13
mar
2017
Crítica: “Jim: The James Foley Story”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2017 • Postado por: Matheus Benjamin

Jim: The James Foley Story

Brian Oakes, 2016
Roteiro: Brian Oakes, Chris Chuang e Heather MacDonald
HBO Films

4

O jornalismo especializado em cobrir guerras ao redor do globo, sobretudo no Oriente Médio, sofreu uma série de retaliações por conta de grupos terroristas que capturavam seus correspondentes. O documentário Jim: The James Foley Story, que concorreu ao Oscar 2017 na categoria de Melhor Canção Original com “The Empty Chair”, de J. Ralph & Sting, traz a história de James Foley, o primeiro jornalista norte-americano morto pelo ISIS. O fato foi registrado por câmeras dos próprios terroristas e as imagens circularam pelo mundo inteiro.

James Foley foi um fotojornalista tido como diferente por seus colegas de profissão, entrevistados pelo diretor Brian Oakes. Ele possuía uma sede de informar e de buscar levar adiante a história de pessoas simples que tinham suas vidas devastadas pelas dores da guerra, além disso, seus irmãos e família tinham muito receio da área de profissão escolhida por ele, tendo em vista todos os perigos que o cercavam. E o filme se constrói dessa forma: no início o espectador conhece um pouco da rotina e do que os amigos e colegas de trabalho sabiam sobre Jim. Sua família também conta sobre a relação que cultivavam juntos, do momento da escolha da profissão, aos estudos na universidade e da ida para a Síria, onde deveria cobrir a guerra civil que acontecia por lá criticando as forças anti-Assad da oposição do país.

Em seguida, o desaparecimento do protagonista; o que sua família passou durante o ano em que não tinha notícias dele, do ano em que os seus colegas jornalistas voltavam para suas casas, suas rotinas sem saber o que acontecera com Jim até terem novas informações sobre ele ter sido sequestrado pelo Estado Islâmico. Foley fora sequestrado junto de um outro colega e os dois permaneceram em um cativeiro com diversas pessoas do mundo todo, que inclusive são entrevistas e em seus depoimentos tentam ilustrar de maneira precisa o que se passou durante esse período inebriante. Durante essas entrevistas, há um interesse da direção em fazer reconstituições do que aconteceu dentro das celas onde essas pessoas ficaram trancafiadas. Essas reconstituições dão um tom expositivo e interessante ao documentário, que caminha com um ritmo sufocante para o espectador, tendo em vista a gravidade da história a ser relatada.

O diretor junto dos roteiristas Chris Chuang e Heather MacDonald faz dessas cenas a coisa mais claustrofóbica e turva possíveis, algo também envolvido no trabalho do montador Aleks Gezentsvey. O jogo de sombras, os rostos cobertos e uma paleta escura, cinza e distante se faz presente durante as representações. Os depoimentos se tornam muito visuais com o auxílio desse recurso e dão um tom ainda mais dramático ao filme. Dois entrevistados muito ligados a Jim durante esse período de cativeiro dão detalhes minuciosos sobre a rotina de todos que estavam presos. O jogo que fizeram para passar o tempo, a comida escassa e as torturas dolorosas que vinham de repente. É com emoção que eles também relatam quando deixaram a cela, junto de outros reclusos e se despediram de quem ficava por lá; no caso James Foley, que aparentemente ficou sozinho durante alguns dias enclausurado.

Apesar de se tratar de um estudo e uma homenagem ao fotojornalista norte-americano, fica uma certa impressão de que tentaram retratar James Foley como um grande herói de guerra – não tirando seu valoroso mérito, mas destacando apenas suas grandes qualidades, sua humildade e sua generosidade com os demais.

Sem se estender por mais tempo que o necessário e deixando o espectador aflito em algumas passagens finais, Jim: The James Foley Story é um documentário difícil e com temas delicados, mas com grandes qualidades e acertos. É um convite a se conhecer um pouco mais sobre o jornalismo de guerra por meio de uma figura que ficará marcada por se sacrificar em nome de sua amada profissão.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-MA-LA" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta Produções.