álcool. Alguns eventos ocorrem e ela não se lembra de mais nada, sendo uma das principais suspeitas, assim sendo, do sumiço de Megan – e mais tarde, seu assassinato.

A trama intrincada e instigante do longa é baseada no livro homônimo de Paula Hawkins, vendida como uma irmã mais nova de Gillian Flynn (famosa por sucessos como Garota Exemplar – transformado em filme por David Fincher). Aparentemente, o livro segue o ponto de vista dessas três mulheres que, de alguma forma, estão entrelaçadas. No filme, um letreiro desnecessário indica o ponto de vista (ou apresentação) de Rachel no começo e mais pra frente um outro igualmente desnecessário indica a presença de Megan. E, como dito anteriormente, o roteiro apresentado como um quebra-cabeças, cheio de lapsos de memórias de sua protagonista é afiado ao mostrar seus flashbacks diversos que deixam várias pistas para o que poderia ter realmente acontecido. O espectador se pega em diversos momentos se perguntando se realmente Rachel é culpada daquilo que lhe estão acusando ou se ela é apenas uma vítima de todos ao seu redor, tendo em vista que seus problemas com o alcoolismo são seríssimos e as acusações que lhe pesam mais ainda.

A atuação de Emily Blunt é uma das melhores de sua carreira. A atriz concentra em seu olhar completamente perdido tudo aquilo que sua personagem aparenta. Aliás, sua aparência parece completamente modificada, com olheiras, linhas de expressão, palidez, lábios secos. Suas expressões são muito dramáticas, mostrando o quanto Rachel é perturbada com tudo que lhe aconteceu/acontece. Destaque também para Justin Theroux com um Tom cheio de nuances a serem descobertas, Rebecca Ferguson que mesmo com pouco tempo de tela demonstra todo o seu potencial para a personagem que aparentemente é assediada por uma maníaca e Lisa Krudow em uma participação rápida, mas que interliga várias pontas soltas à protagonista.

O terceiro ato desajeitado de A Garota no Trem faz com que o longa perca um pouco de ritmo, introduzindo alguns personagens desnecessários e que se retirados não fariam falta à história, como é o caso do homem careca com barba ruiva que segue Rachel no dia do sumiço de Megan. Os flashbacks se fazem bastante necessários nesse clímax e são de interesse grandioso ao espectador que está começando a ficar aflito com as cenas dos próximos minutos, principalmente por um encaixe do quebra-cabeça. A trilha sonora reforça a tensão do longa e junto da fotografia ampla e fria de Rebecca Ferguson são uma subliminaridade a mais para a criação e resolução dos conflitos.

Mesmo com todos esses pequenos problemas, o filme é interessante e proporciona um bom divertimento ao espectador. Em caso de suspenses (ou thrillers policiais, como queiram) esse divertimento é por conta do que é surpreendente e mesmo não tendo uma surpresa tão grandiosa, o filme é eficiente no quesito amarrar pontas soltas e vingar seus personagens.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba”, ambos pela Pessoas na Van Preta.