24
fev
2017
Crítica: “Mulheres do Século 20”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2017 • Postado por: João Vitor Moreno

Mulheres do Século 20 (20th Century Women)

Mike Mills, 2016
Roteiro: Mike Mills
Sony Pictures

4

Mulheres do Século 20 é um filme sobre conflito de gerações, dificuldade de se comunicar, e sobre como enxergamos o outro e como os outros nos enxergam. Não é um filme fácil, na verdade é bem denso, mas interessa pelos personagens complexos e por seu visual colorido que, além de esteticamente belo, sempre faz questão de comentar sobre os próprios personagens.

O filme se passa na Califórnia nos anos 70 e acompanha uma mãe (Annette Bening) que tenta cuidar de sua família ao mesmo tempo em que procura respostas para as vidas de duas jovens amigas: uma fotógrafa punk (Greta Gerwig), e uma amiga de seu filho (Elle Fanning).

O que chama a atenção logo de cara no filme é seu excelente design de produção, que ao fazer uma reconstrução de época dos anos 70 traz os ambientes sempre com muitas cores, seja nos armários, nos abajures, nas paredes… E o que também é bacana é como os figurinos sempre combinam esteticamente com cada personagem: a moça vivida por Elle Fanning, por exemplo, é loira e constantemente veste amarelo, enquanto aquela vivida por Greta Gerwig é ruiva e muitas vezes surge em tela com roupas vermelhas. Sendo assim, é interessante notar como o personagem interpretado por Lucas Jade Zumann, por ser ainda um jovem em fase de descobrimento, traga sempre em seus figurinos cores diversas, que trazem tanto o amarelo e vermelho (que de certa forma refletem a influência que as outras duas personagens têm sobre ele), como também listras de cores distintas.

Já a direção de Mike Mills é competente em, na medida do possível, imprimir energia a uma narrativa que, por sua relativamente longa duração (quase duas horas) e por ser composta quase toda por longos diálogos, poderia soar demasiadamente arrastada. Assim, sempre que possível ele inclui discretos zoom-in e zoom-out para acompanhar alguns diálogos, e também momentos de leve câmera acelerada para trazer algum senso de humor. Além disso, ele também consegue achar espaço para algumas sutilezas, como na imagem que traz um pilar entre a personagem de Greta Gerwig e sua irmã (com quem tem um relacionamento distante) enquanto elas estão à mesa.

A trilha sonora também é notável, já que além das músicas de rock características dos anos 70, traz também em seus momentos instrumentais uma atmosfera pesada, com sons sintéticos que evocam tanto o período em que o filme se passa como o estado de espírito de seus personagens.

Mas por mais que a parte técnica seja muito boa, o roteiro também está entre as melhores coisas da obra (e sua indicação ao Oscar de Roteiro Original é mais do que compreensível), já que além da temática ambiciosa (dentre outras coisas, sobre como muitas vezes procuramos nossos significados para conflitos internos em coisas externas – o que, aliás, justifica de maneira brilhante o visual propositalmente exagerado do longa), merece créditos por conseguir trazer narração em off de mais de um personagem (artifício interessante, mas fácil de errar) sem nunca se perder, e, o que é ainda mais interessante, por trazer essas narrações não para que os personagem verbalizem coisas óbvias ou façam reflexões pessoais, e sim para que eles possam falar sobre suas próprias percepções sobre outros personagens (a mãe falando como enxerga o filho, o filho falando sobre como enxerga a mãe, etc.), o que reforça a discussão temática do filme sobre as relações humanas e sua subjetividade.

Sendo um filme bastante denso, que precisa de esforço para ser absorvido, mas que recompensa esse esforço com questões complexas e interessantes, Mulheres do Século 20 é um filme tecnicamente bem realizado e que tem muitíssimo a dizer sobre nossas percepções acerca de outros indivíduos e sobre nossa necessidade de expressar sentimentos internos que parecem impossíveis.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael