03
abr
2017
Crítica: “A Bela e a Fera”
Categorias: Críticas • Postado por: Raphael Cancellier

A Bela e a Fera (Beauty and the Beast)

Bill Condon, 2017
Roteiro: Stephen Chboski,
Evan Spiliotopoulos
Walt Disney Studios

4

Depois de muita expectativa e ansiedade chegou às telonas o remake de um dos maiores clássicos da Disney, A Bela e a Fera. Junto com esses sentimentos, o tempo que antecedeu sua estreia também foi de bastante receio, por conta das outras produções realizadas pelo estúdio que foram baseadas em seus clássicos, como no caso de Malévola e Cinderela, as quais podemos dizer que não se tratam de remakes, e sim de releituras. Mas com A Bela e a Fera foi diferente.

Apesar de algumas modificações nas canções que já povoam o nosso imaginário, é impressionante como algumas cenas são quase idênticas às originais. Outro fato que chamou bastante atenção é o de que a obra conseguiu se manter fiel à animação de 1991, ao musical da Broadway e à história original.

No caso de A Bela e a Fera, diferente das outras produções mencionadas anteriormente, tudo o que foi adicionado à história fez com que o longa ficasse mais encorpado, como as canções que não existem na primeira versão. Algumas músicas foram importantes para mostrar a transição dos personagens, como no solo de Fera, quando Belle parte atrás de seu pai.

A produção também acertou em cheio ao mostrar o passado de Belle e a trama de sua mãe, a relação de Fera com a família e a roupagem vilanesca que Gaston ganhou. Se na animação houve brecha para pensarmos “Gaston fez tudo o que fez porque amava Belle”, no live-action não existe essa dúvida.

Enquanto a obra avança e desenvolve as personalidades de Fera e Gaston, conseguimos ter a certeza de quem é o verdadeiro monstro, e podemos concordar com a expressão de Belle no ante-clímax: “Ele não é um monstro, Gaston. Você é!”. A propósito, por mais que no filme atual existam algumas falas diferentes da animação, ele foi muito eficiente ao deixar os trechos cruciais e que ainda estão marcados na nossa memória.

Ao ver o trailer, fiquei um pouco insatisfeito quanto aos objetos mágicos do castelo, já que eles são a graça e o alívio cômico do original. Eles pareciam não ter vida nas cenas que foram divulgadas antes de aparecerem nas telonas. No entanto, a forma como eles foram inseridos no live-action foi sutil, fazendo com que eles parecessem reais. O design de todas as peças e suas movimentações em cena trouxeram veracidade, mas ao mesmo tempo conseguimos enxergar a vida que cada um deles tinha.

Também fiquei bastante receoso com algumas cenas clássicas, como a do jantar e a luta entre os objetos e os moradores do vilarejo. No entanto, a cena de Be our guest foi um espetáculo visual e não deveu nada à original, assim como a da batalha.

Le Fou foi um personagem que me intrigou. Divulgado pela mídia como o homossexual do filme, não fez mais do que caras e bocas, parecendo apenas mais um estereótipo sem profundidade. No entanto, o personagem cativou por conta da sua sagacidade e seu humor negro. E o que mais me tocou em relação a ele, a ponto de reservar um parágrafo somente para falar dele, é a sua relação com Gaston. O roteiro criou um arco narrativo interessante para esse personagem durante as viradas do antagonista, mostrando o momento de admiração e fixação, de surpresa ao perceber do que o seu amigo era capaz, a decepção ao invadir o castelo a mando do amigo e o abandono por parte do vilão. Le Fou na verdade possui um arco bastante dramático e triste em A Bela e a Fera. No entanto, a última cena do personagem marca a sua redenção e a sua mudança de comportamento.

Apesar de ter achado a obra excelente, alguns pontos também precisam ser repensados. A Bela e a Fera é uma superprodução. Porém, com o orçamento que o estúdio investiu nesta produção, o design de Fera ficou aquém do esperado. Algumas cenas em que ele aparecia com o corpo à mostra, como no momento em que Belle cuidava dele, parecia que o animal estava usando uma fantasia de pelos. Alguns erros de edição também ficaram bastante visíveis, com uma continuidade falha em diversos momentos.

A Bela e a Fera é um filme que emociona, se mantém fiel ao universo criado pela animação, ao mesmo tempo em que o enriquece e agrega elementos originais. Ao invés de mudar na curva e dar um nó como as produções citadas anteriormente fazem, este dá um tiro certeiro e não foge do caminho traçado.



Futuro roteirista de TV e cinema, assisto de tudo, sem preconceitos, e procuro prestar atenção na forma como a história é contada. Sou apaixonado pelo cinema brasileiro contemporâneo, mas também sou Disneymaníaco. Meus diretores preferidos são Almodóvar, Gabriel Mascaro, Tarantino, Aïnouz, Von Trier e Sofia Copolla.