23
fev
2017
Crítica: “Tanna”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2017 • Postado por: Christian Duarte

Tanna

Martin Butler e Bentley Dean, 2015
Roteiro: Martin Butler, Bentley Dean e John Collee
Lightyear Entertainment

3.5

Essa época do ano é um prato cheio para os cinéfilos de plantão, devido ao farto circuito de premiações, que por sua vez é finalizado com a tão esperada entrega do Oscar. Entre as diversas categorias poucas nos proporcionam experiências tão únicas quanto a de melhor filme estrangeiro. Onde podemos por alguns minutos mergulhar em novas línguas, costumes e lugares que normalmente não teríamos contato se não fosse através do cinema.

Essa produção australiana se passa na longínqua ilha Tanna em Vanuatu, e é baseada na história real de dois jovens apaixonados pertencentes a mesma tribo, mas que por razões de conflitos com outra tribo veem seus destinos tomarem rumos diferentes depois que a moça é prometida para um rapaz da tribo inimiga em nome de um acordo de paz. A partir daí resta saber se vale a pena se sacrificar pelo bem dos outros ou viver esse romance proibido até as últimas consequências.

É notável que os diretores Martin Butler e Bentley Dean trouxeram um aspecto mais documental para o filme – parece realmente que estamos acompanhando o dia a dia de uma tribo daquela localidade. Um dos principais fatores para nos passar essa sensação de realismo é o fato do elenco ser predominantemente de nativos daquela região, permitindo com que os atores sejam simplesmente eles mesmos diante das câmeras. Outro fato importante para a naturalidade empregada aqui é a longa relação de Dean com os costumes desse povo, sendo que o diretor já têm contato com essa região há pelo menos 10 anos, onde inclusive morou com sua família por alguns meses.

O roteiro também é escrito pelos dois diretores e ainda conta com a contribuição de John Collee (Mestre dos Mares e Happy Feet). Aqui temos uma história extremamente simples, um romance nos moldes de Romeu e Julieta, só que às avessas. O interessante aqui é perceber que mesmo nos lugares mais afastados e nas mais diversas culturas podemos encontrar semelhanças com algumas ideologias da nossa sociedade, servindo de exemplo o fato do casamento arranjado, onde em dado momento do filme é feita a comparação da situação da jovem prometida com o casamento da realeza britânica, realizado da mesma maneira. O filme ainda faz questão de ressaltar a importância dessa história para a realidade daquele povo nos dias atuais.

Apesar da sua relevância, o roteiro peca pela falta de engrenamento da trama, deixando o filme com o ritmo bastante cadenciado, onde é gasto quase metade do tempo nos introduzindo aos costumes e crenças daquele povo – mesmo sendo um filme relativamente curto esse tom introdutório pode o tornar uma experiência um tanto maçante para alguns. A partir da segunda metade é adotado um ritmo mais agradável que perdura até o seu final.

Como já citado anteriormente o elenco é composto por nativos da região, e mesmo com certa timidez nos momentos de diálogo, eles conseguem na maior parte do tempo nos passar muita naturalidade nas suas ações, principalmente nas cenas onde há interação com um número maior de pessoas.

O filme visualmente é muito bonito, destacando-se a belíssima fotografia com o uso de luz natural, o que ressalta ainda mais a imersão naquele ambiente. Vale lembrar que o filme foi rodado inteiramente em Tanna: mais imersivo que isso impossível. Outro ponto interessante ainda é a captação de som, que também parece ter sido feita naturalmente sem nenhum tipo de interferência, onde conseguimos detectar sons minuciosos, como o leve sopro do vento nas folhas das árvores. Porém essa gama de sons da natureza acaba por ofuscar a trilha sonora que por sua vez é razoavelmente boa, mas por ter pouco espaço acaba se tornando bastante esquecível.

Tanna é um documento histórico importante para seu povo e mais um exemplo dos males que uma guerra pode trazer independente da sua proporção, porém sofre com um roteiro sem muitos atrativos e pesa a mão na introdução aos costumes e crenças daquele povo, o deixando com o ritmo um tanto arrastado em certos momentos, o que não apaga suas qualidades e a intenção dos seus realizadores de nos apresentar um ambiente e um povo até então desconhecido por muitos.



Assistir filmes sempre foi uma das minhas principais opções de lazer, mas nos últimos 3 anos passou a ser praticamente um modo de vida. Sou daqueles que assiste de tudo, e defendo que até os maus filmes devem ser vistos. Em certo momento ver filmes passou a não ser mais o suficiente, e senti a necessidade de dividir com as pessoas minhas experiências cinematográficas escrevendo sobre elas. Fora do cinema posso dizer que sou fã do bom e velho metal oitentista, que gosto de (assistir) futebol e que estou ficando careca.