18
fev
2017
Crítica: “Horizonte Profundo: Desastre no Golfo”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2017 • Postado por: João Vitor Moreno

Horizonte Profundo: Desastre no Golfo (Deepwater Horizon)

Peter Berg, 2016
Roteiro: Matthew Michael Carnahan
Paris Filmes

2.5

Se por um lado Horizonte Profundo é um filme tecnicamente até que bem realizado, por outro é uma obra esquemática e ultrapassada, que não entende o próprio potencial e acaba sendo apenas um passatempo que não funciona nem mesmo para divertir.

O filme conta a história real do desastre ocorrido em 2010 no Golfo do México e que resultou no vazamento de uma quantidade absurda de petróleo no mar. Seguindo o personagem Mike Williams (real, não fictício), o filme mostra as condições precárias da base de exploração petrolífera e depois as tentativas dos trabalhadores de sobreviverem em meio à explosão que devastou toda a estrutura da base.

O roteiro deixa claro desde o início sua estrutura esquemática e clichê, embora, é bom lembrar que clichês só virem clichês porque funcionam, e algumas coisas aqui são eficientes, mesmo que ultrapassadas. Dessa forma, ao estabelecer uma dinâmica interessante e plausível em seus minutos iniciais entre o protagonista e sua família, o filme ganha um elemento humano interessante, que só é prejudicado por já ter sido utilizado da mesma forma em inúmeros outros filmes. Da mesma forma, trazer a filha do protagonista se preparando para o “dia da profissão” na escola, onde explicará para os colegas o trabalho de seu pai, não deixa de ser uma maneira eficiente (ainda que, mais uma vez, batida) de passar para o espectador as informações que ele precisa saber sobre a rotina de trabalho do personagem principal – o problema aqui é que as informações oferecidas são inconclusivas, e em nenhum momento fica exatamente clara a função do personagem em seu trabalho, nem mesmo o funcionamento da máquina de exploração de petróleo que eventualmente resultará em desastre. E, o que é ainda pior, o roteiro nem sequer parece interessado em levantar uma discussão política inerente a um acontecimento desse: sobre como a ganância de grandes corporações podem gerar irreparáveis danos ao meio ambiente e ainda custar vidas. Mas abrir essa discussão faria com que o filme fosse obrigado a admitir que os Estados Unidos nem sempre estão certos, e, como a orgulhosa bandeira americana flamulando no terceiro ato deixa claro, isso é algo que a visão ufanista não parece interessada em comentar.

A direção de Peter Berg (dos fracos Hancock e O Grande Herói) é em diversos momentos correta, porém não compreende o potencial de alguns conceitos e deixa bastante a desejar do ponto de vista estético. Se por um lado a opção de filmar sempre com a câmera oscilando em leves movimentos e quase sempre em planos fechados funciona para imprimir tensão e inquietação para os momentos que antecedem o desastre, por outro, o diretor parece não entender que tem em mãos conceitos estéticos interessantíssimos, como o jato de lama que sobe inundando a base ou então a grande explosão de petróleo que resulta em um jato de fogo contínuo, e não dedica a eles nem sequer um plano aéreo longo e aberto para serem admirados. Aliás, se quer ver um jato de petróleo pegando fogo de verdade veja a obra-prima Sangue Negro (Paul Thomas Anderson, 2007).

E se a indicação do filme para o Oscar de Efeitos Visuais seja absurda (o pássaro sujo de lama em CGI é nível anos 2000, e as tomadas aquáticas deixam claras a todo o momento sua natureza artificial de computação gráfica), ao menos sua indicação para Edição de Efeitos Sonoros é compreensível, aliás, se tivesse sido indicado também para Mixagem de Som não teria sido um erro. Além de conseguir deixar os diálogos audíveis mesmo quando ditos em meio a inúmeras explosões, o som do filme também é eficiente em evocar tensão mesmo quando não fica claro exatamente de onde a ameaça pode estar vindo, como na cena que acompanha alguns personagens em um helicóptero que se choca momentaneamente com uma ave, construindo uma atmosfera sonora que, apostando em sons graves levemente distorcidos, criam uma tensão crescente muitíssimo eficiente. Além disso, é muito interessante como o filme cria em certo momento um raccord sonoro transformando o som de uma lata de refrigerantes explodindo em um som de motor de carro. O único problema é que por estar lidando com uma história que não é das mais promissoras para adaptar para o cinema, o filme acaba prolongando demais essa tensão, e o que é eficiente acaba inevitavelmente ficando um tanto quanto aborrecido pelo excesso.

Em relação ao elenco, Mark Wahlberg como protagonista exibe a mesma falta de carisma de sempre (com exceção de alguns filmes, é claro), surgindo em tela quase sempre com os olhos arregalados e a testa franzida, como se isso sugerisse alguma emoção profunda que até hoje não entendo o que possa ser. E enquanto Kate Hudson traz uma doçura que adiciona uma camada de humanidade interessante para o próprio protagonista, também não deixa de ser divertido ver nomes como John Malkovich e Kurt Russell fazendo pontas pequenas, mesmo que desperdiçados.

Sendo esquemático, mas com uma ou outra qualidade pontual, Horizonte Profundo pode te divertir dependendo do quanto você se interessa em ver explosões e coisas desmoronando. Não é nem mesmo o pior filme de seu diretor, mas peca principalmente por não compreender seus próprios potenciais e ser apenas mais um passatempo esquecível.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael