16
fev
2017
Crítica: “Michael”
Categorias: Críticas • Postado por: Andressa Gomes
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Michael

Markus Schleinzer, 2011
Roteiro: Markus Schleinzer
Nikolaus Geyrhalter Filmproduktion

4

Michael é o primeiro longa da carreira do diretor austríaco Markus Schleinzer, que também assina o roteiro. Schleinzer trabalhou anos como diretor de casting para outros cineastas, incluindo Michael Haneke, em trabalhos como A Fita Branca e A Professora de Piano.

Logo na estreia, Schleinzer demonstra coragem e originalidade não só por escolher um tema difícil como a pedofilia, mas também por optar pelo ponto de vista do pedófilo, abordagem pouco antes vista se tratando deste assunto.

Michael, o protagonista, tem 35 anos, trabalha como corretor de seguros e aparentemente é um cidadão comum de classe média, cuida de sua casa, trabalha como corretor de seguros e tem uma rotina aparentemente normal. Ele esconde de todos que é um pedófilo e que mantém sequestrado um menino de 10 anos chamado Wolfgang.

É notável a influência de Haneke no estilo de direção de Schleinzer, tanto estética quanto ideologicamente. Assim como Haneke, Schleinzer não se preocupa em fazer qualquer tipo de julgamento moral. A câmera se mantém estática, observadora, afastada da ação, não é feito uso de close-ups, plano-detalhe, diálogos clichês, trilha sonora, ou qualquer outro recurso narrativo que aguce o emocional do espectador. Com uma direção seca, ele não apela para estereótipos nem faz da situação um melodrama ou suspense barato – sua única preocupação é deixar o espectador livre para que este chegue às suas próprias conclusões sobre o que vê.

Tanto Michel quanto Wolfgang parecem apáticos e acostumados à convivência um com o outro e à rotina grotesca e ao mesmo tempo monótona em que vivem. Em nenhum momento conhecemos mais a fundo seus pensamentos e emoções. O abuso sexual faz parte do cotidiano tanto quanto o ato de sentar juntos a mesa para jantar. O filme provoca aflição pela falta de estranhamento e extremo realismo. Seria medíocre tratar de uma temática como essa de forma mais moralista ou simplista, pois as ações falam por si só e o público não precisa de “ajuda” da direção para que nojo e revolta sejam provocados.

A angústia e sensação de impotência crescem à medida que percebemos que a prisão a que Michael submeteu sua vitima não é só física. Mesmo quando ambos estão em público, com outras crianças e famílias, Wolfgang respeita a “autoridade” estabelecida por Michael, o que não só evidencia uma aparente síndrome de Estocolmo mas também o quão trivial é a violência (de todos os tipos) na vida real – ninguém ao redor deles sequer desconfia da situação. A forma como o personagem consegue levar uma vida normal enquanto mantém um refém em casa é chocante e recordam que o mesmo pode estar acontecendo ao nosso redor ou em qualquer bairro ou cidade. Michael poderia ser um vizinho ou alguém que conhecemos do trabalho.

Schleinzer se diferencia de Haneke à medida que “vinga” a raiva do espectador pelo personagem em um momento inesperado e de uma forma um tanto catártica, mas não nos livra totalmente da sensação de angustia. O epílogo é significativo e ao mesmo tempo tem caráter de anticlímax. Além disso, Schleinzer não estabeleceu uma quebra de rotina que rompesse a “paz” do personagem central (como Haneke fez em Caché, Amour e O Vídeo de Benny, por exemplo).

Não é fornecida qualquer explicação psicológica que explique o porquê de Michael ser como é – nem é objetivo do filme diagnosticar o personagem, e, sim, nos convidar a refletir. Essa ideia fica evidente quando em uma das sequências, na qual Michael e Wolfgang montam um quebra-cabeça juntos, o menino reclama da falta de alguma peça e ele explica que não são necessárias todas as peças para enxergar qual é a imagem formada. É um filme difícil, mas necessário, pois demonstra o quão banal é o mal em sua forma real, fora do mundo da ficção.



Não lembro de uma época em que os filmes ou a TV não fossem parte da minha vida. Considero o Cinema mais do que entretenimento, uma das mais completas formas de arte e de registro da humanidade. Estudante de Cinema e Audiovisual. Dentre os diretores/roteiristas favoritos estão: François Ozon, Lars Von Trier, Michael Haneke, Satoshi Kon e Vincent Minneli. Sem vergonha de gostar de consumir/discutir cultura pop, viciada em “The Big Bang Theory”, alguns reality shows (Master Chef, The Bachelor) e séries coreanas.