13
fev
2017
Crítica: “Lion – Uma Jornada Para Casa”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2017 • Postado por: João Vitor Moreno

Lion – Uma Jornada Para Casa (Lion)

Garth Davis, 2016
Roteiro: Luke Davies
Diamond Films

3.5

Uma boa história contada de maneira convencional muitas vezes é mais decepcionante do que uma história convencional contada de maneira interessante. E este Lion – Uma Jornada Para Casa é um desses casos. Contando uma história bastante emocionante, que ganha ainda mais força por ter acontecido de verdade, o filme é uma experiência interessante e que com certeza agradará boa parte do público, porém, para um olhar um pouco mais atento é impossível não se frustrar um pouco com a convencionalidade da narrativa, que às vezes dá a impressão de ter sido feita no “piloto automático”.

O roteiro de Luke Davies adapta a história real do indiano Saroo, que quando criança se perdeu do irmão em uma estação de trem em Calcutá e após um tempo vagando perdido foi adotado por um casal de australianos. Depois de 25 anos vivendo com a família adotiva, Saroo passou a tentar, por meio do Google Earth, localizar sua antiga casa.

Trata-se de uma história obviamente emocionante (principalmente por seu desfecho, que obviamente não irei revelar) e o filme é hábil, em seu primeiro ato, em construir uma atmosfera de pesadelo para o protagonista, que de uma hora para outra vê tudo o que conhece sumir e ser substituído por um mundo novo e muito mais ameaçador. Dessa forma, o desenho de som sempre traz barulhos altos e fortes encobrindo as tentativas de fala do protagonista, o que reforça seu sentimento de incômodo e desespero.

Na mesma forma, o design de produção faz um bom trabalho em retratar os ambientes em que o personagem se encontra sozinho e perdido de forma suja e ameaçadora, o que difere completamente da casa do casal australiano por quem ele é adotado, que é um lugar agradável, com conforto, e cheio de cores claras. E se a trilha sonora não inova em nenhum sentido, tampouco faz feio e não deixa de ser bastante agradável de ouvir.

E enquanto o roteiro por um lado se estende demais, principalmente em sua segunda metade, ao menos consegue achar espaço para momentos inspirados como aquele que traz o protagonista ainda criança na rua “dialogando” com um rapaz enquanto este faz uma refeição, ou então no belo monólogo envolvendo a personagem de Nicole Kidman mais para o final do filme. Outro mérito do texto é não trazer o casal australiano como os grandes heróis que vêm para salvar o pobre menino indefeso: sim, a atitude deles é admirável e de imensurável importância para o garoto, e o filme entende isso, mas também nunca perde o foco e sabe a todo o momento quem é seu personagem principal, e que afinal de contas, acima de tudo, o que importa é a história dele.

Já a direção do estreante Garth Davis é ao mesmo tempo eficiente e contraditória. Para diferenciar os dois tempos do filme (o que acompanha o personagem perdido, e depois adulto tentando voltar para casa), ele opta por abordagens estéticas distintas: enquanto a primeira parte é filmada com câmera na mão, mais agitada, a segunda tem planos mais estáticos e seguros, afinal o personagem está em uma situação de maior segurança. Porém a transição de uma abordagem para outra é feita sem lógica, já que ao invés de começar abandonar a câmera na mão quando o personagem encontra seus pais adotivos, ele o faz muito antes, quando o personagem ainda está em um orfanato e em situação bastante irregular. Dessa forma, por mais que os dois extremos funcionem, como a transição de um para o outro é feita de maneira incoerente, sua abordagem estética acaba sendo no mínimo problemática.

O elenco também é competente. Enquanto Rooney Mara traz sua doçura habitual, Dev Patel convence pela intensidade e retrata bem o sofrimento e os dilemas que seu personagem enfrenta. Já Nicole Kidman não deixa de ser uma personagem de “uma nota só”, mas ao menos protagoniza um belo monólogo que lhe garantiu uma indicação ao Oscar.

Ficando aquém de seu potencial, mas sendo um filme bastante emocionante e que conta uma história no mínimo interessante, Lion não é um dos melhores filmes do ano e não deveria estar entre os indicados ao Oscar, mas ainda vale a pena ser visto e mostra que uma boa história pode comover mesmo se for contada de forma convencional.



Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.