08
fev
2017
Crítica: “Jackie”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2017 • Postado por: Pedro Bonavita

Jackie

Pablo Larraín, 2016
Roteiro: Noah Oppenheim
Diamond Films

4

Sempre que vou assistir uma cinebiografia ou então um filme/série que seja baseado em fatos reais, gosto de fazer um exercício de ler um pouco sobre o assunto antes de assistir. Principalmente se for um assunto relevante. Além disso, quando a trama gira em torno de uma personagem importante, famosa ou controversa, gosto também de buscar material onde eu possa vê-la. É importante para se entender o contexto do filme, ou então fazer uma análise mais completa daquele trabalho, principalmente no que diz respeito à interpretação dos atores. Recentemente fiz isso com Snowden: Herói ou Traidorque conta com uma ótima atuação de Joseph Gordon-Levitt, principalmente no que diz respeito ao tom de voz. Antes de assistir a esse Jackie, novo longa do chileno Pablo Larraín, fiz o mesmo ao buscar no youtube vídeos da Jacqueline Kennedy e aconselho a todos fazerem para entender o quão impressionante é o trabalho de Natalie Portman.

Jackie acompanha a vida de Jacqueline Kennedy (Natalie Portman) do dia da morte de seu marido e então presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy (Caspar Phillipson) até o dia do seu enterro. Essa trama é acompanhada através da entrevista que Jacqueline deu para o jornalista Theodore H. White (Billy Crudup) semanas depois do acontecido.

A atuação de Natalie Portman se mostra impressionante desde os primeiros minutos de tela. Não só pela busca da semelhança de gestos e tom de voz com a personagem retratada, mas também pelo seu olhar e sua entrega em cena. Se antes de assistir ao longa, tinha um certo temor de ver a Natalie e não Jacqueline na tela, esse temos foi desfeito com o passar da projeção. Mérito é claro da atriz, mas com um dedo muito interessante da direção, que falarei em outro parágrafo. É interessante notar que em certos momentos o trabalho de Portman beira a caricatura, principalmente nos momentos em que Jackie está trabalhando em seu programa que ela tinha na televisão, onde apresentava a Casa Branca para a população, e é completamente aceitável essa caricatura trazida pela atriz, já que fica nítida a tentativa da personagem em passar mais simpatia e carisma, quase em um tom de falsidade. Em contrapartida, temos durante a grande maioria da projeção uma atuação mais orgânica e isso fica ainda mais evidente naqueles momentos de dor, por exemplo, quando ela tira a roupa repleta de sangue, lava as unhas e toma banho, é nítido o sofrimento daquela personagem. Ou seja, é impressionante as mudanças conseguidas pela atriz durante todo o longa, ainda mais por conta da constante mudança de “humor” de Jacqueline após a morte do marido, completamente natural nessas circunstâncias.

Se a atuação de Portman é o carro chefe do longa, a direção de Larraín não fica muito atrás. Admiro o trabalho do chileno já há algum tempo. E é impressionante como ele sabe lidar com temas históricos/políticos. A maneira como o diretor conduz a história, além de nos colocar dentro da tela, ainda deixa com que a presença de John F. Kennedy esteja aparente, mesmo após sua morte, principalmente nas sequências onde o caixão está presente, a maneira como as personagens repeitam aquele corpo é a mesma que a câmera, deixando algumas vezes o caixão em primeiro plano, ao tempo em que outras vezes não se mostre o caixão, e ainda assim é possível sentir sua presença. Conta ainda com a escolha de utilizar a câmera na mão, deixando a lente muito próxima de Jackie, em uma tentativa não só de humanizar a personagem (e consegue até transformá-la em um mito, algumas vezes), mas também imergindo o espectador na trama ao trazer um tom documental, dando mais veracidade àquela história real.

Pablo acerta também (de novo!) no uso das cores. Assim como aconteceu em No, o chileno mostra como domina as cores e a fotografia. É interessante perceber como antes da morte de seu marido, Jacqueline usa roupas com tons mais claros e vivos (amarelo, rosa e vermelho), passando pelo momento de luto onde obviamente a cor mais predominante é o preto, até chegar ao momento de sua entrevista (que guia o roteiro do longe) onde Jackie aparece com uma roupa “gelo”, trazendo a frieza não só daquele ambiente onde está vivendo (e a personagem deixa isso bem claro, ao falar algumas vezes da frieza daquela casa que ela não considera sua), mas também como uma maneira de tentar matar aquele sentimento que existe dentro dela. Interessante perceber também como o design de produção consegue dar a grandeza da Casa Branca, que fica ainda mais evidente quando a fotografia decide registrá-la em planos mais abertos.

Toda a construção feita pelo diretor e sua equipe é de suma importância, já que com o passar do tempo, percebemos de vez que o longa é sobre Jacqueline Kennedy e não sobre a morte de seu marido. Isso fica evidente já com o pouco destaque que se dá para a sequência onde JFK toma um tiro (e, pelo amor de Deus, isso não é spoiler). Além disso, é perceptível pelas reações de Jackie e por suas declarações: ela amava a Casa Branca, ela queria um evento todo pomposo para o enterro de seu marido, usando a desculpa dele ser o Presidente da República (indo a contramão com o que sua família queria) e é quando a personagem finalmente se humaniza – no momento em que ela diz que quer morrer, mas que não se mataria e sim queria que alguém a matasse durante o cortejo de seu marido -, que o filme realmente mostra que é somente sobre ela, mesmo que o fato da câmera sempre colada em seu rosto, e mantendo Jackie muitas vezes centralizada na tela já desse essa ideia. Ainda mais forte do que essa passagem, é o momento em que (mesmo sendo didático) ela confessa para o padre que tudo que ela estava lutando tinha muito mais a ver com ela do que com a morte de John.

Jackie, é não só um registro histórico, mas também um ótimo estudo de uma personagem que mostra sua intensidade tanto no momento de luto e dor, quanto no amor que sentia pelo marido, pela Casa Branca e pela vida de primeira-dama. Mais uma bola dentro do chileno Pablo Larraín.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.