16
mar
2017
Crítica: “Kong: A Ilha da Caveira”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

Kong: A Ilha da Caveira (Kong: Skull Island)

Jordan Vogt-Roberts, 2017
Roteiro: Derek Connolly, Max Borenstein e Dan Gilroy
Warner Bros.

3.5

É sempre bom quando um filme conhece a si próprio. Nem todo filme é revolucionário, e nem todos têm a ambição de ser. E Kong: A Ilha da Caveira é um desses casos, já que, apesar de alguns deslizes, é uma obra que entende seu próprio potencial e – mais importante – suas limitações, conseguindo cumprir muitíssimo bem sua função principal que é diversão descompromissada.

Mas descompromissada não é sinônimo de mal feita, é bom lembrar. Basta observar o que o diretor Jordan Vogt-Roberts faz aqui: repare, por exemplo, como ele faz questão de ressaltar a grandiosidade do que está acontecendo na (excelente!) sequência que envolve helicópteros, ao filmar diversos planos abertos e longos que estabelecem de maneira eficiente toda a geografia da cena, tornando-a compreensível e, por consequência, muito mais envolvente. Outro exemplo de trabalho cuidadoso e consciente são as cenas que trazem Kong lutando com outros monstros gigantes: além do óbvio valor de entretenimento que tem dois monstros gigantes brigando, o diretor utiliza muito bem a tecnologia 3D ao filmar essas lutas sempre com grande profundidade de campo e trazer os monstros se movimentando não apenas para os lados como também para dentro e para fora, se aproximando e afastando da tela conforme a batalha avança.

E se por um lado a opção de apresentar o Kong de maneira direta, sem muito suspense, pode desagradar alguns, os efeitos visuais acabam por compensar tanto pelo primor técnico quanto pela inventividade na criação dos monstros. Só é uma pena que a principal criatura tenha seu conceito visual tão parecido com o de monstros que já haviam aparecido anteriormente, o que faz com que seu impacto e ameaça seja um pouco menor. E enquanto o sadismo em retratar a ação dos monstros com os humanos é bastante divertido, não deixa de ser lamentável que ele tenha que apelar para recursos tão batidos como sustos fáceis para tentar se validar como horror.

Mas apesar disso, é interessante como o diretor brinca com a estética do filme, e cria imagens memoráveis seja pela beleza estética ou então pelo bom humor: como na cena que traz um plano aéreo de alguns personagens caminhando entre esqueletos gigantes, ou então ao apresentar o principal “vilão” do filme (Samuel L. Jackson), onde a primeira imagem que vemos é ele completamente cercado de faíscas em uma base militar – o que já adianta sua natureza “vilanesca” e maldosa.

Aliás, é muito bacana como o filme compreende a natureza limitada e até unidimensional de seus personagens (o que não anula o erro, é claro, mas em um filme em que o principal é a ação, isso é um erro menor), sendo assim, não perde tempo ao apresenta-los: ao conhecermos o personagem vivido por Tom Hiddleston (infelizmente, mal explorado) o vemos em uma briga de bar absurda e isso é tudo que precisamos saber sobre ele; já a personagem de Brie Larson aparece em um quarto de luz vermelha com fotos penduradas e pronto, já sabemos o que precisamos saber sobre ela: é uma fotógrafa, é só o que importa, agora vamos para a ação. Não tem porque fingir uma profundidade dramática que não existe.

E talvez o principal problema do filme seja justamente ao em sua metade (mais especificamente, após a entrada do personagem vivido por John C. Reilly) perder tempo demais tentando forçar um impacto dramático com seus personagens que simplesmente não funciona, e acaba deixando o ritmo da narrativa muito mais irregular do que o necessário.

Mas apesar de algumas falhas, Kong: A Ilha da Caveira traz ainda um invejável senso de humor (gosto particularmente do bonequinho do Nixon em um helicóptero), uma trilha sonora que vai de David Bowie a Black Sabbath, além de diversas referências (além da mais óbvia, que homenageia Apocalipse Now, há também outras mais sutis como o uso da música “We’ll Meet Again”, que até pelo contexto em que é usada, lembra imediatamente o clássico Dr. Fantástico). No fim, acaba sendo um filme que mesmo deixando a impressão de que poderia ter sido melhor, não deixa de cumprir muito bem a sua função, e que esta função seja “apenas” divertir não diminui em nada seus méritos.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael