25
fev
2017
Crítica: “Terra de Minas”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2017 • Postado por: Christian Duarte

Terra de Minas (Under Sandet)

Martin Zandvliet, 2015
Roteiro: Martin Zandvliet
Nordisk Film

4

No cinema, poucos momentos históricos são tão abordados como a Segunda Guerra Mundial. Porém Terra de Minas não é apenas mais um filme de guerra que se resume a ação e violência como temos tantos por aí – aqui temos uma história que enaltece as relações e os conflitos pessoais, sem apelar para heroísmo barato ou aquele patriotismo irritante recorrente em filmes do gênero.

A história se passa no litoral da Dinamarca. Alguns dias após a rendição da Alemanha na Segunda Guerra Mundial, um grupo de jovens prisioneiros alemães são levados ao local com a missão forçada de desarmar milhares e milhares de minas terrestres instaladas pelo exército alemão durante a ocupação. À frente desse grupo nos é apresentado o sargento Rasmussen (Roland Moller), um homem impiedoso que desconta toda sua raiva e rancor nos jovens garotos, os fazendo sofrer todo tipo de abuso e humilhação, mas após um terrível acontecimento o sargento passa a mudar suas atitudes e passa a estreitar sua relação com o grupo.

O diretor e roteirista Martin Zandvliet consegue controlar de maneira excelente o clima pesado predominante ao flertar com alguns momentos de leveza, que contrastam com aquela dura realidade. São cenas muito bonitas que reforçam a ideia de que estamos acompanhando apenas um grupo de garotos que não deveriam estar ali, que acabam sofrendo pela irracionalidade dos mais “experientes”. Por exemplo, em um momento que dois garotos discutem o nome que darão a um besouro, uma cena simples, mas que serve de freio pra todo o sofrimento e brutalidade presente aqui.

Outro ponto forte da direção é o trabalho com a câmera. Sempre contribuindo para gerar tensão, Zandvliet faz questão do uso de planos detalhe quando uma mina está sendo desarmada, nos deixando desconfortáveis e esperando pelo pior, mas sempre que uma explosão vai acontecer, são usados planos bem abertos que nos passam a dimensão do ocorrido. Uma cena em específico é bem gráfica e, acaba sendo a que gera mais desconforto no espectador.

A história de modo geral é muito bem contada: o vínculo com vários personagens é criado, porém alguns pequenos pontos chegam a incomodar. O comportamento do sargento com os garotos vai de um extremo ao outro de maneira muito abrupta. Outro momento um tanto problemático é a cena após uma partida de futebol na praia, onde a tragédia fica telegrafada e serve de artifício para gerar aquele tipo de conflito bem clichê. Por último temos uma cena que apela para um sentimentalismo exagerado, abusando de alguns elementos para potencializar o sentimento de perda.

No elenco, o destaque vai para Roland Moller, que, no papel do sargento Rasmussen, consegue transmitir bem suas emoções. Ele convence tanto como o sargento carrasco, sem nenhum tipo de ressentimento aparente quanto como uma figura paterna conforme sua relação com os garotos vai se estreitando. No restante, alguns jovens atores têm certo espaço para aparecer, o que mais se destaca é Louis Hoffman, interpretando o garoto que se relaciona melhor com o sargento.

O filme apresenta uma fotografia bem limpa e sóbria contrastando com a aparência suja e sofrida dos personagens, os enquadramentos exploram bem os ambientes externos. A praia é belíssima, porém toda demarcada com obstáculos e cercas de arame, onde podemos fazer uma relação com os jovens, que apesar da pouca idade também sofrem com as marcas que a guerra vai deixando em cada um deles. A música é bem contida e melancólica, mas não apresenta muitas variações.

Terra de Minas é um filme de atmosfera densa, incômoda e seu desfecho gera um certo amargor. Peca em um elemento ou outro, mas consegue transmitir o necessário. Com tantos filmes que abordam o tema guerra de maneira tão apelativa e imparcial, esse é um bom exemplo de como fazer o contrário.



Assistir filmes sempre foi uma das minhas principais opções de lazer, mas nos últimos 3 anos passou a ser praticamente um modo de vida. Sou daqueles que assiste de tudo, e defendo que até os maus filmes devem ser vistos. Em certo momento ver filmes passou a não ser mais o suficiente, e senti a necessidade de dividir com as pessoas minhas experiências cinematográficas escrevendo sobre elas. Fora do cinema posso dizer que sou fã do bom e velho metal oitentista, que gosto de (assistir) futebol e que estou ficando careca.