05
mar
2017
As cores e os simbolismos de Moonlight!
Categorias: Especiais, Maratona Oscar 2017 • Postado por: João Vitor Moreno

*O texto a seguir contém spoilers sobre o filme Moonlight.

É sempre gratificante para quem gosta de assistir filmes com um olhar mais atento poder perceber elementos narrativos que muitas vezes passam despercebidos. Ao contrário do que muitos pensam, assistir a um filme prestando atenção em seus elementos técnicos não te proporciona uma experiência mais fria ou menos emocionante, muito pelo contrário. Ao notar sutilezas passadas pela fotografia, pelo design de produção, ou pelos figurinos, é possível ter uma imersão muito maior na proposta de um filme, e por consequência ter uma experiência muito mais complexa e gratificante.

Bons filmes sempre recompensam um olhar mais atento, e Moonlight é um desses casos. Além de um estudo de personagem belíssimo, e que se torna ainda mais comovente por ser basicamente autobiográfico, o trabalho técnico do filme é espetacular, não apenas pela inegável beleza estética, como principalmente por comentar de maneira muito delicada sobre a jornada de seu protagonista.

As Cores

Uma das ferramentas que os diretores constantemente utilizam para evocar emoções específicas são as cores. É normal que tendamos a reagir de determinadas maneiras com certas cores: um ambiente vermelho, por exemplo, tende a passar uma percepção de ameaça e perigo, enquanto um ambiente dominado pela cor branca tende a passar calma e tranquilidade.

E o que o diretor Barry Jenkins faz em Moonlight é utilizar as cores que compõem o filme (seja nos figurinos, na iluminação, ou nos elementos cênicos) para comentar sobre seus personagens e evocar o estado de espírito de seu protagonista, Chiron, fazendo com que o espectador compartilhe de sua melancolia e angústia, e transformando o filme em uma experiência emocionalmente ainda mais intensa.

Antes de partirmos para as imagens acho importante explicar um detalhe que pode passar batido pela tradução: este filme é baseado em uma peça chamada “In Moonlight Black Boys Look Blue” (frase que é dita dentro do próprio filme, inclusive), que traduzindo ficaria “na luz do luar garotos negros parecem azuis”, mas como em inglês a palavra “blue” tem duplo sentido (azul, e triste), o título também pode significar “na luz do luar garotos negros parecem tristes”. E é considerando esse duplo sentido que a lógica visual do filme é pensada, utilizando tons de azul que remetem à luz do luar para representar a melancolia de Chiron.

E a opção de constantemente associar essa mesma cor ao personagem Kevin, por quem Chiron se sente atraído, demostra como esse relacionamento (e, obviamente, as emoções confusas que surgem em Chiron por conta disso) evoca nele o sentimento de melancolia.

Dessa forma, nos três tempos distintos em que encontramos Kevin, ou o vemos com uma roupa azul, ou banhado em luz azulada, ou então “contornado” em azul de alguma forma.

       

Seguindo a lógica, em diversos momentos vemos o próprio Chiron envolto em azul, inclusive sua casa é dominada por essa cor.

 

E no terceiro ato, quando ele e Kevin se reencontram e estão andando de carro, é belíssimo notar como a fotografia faz com que as luzes da cidade e de outros carros que passam pela janela contornem os dois com flashes de tons azuis.

 

Outro “truque” visual que Barry Jenkins e sua equipe utilizam para comentar sobre Chiron é a cor branca em sua infância que reflete tanto sua inocência quanto o fato de ele ainda ser alguém em “formação”.

E outro detalhe interessante é como o quarto da mãe de Chiron, onde ela se prostitui para conseguir dinheiro para sustentar seu vício em crack, é o único local todo banhado em luz vermelha, o que evoca um sentimento de “perversidade” e desejo sexual, e, em uma interpretação mais livre, pode representar também seu “inferno” espiritual.

Simbolismos

Mas além da estética apurada, Moonlight também se diferencia por delicados simbolismos. Reparem, por exemplo, como Chiron e Kevin, ao se encontrarem durante a adolescência, estão cercados por grades de proteção que criam um visual de aprisionamento entre eles.

E seguindo a mesma ideia, depois de passar a infância com a cor branca da inocência, ao chegar à adolescência Chiron utiliza por cima uma camisa xadrez, o que reflete suas inseguranças e, de novo, o sentimento de “prisão” ao descobrir sua própria sexualidade.

Aliás, é bonito notar como logo na cena seguinte ao momento onde Chiron tem seu primeiro contato sexual ele surge com uma camiseta que ao invés de ser xadrez, traz apenas listras horizontais, como se ele tivesse se libertado bem discretamente de parte de sua prisão. Da mesma forma, ao decidir agir pelo impulso e atacar o garoto que o estava infernizando, ele veste uma camiseta toda azul e sem listras: com se estivesse se libertando por um momento, mas se rendesse completamente à tristeza (lembrando que no inglês azul tem duplo sentido).

E utilizando essa mesma lógica do azul como representação da melancolia, é interessante notar como Chiron logo no início do filme aparece carregando uma mochila azul, literalmente levando nas costas a tristeza.

E outro simbolismo delicado que prova o cuidado na produção do filme é o que envolve o oceano.

O oceano (e a água, no geral) é sempre muito utilizado como metáfora para purificação e, como é o caso aqui, libertação.

Dessa forma, nos três tempos em que se passa a história Chiron tem contato com o oceano, e sempre em momentos de libertação.

Na infância, quando nada com o personagem Juan, que o acolhe e oferece carinho, em um raro momento de felicidade. Na adolescência, quando sentado na areia da praia tem seu primeiro contato sexual. Já na fase adulta, quando está indo para casa de Kevin, ao sair do carro para por alguns instantes para olhar as águas.

  

Sendo assim, nada mais coerente do que terminar o filme com uma imagem que resume suas principais ideias: Chiron criança, banhado na luz do luar, todo azul, de frente para a vastidão do oceano.

E é por essas sutilezas e por esse cuidado delicado ao contar sua história que Moonlight é um filme tão intenso, que evoca tantas emoções mesmo sem apelar para momentos exagerados ou artificiais, mostrando que em bons filmes, quanto mais se presta atenção, melhor é a sua experiência.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael