27
mar
2017
Crítica: “Fragmentado”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

Fragmentado (Split)

M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan
Universal Pictures

2.5

A carreira do indiano M. Night Shyamalan é igualmente interessante e decepcionante. Explodindo na virada do século ao lançar dois filmaços em sequência (O Sexto Sentido em 1999, e Corpo Fechado em 2000), o diretor apenas decaiu depois disso: após comandar o ótimo Sinais (onde já começou a demonstrar problemas com roteiro) partiu para o mediano A Vila (que mesmo bem conduzido trazia problemas estruturais primários), e depois disso caiu no desastre total com filmes que chegavam a ser risíveis: A Dama na Água, Fim dos Tempos (esse é inacreditavelmente pavoroso), O Último Mestre do Ar e Depois da Terra. E se A Visita, seu penúltimo filme, pareceu reacender a esperança de que Shyamalan pudesse voltar a oferecer algo realmente interessante para o cinema, este novo Fragmentado mostra uma volta ao declínio, sendo um filme que está longe do desastre total como era tão comum em sua carreira há alguns anos, mas traz sérios problemas e quase não cumpre sua função básica de funcionar como suspense.

A trama é melhor apreciada se o espectador não souber muito sobre ela, e apesar de os trailers já terem entregado quase tudo, serei o mais breve possível: três jovens garotas são raptadas por um homem com múltiplas personalidades. Pronto.

Se o resultado final do filme é negativo, isso não significa que ele seja um desastre total. Há sim coisas eficientes aqui, é inegável. Uma delas é o ótimo design de som, que cria uma atmosfera ameaçadora para o cativeiro onde se passa boa parte da trama, trazendo em vários momentos ecos e ruídos que às vezes assumem um caráter quase animalesco. Da mesma forma, o design de produção é eficiente em brincar com clichês sem nunca se render completamente a eles: temos corredores mal iluminados e sujos, porões cheio de encanamentos velhos, mas Shyamalan é inteligente o bastante para compreender que isso pro si só não é suficiente para criar tensão – ao menos, não uma tensão original.

E não há como negar que existem qualidades na abordagem estética do diretor: sendo extremamente eficiente em criar um senso macabro apenas com a mise-en-scène (a disposição dos atores e dos elementos cênicos em tela), Shyamalan também faz bom uso de técnicas mais “convencionais”, como a câmera subjetiva (aquela que nos faz enxergar com os olhos de algum personagem). Porém, até mesmo boas ideias estéticas acabam incomodando pelo excesso: como a insistência de filmar os atores – especialmente a protagonista vivida por Anya Taylor-Joy – em primeiríssimos planos, que até é eficiente em evocar a claustrofobia da narrativa, mas é utilizada tantas vezes e de maneira tão igual, que passa a soar artificial. E se por um lado algumas rimas visuais funcionam bem, como a imagem de James McAvoy correndo horizontalmente entrando e saindo das sombras e se aproximando gradativamente da câmera (que se repete durante o filme e até remete ao trabalho anterior do diretor), por outro, algumas pecam pela obviedade, como aquela que envolve uma personagem segurando uma arma de fogo.

E outra coisa que acaba sendo interessante no trabalho de Shyamalan são suas referências a seus filmes anteriores. Por mais que isso pode ser encarado por alguns como mero exibicionismo, não deixa de ter seu valor: além da já citada rima visual com seu último filme (A Visita), ele cria também um momento que remete diretamente ao seu trabalho em Sinais (para quem está mais familiarizado com sua carreira: reparem como em certo momento o personagem de McAvoy sai de uma sombra para entrar em outra, ficando por uma fração de segundo visível, e como sua forma de se mover e o próprio conceito estético da cena lembra o alienígena de Sinais, naquela cena do noticiário). E também é interessante como o diretor faz com que sua participação especial como ator de certa forma comente sua função como diretor: enquanto em Sinais seu personagem era o responsável pela situação emocional dos protagonistas (ele havia atropelado e matado a esposa do personagem principal), aqui ele é um controlador de câmeras de segurança, alguém que trabalha observando outras pessoas (olha a ironia) – um toquezinho hitchcockiano interessante. Aliás, essa não é a única referência ao mestre do suspense: o famoso “dolly zoom”, criado por Hitchcock em Um Corpo Que Cai, também pode ser visto em alguns momentos.

Mas talvez a principal força do filme esteja em seu elenco: por mais que Haley Lu Richardson (a menina loira que é sequestrada junto com a protagonista) apele para muletas de interpretação absurdas, como a recorrência em dizer suas falas de forma desesperada e sempre com os braços dobrados para frente e com as mãos abertas, Anya Taylor-Joy e James McAvoy compensam tudo. Enquanto Taylor-Joy comprova o talento já demonstrado no excelente A Bruxa, com aquela dubiedade entre inocência e malícia, James McAvoy impressiona tanto pela entrega total quanto, principalmente, por diferenciar tão bem as diferentes personalidades de seu personagem: sua linguagem corporal por si só já o suficiente para percebemos quando ele muda de personagem, sendo ainda mais impressionante quando ele faz isso em um só take sem cortes (destaque para uma cena passada no escritório de sua psicóloga, onde uma personalidade tenta se passar por outra). Além disso, McAvoy consegue ao mesmo tempo oferecer uma ameaça palpável (só a maneira como ele passa a mão na cabeça já consegue ser ameaçadora) e ainda ser capaz de gerar momentos cômicos com a mesma eficiência (a mania de falar “etcetera” de sua personalidade infantil é hilária!).

E se o elenco está entre o que o filme tem de melhor, seu roteiro está entre o que ele tem de pior. Além da clara falta de estrutura, que salta para flashbacks em momentos inoportunos e praticamente esquece sua protagonista por grande parte da projeção, as “pistas e recompensas” oferecidas pelo texto são absurdamente óbvias para qualquer um que já tenha visto mais de dois filmes na vida: em certo momento, por exemplo, uma personagem diz algo como “se eu disser tal palavra vai acontecer tal coisa”, e adivinhe só o que acontece um pouco mais para frente??? Uau, alguém diz a tal palavra e a tal coisa acontece (ainda que isso acabe não tendo muita importância em relação ao que acontece depois, não deixa de ser um “truque” de roteiro incrivelmente primário, que poderia ser considerado ultrapassado até mesmo em uma série de TV, em um filme então nem se fala…). Isso para não falar na quantidade de diálogos expositivos proferidos pela personagem da psicóloga (que, aliás, ganha um destaque muito maior do que sua importância real para a história), e o decepcionante anticlímax que é a resolução do conflito principal e a artificial e insatisfatória motivação que supostamente deveria justifica-lo. E, sem querer parecer implicante demais, mas a opção de trazer as personagens femininas tendo suas peças de roupa gradativamente tiradas me parece igualmente sexista e gratuito (afinal, fica claro desde o início que o principal interesse que o personagem de McAvoy tem pelas meninas não é essencialmente sexual).

Compensando um pouco em seus segundos finais (em uma cena que poderia perfeitamente ocorrer após os créditos, mas para não ser perdida por muita gente o diretor opta – acertadamente – em inclui-la ainda dentro do filme) que – sem dar muitos detalhes para evitar spoilers – faz referência direta e coerente com outro filme muito mais interessante, Fragmentado pode até não ser uma bomba, e o próprio Shyamalan já se mostrou capaz de fazer coisa muito pior, mas ainda é um filme fraco, que para cada acerto traz outros dois deslizes.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael