15
fev
2017
Livro: “Sob a Redoma” – o microcosmo de Stephen King
Categorias: Livro e Filme • Postado por: Mateus Reginato

O escritor americano Stephen King já escreveu mais de quarenta romances e duzentos contos, sendo vários deles premiados e com adaptações igualmente premiadas para o cinema. O Iluminado, Um Sonho de Liberdade, Louca Obsessão, À Espera de um Milagre. King não é chamado de “mestre do terror” à toa. Sob a Redoma pode não ser um livro tradicional de terror, mas tem em si a alma dos melhores romances do escritor.

KING, Stephen. Sob a Redoma. Suma das letras, 2012. 954 páginas. Skoob.

Título original: Under the Dome (2009)

“e pro time nós torcemos”

Sob a Redoma (Under the Dome, no original) leva o leitor a uma fictícia cidade no Maine, Chester’s Mill. Uma barreira invisível surge ao redor dos limites do município e impede o contato com o resto do mundo. Ninguém sabe o que é ou como fazê-la sumir. Os habitantes estão presos e terão que sobreviver, os suprimentos são limitados e as consequências que a suposta Redoma trará ao ambiente, clima e vida dos moradores são desconhecidas. O pânico deverá ser evitado e o segundo vereador da cidade, Big Jim Rennie, acredita ser a pessoa ideal para liderar a cidade nesta crise… E também para controlar a todos. Porém, por ordens diretas do presidente, Dale “Barbie” Barbara, o veterano da Guerra do Iraque, fica encarregado de liderar a situação na cidade. Big Jim não fica nem um pouco satisfeito com a decisão e não pretende deixar Barbara assumir o posto.

Nesse momento, Dale e alguns moradores se juntam para evitar o caos total. Em um primeiro momento, pode parecer que o maior problema é a Redoma em si e não os problemas que ela traz. Os cidadãos têm que enfrentem medos e impulsos, dando voz a seus instintos mais primórdios.

Antes que alguém venha falar sobre Os Simpsons: o Filme, a primeira tentativa de escrever o livro ocorreu no final dos anos 70. King tentou de novo nos anos 80, sem sucesso.

Na edição da Suma das Letras, as primeiras páginas do livro contêm um mapa da região de Chester’s Mill e uma lista com alguns dos cidadãos (e cães) que estavam na cidade no Dia da Redoma (“Era 21 de outubro”). O mapa e a lista ajudam a evitar confusão com o grande número de personagens e lugares.

King escreve em capítulos curtos e que raramente repetem os narradores. Muitas vezes, um fato é narrado por um personagem e, em outro capítulo, o mesmo acontecimento é contado por outro personagem. Essa técnica nos permite compreender melhor a personalidade de cada morador da cidade e a entender melhor a própria Chester’s Mill.

O trunfo do romance é que o foco não está somente na Redoma em si, mas na representação da natureza humana, a parte primitiva e que busca, acima de tudo, sobreviver. É interessante notar também a psicologia de massa, algo bastante abordado em trechos do livro. Por falar em natureza humana, King planejava nomear o livro de “The Cannibals” (Os Canibais) no começo da década de 1980, quando ele tentou escrever Under the Dome pela segunda vez.

Existe uma clara dicotomia “Bem x Mal”, como é comum em Stephen King. Vários personagens acabam por cometer atos que fogem de sua índole em prol da sobrevivência. Aliás, é muito difícil definir os personagens de Sob a Redoma como principais e secundários, todas dão uma só unidade a Chester’s Mill.

Stephen King cria dois universos: a cidade dentro da Redoma e o mundo fora dela.  Chester’s Mill pode ser vista como um “microcosmo”, uma representação do mundo, enquanto, fora da barreira, está o “macrocosmo”. Esse universo criado dentro da Redoma se assemelha a um formigueiro, onde cada cidadão tem um papel e onde todos trabalham como um só organismo. O próprio autor faz essa comparação com as formigas durante o clímax do livro. Chester’s Mill acaba sendo a personagem principal de Under the Dome.

Dale “Barbie” Barbara é um dos personagens mais importantes do livro. Veterano da Guerra do Iraque e atual cozinheiro em um café local, ele é reincorporado ao serviço militar com a missão de assumir o comando de Chester´s Mill enquanto o Governo tenta “resolver” o problema da Redoma. Após se envolver em alguns problemas na cidade, Barbara estava indo embora quando a Redoma caiu, mantendo-o preso. O Coronel também é constantemente assombrado pelo passado na Guerra e por problemas com pessoas influentes dentro da cidade, como o querido segundo vereador, Big Jim. Grande parte do romance se passa ao redor de Dale.

Julia Shumway é a típica repórter intrometida. Ela é proprietária e editora do jornal local, O Democrata (apesar de ser Republicana), e sabe de tudo o que ocorre na cidade. Após o “Dia da Redoma”, a repórter se junta a Barbie para tentar descobrir os segredos da barreira que prende a cidade e para confrontar os que estão tentando tomar controle de Chester’s Mill. Apesar de ser uma personagem importante e bem construída, acaba não fugindo do clichê de “jornalista enxerido”.

