26
mar
2017
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “Um Homem que Dorme”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Matheus Benjamin

Um Homem que Dorme (Un Homme Qui Dort)

Bernard Queysanne, 1974
Roteiro: Georges Perec
França
Dovidis & Satpec

4

O fluxo de consciência é um estilo literário muito difundido por escritores como Clarice Lispector e Virginia Woolf no século passado e deixado de herança a seus contemporâneos. Ele começou na França com Édouard Dujardin, em 1888 sendo chamado primeiramente de monólogo interior e ganhou força pelo mundo em romances como Mrs. Dalloway (Virginia Woolf) e A consciência de Zeno (Italo Svevo). Consiste em deixar os pensamentos de um narrador-personagem tomar conta da trama, com muitas digressões de assuntos que se lembra e que esteja pensando no momento de suas ações. É um recurso interessantíssimo que deixa o personagem mais íntimo de seu leitor e o faz mergulhar em sua psicologia. O termo foi cunhado pelo filósofo e psicólogo William James, em 1892.

Em Um Homem que Dorme, filme francês de nossa viagem a 80 países por meio do cinema, o espectador conhece um rapaz solitário e indiferente que vaga pelas ruas de Paris, realizando suas tarefas/ações sempre no automático, pois ele assume um estado de letargia (quando seu inconsciente o domina) e dessa forma sua mente divaga com diversos pensamentos, fazendo-o tomar um fluxo de consciência, um monólogo interior. Obviamente, o cinema não poderia deixar de investir nessa grandiosa e valorosa técnica narrativa. O roteiro é baseado no livro homônimo de Georges Perec e acompanha esse jovem por diversos lugares da cidade que também é uma grandiosa personagem da história, assumindo um caráter completamente opressor para o rapaz.

Bernard Queysanne aliado a seu roteiro compõe uma narrativa em segunda pessoa impessoal e introspectiva, narrada por um eu-interior que realiza junto de seu protagonista todos os passos necessários para a sua caminhada na capital francesa, mostrando-o muitas vezes em último plano, para entender que ele era apenas mais um no meio de uma multidão; um personagem que aos poucos perde o interesse pelas coisas mais simples da vida, como comer, tendo em vista que só come duas vezes por dia em um lugar específico e pede sempre o mesmo prato de fritas e um bife duro.

O preto e branco do longa se faz presente não só em seu tom constante, mas quando o design de produção opta por estourar a luz e deixar uma claridade visceral em determinadas cenas de eterna divagação, com tons amedrontantes. Queysanne, além de preferir filmar seu personagem de maneira mais distante, também parece ambienta-lo em perspectiva baixa em algumas passagens específicas mostrando cada vez mais a grandiosidade da cidade. A fotografia também filma esse protagonista de forma distante com plongeés (mergulhos de câmera, literalmente) trêmulos e por meio de grades, suportes e colunas para indicar que a perseguição visual da câmera se dava de forma secreta, escondida; até como se o personagem estivesse em um reality show.

Em seu quarto, esse personagem entra em seu refúgio. Depois de tanto vaguear e devanear com sua consciência, ele pode finalmente descansar da forma como deve, pode acender um cigarro e desocupar a mente, mesmo que ela insista em continuar seu monólogo interior incessante. Mais uma vez o diretor mostra que esse personagem não tem controle sobre nada, mesmo que possa querer buscar.

Os contemporâneos a Bernard Queysanne também se aventuraram por essa técnica narrativa. Atualmente, filmes como A Árvore da Vida e O Cavaleiro de Copas (de Terrence Malik, 2011 e 2015, respectivamente) e Upstream Color (de Shane Carruth, 2013) não mediram esforços para levar o estilo adiante, mesmo que eu considere alguns desses exemplos como fracos; para se fazer um bom fluxo de consciência a execução precisa ser bem feita, com um grande interesse ao espectador. Um Homem que Dorme não se alonga em sua divagação e, portanto, é um filme que se faz importante, interessante e preciso, pois não se contenta com a verborragia barata que alguns outros longas acabam passando.

Esse filme francês é bastante opressor em sua psicologia. O personagem não é só oprimido pela capital parisiense e seus monumentos amplamente citados por sua própria consciência (e ilustrado de forma bastante competente pela linguagem visual) mas também sofre opressão de sua própria mente. Sendo assim, é um filme bastante curioso a ser analisado pelos diversos campos de estudos científicos e mostra como o cinema é importante nessa caminhada, afinal de contas, pode ser que exista muitos “protagonistas” vivendo suas vidas dessa forma. O cinema é um grandioso retrato; a vida imita a arte ou a arte imita a vida?

Na semana que vem, não percam a nossa passagem pela Geórgia com o longa A Outra Margem!



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-MA-LA" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta Produções.