23
fev
2017
Crítica: “Um Homem Chamado Ove”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2017 • Postado por: Matheus Benjamin

Um Homem Chamado Ove (En Man Som Heter Ove)

Hannes Holm, 2015
Roteiro: Hannes Holm
Califórnia Filmes

3.5

A vida é uma caixinha de surpresas e com isso um turbilhão de acontecimentos que muitas vezes não queremos que nada aconteça. Ove, o protagonista deste longa sueco, passa por várias experiências inesperadas e parece não aceita-las tão bem quanto qualquer outra pessoa poderia fazer. Dessa forma, Ove (Rolf Lassgård) acaba se tornando uma pessoa rabugenta com o passar do tempo e escondendo seus sentimentos mais profundos de todas as pessoas que desejam conhece-lo melhor.

O espectador sabe que Ove é rabugento desde o primeiro minuto de projeção, assim como fica sabendo que é proibido passar de carro pelas ruas do condomínio onde mora. Novos vizinhos estão se mudando para a frente de sua casa e querem fazer amizade com o ser mais rabugento das redondezas, que aparentemente vive sozinho e visita um ente querido no cemitério, com quem tem longas conversas. Ele deseja se matar, mas falta alguma coisinha que o deixe seguir adiante com esse plano e quando consegue algo dá errado. Suas lembranças o visitam e ele é impedido, fazendo com o questionamento venha à tona. E conforme os minutos vão passando, Ove vai se abrindo para a vizinha de ascendência iraniana Pavaneh (Bahar Pas), que está grávida e quer ter aulas de direção de veículos com ele. Além de saber sobre como seu pai morrera, como conhecera sua amada e como viera morar no condomínio, ela também descobre porquê Ove tem uma certa birra com os vizinhos, em especial um deles que está sem os movimentos do corpo e sem falar há muito tempo.

O filme é baseado no livro homônimo de Fredrik Backman e traz Hannes Holm na direção, que traz um tom muito assertivo entre comédia e drama para a tela. Além disso, o ritmo do desenvolvimento do roteiro é bastante satisfatório, pois não deixa o espectador com pressa e muito menos com vontade de parar.

Enquanto os tempos atuais retratam a frieza de Ove com os cenários em tons frios e neutros, assim como nos figurinos, os flashbacks trazem mais cores, sobretudo as quentes, para a vida dos personagens, mostrando que mesmo com as complicações eram apaixonados e cheios de planos para o futuro. Os figurinos retratam muito bem à época passada e o design de produção acerta muito com a construção de um ambiente vintage, com seus carros e casas. Os atores Filip Berg e Ida Engvoll que interpretam Ove e Sonja, respectivamente no passado, possuem uma certa química em cena, mesmo sendo bastante diferentes entre si, tanto em aparência quanto em personalidade. Conforme o roteiro vai caminhando, o espectador percebe uma espécie de justificativa no mau-humor de seu protagonista e também que sua forma de lidar com as situações exteriores (que ele não poderia interferir) foi uma maneira de se distanciar delas, de tentar seguir adiante sem se machucar, mesmo já estando machucado.

O roteiro poderia ter desenvolvido mais a relação de Ove com seus vizinhos mais antigos, mesmo que lhes tenham um flashback para explicações. Além disso, há um personagem que é abrigado por Ove em sua casa e que acaba por desaparecer sem grandes explicações da projeção. Pavaneh é quem mais consegue se infiltrar nas memórias de Ove e com isso ser até íntima dele, vendo-o em situações que jamais poderia imaginar de um homem tão rabugento e sem perspectivas novas para sua vida. O final deixa um sentimento de aprendizado, uma mensagem bonito que é passada e uma lagriminha escorrendo pelo canto do olho.

Um Homem Chamado Ove é um filme que começa tempestuoso e depois se torna fofo por tudo o que o espectador descobre. É um estudo de um personagem riquíssimo com seus principais acontecimentos e vivências para saber o que ele se tornara, suas experiências podem não ter sido muito sortudas, mas valem a pena quando se para pra refletir sobre o que viveu. E essa é a maior lição que o filme pode passar adiante.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba”, ambos pela Pessoas na Van Preta.