29
mar
2017
O isolamento e a busca por identidade em Personal Shopper!
Categorias: Especiais • Postado por: João Vitor Moreno

Que filme curioso é Personal Shopper… Não chega a ser uma obra-prima, nem tampouco irretocável, mas é surpreendentemente eficiente tanto em transitar entre gêneros quanto por provocar reflexões tão profundas e significativas.

O roteiro escrito pelo também diretor Olivier Assayas segue Maureen (Kristen Stewart), uma jovem americana que vive em Paris e trabalha como personal shopper – alguém que faz compras para celebridades, especialmente de roupas. Abalada pela repentina morte de seu irmão gêmeo, ela acredita que seu espírito está tentando entrar em contato com ela, já que ambos tinham a capacidade de se comunicar com os mortos.

O que o diretor Olivier Assayas faz aqui tem muitas semelhanças com o que havia feito há alguns anos no ótimo Acima das Nuvens (também com Kristen Stewart), onde lidava com questões de identidade, isolamento, luto, e também sugeria um toque de realismo fantástico que enriquecia a obra tematicamente.

E o que vemos aqui é um filme que lida com essas questões não de forma “pregatória” ou óbvia, mas sim como ponto de partida para evocar reflexões. E não chega a ser errado afirmar que é um filme que depende bastante do espectador e sua capacidade (e/ou disposição) de se “sintonizar” com a proposta do diretor e assim ter uma experiência mais rica e interessante.

Mas isso não anula a forma elegante como Assayas representa suas ideias: é interessantíssimo como, por exemplo, ele constantemente traz os personagens conversando entre si a distância (a protagonista só conversa com o namorado por Skype, em transmissões de baixa qualidade, ela quase sempre conversa com sua empregadora por celular, e por aí vai…), o que cria um senso de isolamento pessoal e justifica a necessidade da personagem de querer saber se existe algo além desta vida vazia.

Também é notável que seu emprego (que, aliás, dá título ao filme!) se baseie em algo tão impessoal como fazer compras, e, o que é pior, para outras pessoas. Igualmente interessante é o belo simbolismo envolvendo as roupas que ela compra e sua busca por identidade: ao provar, escondida, as roupas de sua patroa, a personagem se sente estimulada de alguma forma, como se estivesse na pele de outra pessoa, e por um momento soubesse exatamente quem ela é. E Kristen Stewart merece créditos pela intensidade e entrega total com a qual vive sua personagem, mesmo que não abra mão de alguns maneirismos já presentes em seus outros trabalhos, como ao sempre fazer pausas para respiração no meio das frases.

Mas o roteiro não é irretocável, há também imperfeições, algumas mais claras e outras quase inevitáveis. Não há sentido, por exemplo, em apresentar ocasionalmente um personagem sem importância alguma no início do filme e depois quase no final voltar com esse mesmo personagem desempenhando uma função importantíssima. Há também um longo diálogo entre a personagem principal e o namorado de sua ex-cunhada que verbaliza coisas que seriam mais interessantes se ficassem subentendidas, ficando um pouco expositivo demais. Além disso, há uma tentativa de forçar uma metalinguagem em uma conversa onde a protagonista diz que não gosta de filme de terror e explica porque, e que não funciona da forma como deveria e provavelmente só foi incluída para tentar dialogar com a metalinguagem eficiente presente no trabalho anterior do diretor, Acima das Nuvens. E se a insistência em retratar diálogos em forma de mensagem inevitavelmente fica um pouco repetitiva, o diretor pelo menos é hábil em manter essas conversas sempre avançando, e consegue até mesmo criar tensão a partir delas.

Aliás, todo o trabalho de direção de Olivier Assayas é competente, principalmente na forma como ele cria tensão nas cenas de horror, fazendo o filme funcionar em vários níveis. Reparem, por exemplo, como ele coloca Kristen Stewart em vários momentos em foco em primeiro plano com uma grande profundidade de campo atrás dela, mas tudo desfocado e difícil de enxergar, o que incita o espectador a procurar algo de errado e sobrenatural. E por falar em incitar, o diretor também brinca com as expectativas do público com clichês do gênero: como ao estender um pouco além do esperado alguns planos que sugerem um susto que nunca vem, ou então ao mostrar a protagonista olhando por um olho mágico, e ao cortar para o ponto de vista dela, automaticamente ficamos tensos esperando o inevitável susto, mas que também não surge. E com isso ele consegue criar uma atmosfera pesada e incômoda que faz com que o espectador saia da sala de cinema sentindo fisicamente o filme. E se por um lado a mania (que já havia me incomodado um pouco em Acima das Nuvens) de trazer diversos fade outs durante a narrativa a princípio não se justifique e até incomode, pelo menos ele pode criar uma interessante rima visual com o corte final da última cena, que ao invés da tradicional tela preta, usa uma tela branca – mas o motivo para isso eu deixo para você descobrir e interpretar quando vir o filme.



Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.