24
mar
2017
Crítica: “Minha Vida de Abobrinha”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2017 • Postado por: Matheus Benjamin

Minha Vida de Abobrinha (Ma Vie de Courgette)

Claude Barras, 2016
Roteiro: Celine Sciamma, Morgan Navarro e Germano Zullo
Califórnia Filmes

4

Animações em stop motion sempre chamam a atenção por conta das dificuldades empregadas na produção e o seu resultado final. Como já estudei a técnica desse tipo de animação entendo como funcionam a maioria das produções, um trabalho árduo e cansativo, mas muito recompensador. Neste Minha Vida de Abobrinha, animação francesa em stop motion temos um belo exemplo, também, de que animações não são filmes feitos exclusivamente para crianças.

Logo no início do longa, que tem cerca de sessenta e cinco minutos de duração, o espectador pode perceber o tom dramático da narrativa que segue Courgette (Abobrinha – dublado por Gaspard Schlatter) perdendo a mãe de maneira acidental e indo morar em um abrigo para crianças. Ele conhece Raymond (Michel Vuillermoz), um policial que o acolhe e o guia até este abrigo, onde as coisas parecem ser bem diferentes de quando vivia solitário. Embora sofresse muito com a família que tinha (provavelmente um pai ausente e uma mãe nada amorosa) ele ainda os preferia a ter que conviver com as crianças desconhecidas do abrigo; algumas delas praticamente incorrigíveis e outras com problemas mais graves.

É com essa premissa que o longa (curto para os padrões de longas-metragens) se desenvolve, mostrando cada vez mais o dia a dia de seu protagonista, completamente deslocado em seu novo lar tentando entender o que esteja acontecendo com sua vida. Os adultos parecem subestimar as crianças, que percebem sempre algo de errado acontecendo e só não conseguem descobrir sozinhas o que é em sua totalidade. Com o passar dos minutos de projeção, as diversas crianças que antes eram desconhecidas a Courgette passam a se tornar bastante familiares, mesmo aquelas com quem ele não se dava bem no início; o amadurecimento precoce do menino o faz perceber a dificuldade de viver em união de alguns deles, como é o caso de Simon (Paulin Jaccoud), o garoto ruivo que se mostra um valentão sem escrúpulos, mas que possui um passado triste e melancólico. Esse personagem aos poucos vai se deixando amolecer-se aos outros, para finalmente mostrar que tudo o que fizera era uma forma de se defender até mesmo das coisas que já lhe ocorreram em sua pequena e sofrida vida.

Mas é com a chegada de Camille que as coisas no orfanato mudam para Courgette, que encontra na menina uma válvula de escape. Uma garota que é afrontada severamente pela tia egoísta e opressora, mas que possui um coração e uma aura bastante amigável e até mesmo maternal para com os outros. As aventuras desses personagens no orfanato vão desde livrar Camille (Sixtine Murat) de sua tia completamente insana a viver de forma pacífica e amigável com todas essas crianças que não tem ninguém além de umas às outras.

Essa melancolia latente acompanha todos os minutos de projeção e mostra ao espectador a delicadeza do roteiro que coloca diálogos em seus personagens em momentos bastante oportunos. E talvez pela maturidade precoce que essas crianças necessitam adquirir, algumas frases soam adultas demais, mas também pode ser alguma pequena falha de roteiro, que não soube adaptar adequadamente seus diálogos aos pequeninos; nada que tire o divertimento e as reflexões que o filme provoca. A roteirista Céline Sciamma soube amarrar competentemente os textos de Gilles Paris, no qual o filme é baseado.

O design de produção é bastante contrastante. Isso é visível não só no “traço” escolhido para desenhar os personagens em massinha, que possuem um tom latente de tristeza envolta na expressão facial, quanto nas cores utilizadas na composição de seus cabelos, olhos, boca, roupas e cenários. O orfanato, por exemplo, é amarelado, mas seu interior possui tons mais frios e neutros, o que pode indicar a quem assiste, indiretamente, que o ambiente por fora parecia bastante alegre, enquanto por dentro era um ambiente frio e nada acolhedor. Claude Barras, ainda na direção, intervém em alguns momentos, deixando as cenas naturalmente melancólicas, focando nas expressões e efeitos criadas por si mesmo a seus personagens.

Mesmo sendo curto em seu tempo de tela, Minha Vida de Abobrinha é um filme com boas histórias a serem ainda desvendadas; afinal, alguns personagens do orfanato só aparecem com suas maneiras de se portar, mas não é explicado o porquê delas serem assim, desta forma o espectador é quem pode deduzir as tramas que poderiam ter acontecido a elas. Courgette, Camille, Raymond, Simon e as demais crianças do orfanato podem suspirar felizmente, pois é visível que aprendem a lição de que a união faz a força.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-MA-LA" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta Produções.