02
mar
2017
Crítica: “Logan”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

Logan

James Mangold, 2017
Roteiro: James Mangold, Michael Green e Scott Frank
Fox Film do Brasil

4.5

No meio de tantos filmes de super-herói lançados é difícil se destacar. Como cinéfilo, posso até me lembrar da sequência no aeroporto em Guerra Civil, de alguns conceitos estéticos de Doutor Estranho, e várias piadas de Deadpool. Mas, sinceramente, não me lembro da última vez que vi um blockbuster tão preocupado em explorar não sua expansão de universo para garantir continuações, mas sim a natureza de seu protagonista, como este novo e surpreendente Logan. Sim, o filme se encaixa dentro do universo criado pelos outros filmes da saga X-Men e traz sequências de ação memoráveis, mas acima de tudo é um filme que entende e está disposto a explorar a natureza destrutiva e, obviamente, dramática de seu personagem título.

Como os próprios trailers fogem de detalhes sobre a trama, também serei breve na sinopse: basta dizer que o filme se passa no futuro, onde supostamente não há mais mutantes, e Wolverine vive escondido no anonimato, assim como o professor Xavier. Porém, eventualmente eles encontram uma jovem garotinha com poderes especiais e precisam ajuda-la a escapar de quem quer mantê-la prisioneira e usá-la como arma.

Utilizando muito bem as locações empoeiradas e cheias de areia para comentar o próprio estado de espírito de seu protagonista, o filme a todo o momento deixa claro que muito mais do que uma história de ação e aventura, o que realmente importa é a natureza destrutiva de Wolverine, que parece fadado a sempre machucar aqueles que o cercam, e o que é pior é que ele sabe disso, mas não pode evitar. E por mais que este seja um filme solo, que se sustenta sozinho independente de seus antecessores, conhecer os filmes anteriores do personagem (tanto os X-Men quanto os outros filmes solo) com certeza te dará uma experiência mais completa.

E por tratar seus personagens com tanta delicadeza, o filme pode proporcionar momentos como aquele que os mostra em uma mesa de jantar em uma cena que combina tanto senso de humor como nostalgia, e podemos perceber como nos importamos com aquelas figuras.

Seguindo a mesma lógica, a violência extrema (e gráfica) que percorre toda a projeção não é de forma alguma gratuita, e funciona extremamente bem para impedir que a ação fique banalizada e, o que é mais importante, para passar o peso que toda aquela destruição tem para seus personagens. E o trabalho de som também merece créditos por incluir ruídos praticamente animalescos nas cenas que trazem o protagonista ou sua pequena companheira atacando inimigos, o que realça sua natureza destrutiva.

Mas por mais que este seja um filme de personagem, isso não significa que a ação seja desinteressante, e sim que esta não existe apenas para “entreter”, mas também para comentar sobre seu protagonista. E o fato de a ação ser tão eficiente faz do filme não só um estudo de personagem, como também uma experiência eletrizante e envolvente (garanto que pelo menos três sequências te deixarão sem fôlego). E por mais que ao partir para uma ação mais grandiosa falte um pouco de habilidade ao diretor James Mangold, que ao utilizar muitos planos fechados esquece de estabelecer a geografia geral das cenas, pelo menos a ação se beneficia não apenas pela violência como também por conceitos muito interessantes, como na cena que envolve um trem.

Sendo também beneficiado por uma atuação central intensa, de entrega total, de Hugh Jackman, o filme ainda deixa espaço para o veterano Patrick Stewart trazer um afinadíssimo senso de humor. E se Boyd Holbrook pode parecer uma escolha equivocada para o vilão, Dafne Keen rouba a cena sem dizer uma única palavra.

Não decepcionando como espetáculo para quem está interessado em um bom filme de ação, mas também recompensando quem está cansado de tantos filmes de super-herói feitos apenas para expandir universo e garantir continuações, Logan é um filme que entende a natureza de seu protagonista e a explora tão bem que pode se sentir a vontade para em mais de um momento fazer referência ao clássico Shane (Os Brutos Também Amam, de 1953) e deixar clara sua ambição temática.

E ambição não é algo que se encaixa em muitos blockbusters ultimamente.



Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.