Joe “Espantalho” McClatchey tem apenas 13 anos, mas é maduro e inteligente para a idade. Durante o livro, o próprio Stephen King ironiza o fato de ser sempre o “garoto gênio” que resolve os problemas em tradicionais clichês, algo que ocorre algumas vezes em Sob a redoma. Joe e seus amigos Norrie Calvert e Benny Drake ajudam Barbie, Julia e outros moradores a tentarem descobrir os segredos da Redoma.

Eric “Rusty” Everett trabalha no Hospital Cathy Russel como auxiliar médico. Ele é casado com a policial Linda Everett. Rusty simpatiza com Barbara e não acredita nas mentiras contatadas pelos inimigos do veterano. O auxiliar completa a “equipe” em busca dos segredos da Redoma.

Alguns personagens são um tanto óbvios e clichês, principalmente os que fazem parte desse considerado “time do bem”, como Dale Barbara, Julia Shumway e Joe McClatchey. Um dos principais papéis do personagem de Barbie no livro é criticar a Guerra do Iraque, o Governo Bush e os republicanos em geral (em 2009, a ideia de Trump ser presidente ainda era absurda. Aliás, ainda o é).

James “Junior” Rennie é um dos antagonistas do livro. Ele é filho de Big Jim e é recrutado como policial especial após o surgimento da Redoma. Ao se ver fardado, Junior percebe que pode fazer o que quiser sem ser punido e aproveita a situação para humilhar os cidadãos com seus amigos. Essas cenas lembram a “ultra violência” usada pelo grupo de Alex DeLarge em Laranja mecânica. Há até uma cena de estupro, como no clássico de Burgess. No início do livro, Junior é um rapaz com tendências violentas; no final, é um completo sociopata. O declínio mental dele é administrado por todo o livro, com vários detalhes que ajudam a entender essa evolução no comportamento de Junior. Um ótimo personagem, que, assim como o pai, só se preocupa com objetivos pessoais. Ele é mais uma das vítimas do comportamento abusivo de Big Jim.

Continuando na família, temos o já muito comentado James “Big Jim” Rennie, vendedor de carros e o segundo vereador de Chester’s Mill. Big Jim é uma grande caricatura do típico americano republicano: branco, conservador e religioso ao extremo. Dizem que ele foi inspirado em Dick Cheney, vice-presidente no mandato de George W. Bush. Apesar de não ser nenhum absurdo dizer que ele compartilha de vários traços do atual “presidente” dos Estados Unidos. Rennie é o foco de todos os problemas para Barbie e para quem ousar ajudá-lo. Obsessivo por poder e egoísta, o vereador possui uma grande influência na cidade. Ele manipula a todos como se fossem marionetes. Apesar de ser “somente um vendedor de carros”, grande parte da cidade acredita que Big Jim é o mais indicado para liderar Chester’s Mill nesse momento de crise. Chega ao ponto de o segundo vereador desejar a permanência da Redoma para conseguir manter domínio sobre a cidade e limpar alguns de seus segredos sujos. Aliás, o maior segredo de Rennie e seus “sócios” é uma clara referência a Breaking Bad. Stephen King é fã confesso da série.

Em certos momentos do livro, temos comparações entre Big Jim e Adolf Hitler. Realmente, o que se vê acontecer na pequena cidade após o “Dia da Redoma” é um regime muito similar ao fascismo alemão. As manipulações e mentiras contadas, o uso da religião para justificar atos que causariam controvérsia, discursos inflamados e prometendo glórias, tentativas de eliminar quem é contrário ao regime. O vereador usa a influência e lábia para aplicar uma lavagem cerebral na população da cidade e instituir uma espécie de ditadura. O momento em que Rennie sobe ao palco para discursar lembra e muito um discurso nazista.

O lado biológico e geográfico não é esquecido. King pensou nas possíveis consequências que a Redoma poderia trazer ao meio ambiente. Durante o livro, a poluição se acumula do lado de fora da barreira, mudando a cor das estrelas, da lua e do Sol para os que estão na cidade. O clima dentro da Redoma foi bem administrado, mostrando algumas das consequências da prisão invisível, como a falta de chuvas.

Série de TV

Em 2013, estreou, na CBS, a série Under the Dome, baseada na obra de Stephen King. Tinha, nos papéis centrais, Mike Vogel, como Barbie; Rachelle Lefèvre, como Julia Shumway; e Dean Norris, como Big Jim. Novos personagens foram adicionados à trama, assim como novas histórias.

A primeira temporada foi bem recebida pelo público e pela crítica (81% no Rotten Tomatoes). O grande problema foi a queda de qualidade na segunda temporada. O então produtor e roteirista da série, Brian K. Vaughan, saiu do projeto antes da estreia da segunda temporada. O resultado foi um enredo confuso e pobre. 57% no Rotten. Apesar de a série ter melhorado um pouco na terceira temporada, não foi o suficiente. Os fãs e a crítica estavam insatisfeitos. O domo, como a série era chamada na TNT, foi cancelada em 2015.



Histórias bem contadas possuem a habilidade de criar universos e novos mundos. Seja no cinema ou em livros. Até em músicas e jogos. Minha preferência pela ficção, principalmente terror, vem por admirar a criatividade e a capacidade de escritores, diretores e roteiristas em moldar o sentimento dos espectadores da maneira desejada. Stephen King, Kubrick, Hitchcock, Poe, Ridley Scott, Lovecraft, Tarantino… Uma boa história sempre começa com uma pergunta. “E se…?”.