26
fev
2017
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “Tangerinas”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Pedro Bonavita

Tangerinas (Mandariinid)

Zaza Urushadze, 2013
Roteiro: Zaza Urushadze
Estônia
Samuel Gondwyn Films

4

Não são poucas as vezes em que se coloca a culpa das guerras civis africanas na divisão geográfica realizada artificialmente pelos governos europeus que ocuparam aquele continente a fim de explorar seus recursos naturais, além da simples dominação do território. Dessa maneira, o que se acontece até hoje, principalmente na pós União Soviética e pós-queda do Muro de Berlim, também está relacionado à sede do homem de dominar territórios que não lhe pertencem. Ao dividir um mapa com linhas geométricas e agregar povos completamente distintos debaixo de um único governo, o ódio e as diferenças étnicas e religiosas ficam ainda mais afloradas. Afinal, aquelas pessoas que possuíam cada uma a sua terra, com suas leis, sua cultura e sua sociedade são obrigadas a aceitar as leis e cultura de uma outra sociedade, sendo muitas vezes escravizadas, entre outras coisas. Se, durante o período em que havia a União Soviética existiam conflitos separatistas, com o seu final esses conflitos continuam até o dia de hoje. Constantemente somos “surpreendidos” com novos pequenos países europeus surgindo no mapa. A Guerra da Abecásia (1992–1993) foi mais um desses conflitos territoriais pós-URSS. Nessa guerra forças do governo da Geórgia lutavam contra separatistas da região de Abecásia que buscavam a independência da região.

A trama de Tangerinas, longa dirigido pelo georgiano Zaza Urushadze, conta a história de Ivo (Lembit Ulfsak) e Margus (Elmo Nüganen), dois produtores de Tangerina que vivem na região de Abecásia e que sonham com o final da colheita para poder se juntar aos seus familiares na Estônia, onde todos vivem após fugirem da guerra. Em um conflito entre 3 georgianos e 3 chechenos que acontece próximo à propriedade rural de Ivo e Margus, 4 homens perdem a vida, ficando vivos e gravemente feridos um checheno: Ahmed (Giorgi Nakashidze) e um georgiano: Niko (Misha Meskhi) que são salvos pelos dois produtores e acabam vivendo em sua casa até que estejam recuperados dos ferimentos.

É interessante perceber a sutileza trazida pelo roteiro ao lidar com as situações comuns de guerra. O diretor e roteirista opta por trazer a ambientação comum durante os conflitos muito mais em termos de diálogos do que gráficas – ainda assim, ele consegue fazer com que o filme prenda o espectador, não sendo necessárias montagem frenética e cenas de ação. Com os diálogos e toda a mise-èn-scene criada dentro daquela casa, o diretor consegue nos passar o horror que é uma guerra e todos os conflitos que servem como fio condutor daquele conflito. O ódio e a provocação entre o checheno e o georgiano movem a trama e faz com que a tensão fique o tempo todo no ar, mesmo durante aquela “Guerra Fria” que existe entre os dois diante das promessas feitas por ambos de que não matariam um ao outro debaixo do teto de Ivo. Nesse sentido, é interessante notar a construção de personagens conseguida tanto pelo texto quanto pelas atuações já que nos primeiros encontros as provocações são constantemente ríspidas com direito a agressões verbais e até físicas -por exemplo, quando Niko joga chá em Ahmed, e com o passar do tempo os diálogos provocativos vão perdendo a força do ódio e trazendo uma ironia quase cômica, como quando Niko reclama da música que Ivo colocou pra tocar e antes que ele desliga, Ahmed diz que estava adorando aquela melodia.

A fotografia fria ajuda muito na criação de tensão e sensação de enclausuramento dentro daquela residência, deixando claro que um lugar que antes era cheio de vida e que agora serve apenas como um refúgio para se proteger da guerra que corre solta do lado de fora, quase sufocando aqueles personagens. Ao tempo em que quando mostra a plantação de tangerinas é lindo perceber a cor laranja forte das frutas contrastando com todo aquele universo, em uma analogia de que somente a natureza sobrevive por ali. Essa sobrevivência da natureza fica ainda mais evidente com a escolha do diretor em não mostrar campos de batalhas, deixando os campos da região intactos, mesmo que em torno deles haja mortes de seres humanos.

Trazendo ainda uma referência ao cinema ao dizer que “cinema é uma grande fraude”, Tangerinas é um sensível retrato de tempos de guerra, que escolhe focar não nas batalhas propriamente ditas, mas sim nas relações humanas que levam a todo aquele ódio. Conta ainda com uma sequência belíssima onde durante um brinde uns escolhem brindar pela vida, outros pela morte. Afinal  a Guerra é sobre morte ou sobre a busca pela vida (sobrevivência)?

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Na próxima semana nosso avião desembarca na Etiópia com o longa Teza (Haile Gerima, 2008).



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.