13
fev
2017
Crítica: “LEGO Batman: O Filme”
Categorias: Críticas • Postado por: Marcelo Silva

LEGO Batman: O Filme (The LEGO Batman Movie)

Chris McKay, 2017
Roteiro: Seth Grahame-Smith, Chris McKenna, Erik Sommers, Jared Stern e John Whittington
Warner Bros

3.5

Esqueça Batman vs Superman: A Origem da Justiça e Esquadrão Suicida, as mais recentes e fracassadas empreitadas da Warner Bros e da DC Comics no cinema. Consciente do seu papel de não se levar a sério, LEGO Batman: O Filme é infinitamente mais divertido que esses dois outros longas – brincando com o universo e a mitologia do homem-morcego, a animação dirigida por Chris McKay é um prato cheio para os fãs do personagem.

Na história, Batman (voz de Will Arnett) passa por uma crise de identidade quando o Coringa (voz de Zach Galifianakis), junto com todos os outros vilões, se entrega para a polícia e Gotham City fica aparentemente segura. Ao mesmo tempo em que está convencido de que há alguma coisa por trás da rendição do Coringa, o homem-morcego tem de aprender a trabalhar em equipe e a lidar com Dick Grayson (voz de Michael Cera), o garoto que ele “acidentalmente” adotou.

Antes mesmo do logotipo do estúdio desaparecer da tela, o espectador já tem motivo para se animar: a animação tem início com uma interessante quebra da quarta parede, em que ouvimos a voz do Batman comentar que todo bom filme começa com uma tela escura. Alguns segundos depois, uma aeronave transportando explosivos sobrevoa Gotham. É o pontapé para uma história com muitos toques de humor, aventura, ação e – por que não? – drama. Consequência direta do sucesso de Uma Aventura LEGOLEGO Batman não economiza nos personagens: até vilões de fora do universo da DC Comics, mas pertencentes ao domínio de filmes da Warner Bros surgem em tela (não vou revelar quais para não estragar a surpresa).

O roteiro é escrito a dez mãos (Seth Grahame-Smith, a mente por trás do ridículo Abraham Lincoln: O Caçador de Vampiros e um dos roteiristas da animação, mostra que não é, como eu pensava, um cara sem talento algum) e acerta no equilíbrio: sem excessos, o longa não subestima a inteligência e a memória do seu público ao evitar perder tempo de projeção com o que ele já sabe. Isto é, não há nenhuma cena mostrando o tão repetido assassinato dos pais de Bruce Wayne. As piadas também estão em ótimo tom e funcionam para agradar desde a criança que está indo ao cinema pela primeira vez até o adulto que cresceu lendo gibis e assistindo a desenhos de super-heróis. Desse modo, não faltam tiradas cômicas sobre o Superman, o Coringa e até mesmo sobre o Homem de Ferro. A parte dramática do enredo tampouco é deixada de lado: se você cresceu acostumado a ver um Batman amargurado, solitário e paranoico, não espere algo diferente aqui. Mesmo em uma animação leve, o diretor Chris Mckay e o time de roteiristas são bem-sucedidos na abordagem psicológica e emocional do personagem. E eles mostram isso a partir de cenas muito simples: em determinado momento, Batman chega à batcaverna e é recepcionado pela voz do computador e por seu próprio eco. Em uma cena mais próxima do fim, vemos o personagem repetir o mesmo ritual, só que acompanhado por sua nova “família”.

Na parte técnica, o 3D pouco acrescenta ao visual da animação – aliás, dá para contar nos dedos de uma só mão os filmes que souberam utilizar essa tecnologia com inteligência. Remetendo em alguns breves momentos à composição épica de Hans Zimmer e James Newton Howard para a trilogia O Cavaleiro das Trevas, a trilha sonora de Lorne Balfe agrada bastante. A versão LEGO de Gotham City também está satisfatória – muito menos gótica do que a de Tim Burton e menos colorida do que a de Joel Schumacher, é uma metrópole moderna, o espaço perfeito para a luta de Batman contra uma série interminável de inimigos.

Para dublar os personagens, foi reunido um elenco com nomes conhecidos do grande público. Entre eles, Will Arnett, Michael Cera, Rosario Dawson, Ralph Fiennes, Channing Tatum, Jonah Hill e Zach Galifianakis. Infelizmente, na minha cidade, só foram disponibilizadas cópias dubladas nos cinemas, o que me impede avaliar o trabalho de cada um (eu daria tudo para ver o Alfred na voz do talentoso Ralph Fiennes).

LEGO Batman superou a bilheteria de Cinquenta Tons Mais Escuros em seu fim de semana de estreia nos Estados Unidos e é uma ótima pedida não apenas para quem quer se desligar da realidade por pouco menos de duas horas, mas também para quem quer, durante esse mesmo tempo, esquecer o vexame que foram as duas últimas aparições dos personagens da DC no cinema.



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!