22
fev
2017
Crítica: “Kubo e as Cordas Mágicas”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2017 • Postado por: João Vitor Moreno

Kubo e as Cordas Mágicas (Kubo and the Two Strings)

Travis Knight, 2016
Roteiro: Marc Haimes e Chris Butler
Universal Pictures

4

Kubo e as Cordas Mágicas é um filme que consegue encantar ao equilibrar uma história simples em um universo original e cativante, além de possuir ótimos personagens e uma envolvente atmosfera mágica e sombria.

O roteiro escrito por Marc Haimes e Chris Butler acompanha o personagem título em sua jornada para recuperar três itens que o permitirá derrotar um temido espírito maligno, para isso ele contará com a ajuda de uma sábia Macaca e de um habilidoso guerreiro Besouro.

Em relação à estrutura, não há nada de muito novo aqui: temos um protagonista que sofre uma tragédia pessoal, tem que juntar itens para poder derrotar um vilão, e vai amadurecendo durante o processo. Porém, há muitos diferenciais dentro dessa aparente simplicidade.

A primeira coisa a chamar a atenção é seu primor técnico. Rodado todo em stop motion, o filme surpreende tanto por conseguir incluir movimentos sutis e complexos dentro do design dos personagens, como o movimento de cabelo, quanto por dizer muito sobre eles apenas através de suas aparências: a Macaca traz graça com sua seriedade enquanto o Besouro convence como um guerreiro competente sem perder a aparência divertida, já as irmãs que desempenham o papel de vilão durante boa parte da projeção são aterrorizantes e ameaçadoras com seus olhos pequenos e movimentação fantasmagórica.

Mas apesar de ter seus elementos sombrios, que até podem afastar um pouco parte do público infantil, o filme não abre mão de um senso de humor bastante refinado, que surge muito mais pela dinâmica entre os personagens do que por gags visuais exageradas (algo que às vezes me incomoda nos filme da Dreamworks, por exemplo), e tem um de seus principais trunfos na criação de seu universo: apesar da estrutura simples, a mitologia criada ao longo do filme é interessantíssima por misturar tão bem elementos ocidentais com orientais, sem contar que seus personagens passam longe de serem unidimensionais, conseguindo não apenas divertir como também comover por seus dramas complexos. Isso para não falar da interessante (e mais uma vez, complexa) discussão temática proposta pelo roteiro sobre como nossas memórias têm a função de nos definir, o que permite até mesmo reflexões mais profundas que dificilmente podem ser encontradas em filmes “infantis”.

Conseguindo encantar tanto por sua estética quanto por sua mitologia, Kubo e as Cordas Mágicas é uma ótima animação que comove por seus personagens e diverte por sua atmosfera mágica. Não é o melhor filme do ano, mas é um dos mais redondinhos.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael