20
fev
2017
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “Fale com Ela”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Matheus Benjamin

Fale com Ela (Hable com Ella)

Pedro Almodóvar, 2002
Roteiro: Pedro Almodóvar
Espanha
Pathé Internacional

4

As touradas são culturalmente associadas à Espanha por conta de sua origem ibérica. A prática é retratada no filme de Pedro Almodóvar e usada como um artifício para uma das personagens centrais, Lydia (Rosario Flores) que é uma respeitada toureira. O machismo da profissão é mencionado em uma das entrevistas em que ela dá para um canal de TV, o que desperta o interesse de Mario (Darío Grandinetti), um jornalista que ligará essa história à do enfermeiro Benigno (Javier Cámara) e sua paixão obsessiva por uma bailarina (Leonor Watling) em coma.

O roteiro divide em três partes (não muito iguais em tempo em tela) as histórias desses personagens anteriormente citados. Na primeira, o espectador conhece Lydia e Mario, que se conhecem e se envolvem durante alguns meses até Lydia ser atingida por um touro durante uma apresentação (cruel) de sua profissão e ser internada em estado grave. Mario acaba não sabendo lidar com a morte cerebral da companheira e com isso conhece Benigno, o enfermeiro que há quatro anos cuida constantemente de Alicia, uma ex-bailarina que sofrera um acidente em um dia chuvoso. Por meio de flashbacks, Benigno conta sua história a Mario e dois se tornam grandes confidentes; Mario e sua introspecção de sentimentos e Benigno com toda a sua explosão deles por Alicia. Ocorre que essa obsessão torna-se algo completamente fora do habitual e as consequências são trazidas à tona pelo ponto de vista de Mario que acaba partindo depois de algum tempo.

Pedro Almodóvar é um cineasta com um constante interesse pelo universo feminino mas retratado pelo ponto de vista masculino (ou até mesmo o seu próprio), tratando de temas muitas vezes considerados tabus de forma natural e espontânea. Em Fale com Ela, o diretor discute com exímia competência a jornada de dois homens que buscam compreender seus sentimentos por duas mulheres que aparentemente não podem mais viver do modo como eram antes. E Benigno é um personagem excêntrico com grandes esperanças de que Alicia acorde, pois fala com ela todos os dias, contando-lhe dos filmes que assiste, das viagens que deseja fazer e de tudo o que acontece ao seu redor. A direção opta por desenvolver esses aspectos de forma bastante imersa ao espectador, colocando-o como um confidente.

A cinematografia trabalha com interesses de introspecção, fazendo com que os personagens sejam captados intimamemente com diversos planos americanos (dos joelhos para cima) e closes. Há também as capturas em plongée de Alicia sendo limpa por seus enfermeiros, mostrando um resquício de vida que por ali estava, pois Benigno a maquiava e a tratava como se nada de ruim estivesse acontecendo. Essa cinematografia trabalha em constante parceria com a paleta de cores quentes costumeira nos filmes de Almodóvar e, desta vez, a predominância do vermelho contamina todas as cenas. Mesmo quando não há nada neste tom em algum cenário, eis que aparece algum personagem com uma blusa ou algum outro detalhe em sua vestimenta dessa cor. O alaranjado e o amarelado também fazem parte da paleta e ajudam na construção vibrante do intenso roteiro.

O longa também traz a aparição de Caetano Veloso interpretando uma belíssima canção com o músico Jacques Morelenbaum e ainda na trilha sonora uma música de Elis Regina durante os primeiros minutos; além disso, como referência, é possível ver de relance o livro As Horas, de Michael Cunningham. Em determinado momento, Benigno também conta para Alicia sobre um filme que assistira no cinema, fazendo referência ao cinema mudo e explorando a sexualidade feminina com um toque de realismo mágico. A história é um destaque que enriquece ainda mais a trama e mostra toda a devoção do personagem para com sua amada.

A riquíssima discussão que o roteiro traz sem qualquer julgamento de valor faz com que o filme se torne ainda mais envolvente e interessante ao espectador, tendo em vista que o que é apresentado é simplesmente apresentado e não tratado. E quem assiste pode se espantar ou até mesmo se comover, refletindo sobre esses temas contemporâneos e que poderiam facilmente acontecer na realidade, afinal há muitos casos de paixões obsessivas, até mesmo parecidas com a encontrada no filme, se tornando notícia nos dias atuais. Há de se comentar a participação especial de Geraldine Chaplin, que interpreta a professora de balé de Alicia e que, mesmo com pouco tempo de tela, tem uma importância para a personagem.

Sendo um filme intenso e com a estética almodovariana marcada, Fale com Ela é um riquíssimo estudo de personagens e que merece ser visto e apreciado por todo tipo de público, provocando reflexões bastante importantes para os tempos atuais.

E na semana que vem, nossa volta ao mundo chega à Estônia, com o longa Tangerinas. Não perca!



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba”, ambos pela Pessoas na Van Preta.