05
mar
2017
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “Teza”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Marcelo Silva

Teza

Haile Gerima, 2008
Roteiro: Haile Gerima
Etiópia
Negod-Gwad Productions, Pandora Filmproduktion, Unlimited e WDR

1.5

Aparentemente, o cinema produzido na África não tem nenhum tipo de receio em abordar o doloroso passado colonial e os vários problemas que afetam o continente. Dos sete filmes africanos que tivemos na nossa Volta ao Mundo até agora, apenas Mascarades (da Argélia) e Em Nome de Cristo (da Costa do Marfim) apresentam tramas mais escapistas, pouco preocupadas em trazer críticas sociais, retratar guerras civis ou situações de miséria.

Teza, longa representante da Etiópia na nossa viagem, não se encaixa nessa exceção: na verdade, o filme é utilizado pelo diretor, roteirista, produtor e montador Haile Gerima (ele acumulou todas essas funções) para mostrar o passado violento de um país politicamente dividido. A história acompanha o médico Anberber (Aaron Arefe), que, depois de passar um período morando na Alemanha, retorna para sua aldeia de origem. Uma vez lá, ele se vê totalmente perturbado pelo clima de guerra que atinge o seu país e as memórias do passado que dominam sua mente.

O primeiro equívoco de Teza está em seu protagonista. Considerando que o filme é um estudo de personagem (no qual acompanhamos o desenvolvimento de Anberber em mais de uma etapa de sua vida), Aaron Arefe não se mostra um ator à altura da responsabilidade exigida pelo papel. Sempre com a mesma expressão facial, Arefe é incapaz de criar qualquer espécie de vínculo com o público – fica dificil sensibilizar-se com a história e o sofrimento de Anberber.

Seria injusto, no entanto, jogar toda a culpa do fracasso do personagem em cima do ator: com muito material histórico, político, cultural e social da Etiópia para trabalhar, o roteiro acaba indeciso sobre qual rumo seguir. As contradições do discurso socialista em pleno período de Guerra Fria, o recrutamento compulsório de jovens para lutar em conflitos armados, o autoritarismo do governo marxista de Hailé Mariam (que comandou o país de 1977 a 1991), o racismo na Europa e o passado de luta contra os colonizadores são questões que surgem na narrativa sem nenhum tipo de profundidade. Tudo é mostrado de maneira bastante superficial em frases soltas e cenas confusas que acabam por prejudicar a própria construção da jornada do protagonista.

Convencido de que está realizando uma obra-prima, o diretor Haile Gerima utiliza alguns recursos com o objetivo de deixar explícita a aflição e a tormenta psicológica de Anberber. Na cena em que vemos o protagonista confinado em um quarto, por exemplo, há uma variação brusca na paleta de cores enquanto ele tem um de seus surtos. Em um instante de devaneio, o médico é quase soterrado por uma quantidade enorme de areia. Há ainda uma espécie de analogia feita entre duas situações distintas: após vermos gotas de sangue escorrendo do cadáver de um conhecido de Anberder, a cena seguinte traz o personagem sendo perturbado pelo barulho da queda dos pingos de água da torneira. A questão que fica é: por que apelar para bizarrices como essas (especialmente a da areia, que é risível) se já estava claro o nível de perturbação emocional do protagonista?

Porém, Teza não é constituído só de erros. As sequências que se passam na aldeia de Anberder são muito bem retratadas pelo diretor de fotografia, o italiano Mario Masini. A paisagem e o pôr-do-sol no local são de uma beleza ímpar. O figurino não está presente em cena somente para vestir os personagens – ele serve também para atestar o distanciamento de Anberder do resto do grupo. Assim que volta da Alemanha, o médico tem dificuldades em se reconectar às suas raízes. Além de não conseguir mais participar dos rituais religiosos, ele continua a usar as mesmas roupas (calça e camisa) que usava na Europa – em contraste com os trapos vestidos pelos seus companheiros. Por fim, a ambientação capricha na hora de representar a musicalidade e as danças típicas da Etiópia, que, mesmo em meio a conflitos, conserva as suas tradições alegres. É só uma pena que isso não seja suficiente para compensar todos os defeitos de Teza.

Na nossa próxima semana, é a vez de irmos para as Filipinas, representada na viagem por Norte, o Fim da História, do cineasta Lav Diaz. Acompanhe!



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!