06
fev
2017
Crítica: “Silêncio”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2017 • Postado por: João Vitor Moreno

Silêncio (Silence)

Martin Scorsese, 2016
Roteiro: Martin Scorsese e Jay Cocks
Imagem Filmes

4.5

Poucos nomes podem ser considerados unanimidade quando se fala de cinema, mas Scorsese é, sem dúvidas, um deles. Além de ser dono de uma carreira longa, admirável, e muito influente, o diretor é também responsável por um trabalho extraordinário de restauração de obras cinematográficas clássicas, e é acima de tudo um grande amante da sétima arte.

Tendo demostrado em A Invenção de Hugo Cabret (2011) que é capaz de se adequar a tecnologias novas (no caso, o 3D), e em O Lobo de Wall Street (2013) que ainda possui uma energia digna de diretor em auge de carreira, Scorsese demonstra agora com seu novo filme, Silêncio, mais uma vez um domínio impressionante sobre a linguagem cinematográfica, oferecendo uma experiência absolutamente envolvente que funciona tanto em seus aspectos técnicos sofisticados quanto em sua complexa e ambiciosa discussão temática.

Ambientado no século 17, o filme acompanha dois padres jesuítas portugueses (interpretados por Andrew Garfield e Adam Drive) que viajam até o Japão, onde o catolicismo é proibido e punido com torturas e morte, para tentar reencontrar e trazer de volta seu mentor, padre Ferreira (Liam Neeson).

Intenso e violento desde seus segundos iniciais, que acompanham cenas de tortura sem trilha instrumental e narradas pela voz profunda de Liam Neeson, o filme logo estabelece seu ritmo vagaroso, mas que está longe de ser chato por ser tão bem conduzido e estudado.

A fotografia, por exemplo, além de se utilizar das belíssimas locações e dos densos vapores para criar um clima úmido e desconfortável, ainda traz constantemente os personagens iluminados por luz de fogo, o que além da beleza plástica, comenta de maneira apropriada e sutil tanto o medo do inferno cristão, quanto a ameaça da morte nas mãos dos japoneses – que muitas vezes se dão por fogueiras.

Aliás, não tem como não comentar sobre a angústia e a agonia criadas nas cenas que retratam execuções e torturas durante o filme – aquela que traz uma família inteira sendo amarrada em palha e sendo queimada, e outra que mostra pessoas penduradas de ponta cabeça sangrando por cortes no pescoço foram, para mim, particularmente incômodas de assistir.

Mas mesmo com o incômodo (o que é, obviamente, proposital), é impossível para um amante de cinema não se deliciar com o cuidado e a sabedoria do trabalho de direção de Scorsese. Se por um lado temos aqui uma de suas principais características (a narração em off – que neste caso funciona para trazer as dúvidas enfrentadas pelo protagonista, e que justificam de maneira sensacional o título do filme), por outro, muitas de suas “marcas registradas” são deixadas de lado: enquanto na maioria de seus outros filmes vemos muita energia, com a câmera se movendo rapidamente e com muita música, aqui os planos são em sua maioria estáticos, dando um ritmo mais lento e contemplativo ao filme, e a trilha sonora instrumental é praticamente inexistente – e quando esta ocasionalmente aparece, se mostra discreta, mas incômoda, e, o que é mais interessante, tocada por instrumentos de origens orientais, que é onde que passa a história.

E por falar em trilha sonora, todo o design sonoro do filme é impecável, e sua ausência nas categorias de som do Oscar é lamentável. Reparem, por exemplo, como a todo o momento podemos ouvir diversos sons de pássaros ao fundo, e, além disso, para ressaltar a tensão e a ameaça que os personagens enfrentam, Scorsese opta por trazer quase sempre os diálogos sendo ditos sussurrados ou em voz baixa, como se em qualquer lugar pudesse ter alguém ouvindo, o que realça a atmosfera ameaçadora de maneira orgânica.

Outro aspecto que contribui para a construção do clima perigoso e tenso do filme é sua excelente direção de arte. Além de fazer um trabalho de reconstrução de época impecável e plausível, que realmente parece de verdade e não simplesmente construído para fazer um filme, é interessante notar também como diversos elementos dos cenários trazem o formato de grades, seja nas cabanas onde vivem clandestinamente os protagonistas, ou então nas casas em formato japonesas, ou até mesmo (obviamente) nas próprias celas de prisão, e a opção de Scorsese de filmar em diversos momentos seus protagonistas atrás dessas figuras gradeadas passa para o espectador o sentimento de claustrofobia e incômodo que ele deseja mesmo que esse “truque” não seja percebido conscientemente por boa parte da plateia.

Trazendo também questões complexas sobre fé e dúvida, que se tornam ainda mais interessante para quem já conhece a carreira do cineasta, Silêncio é mais um filmaço de um diretor que prova pela milésima vez que sabe como ninguém fazer cinema.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael