03
abr
2017
Crítica: “A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell”
Categorias: Críticas • Postado por: Paulo Vitor Betiati

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (Ghost in the Shell)

Rupert Sanders, 2017
Roteiro: Jamie Moss, William Wheeler e Ehren Kruger
Paramount Pictures

3

A Vigilante do Amanhã possui a atmosfera ideal de um filme de ficção científica cyberpunk, que lembra até mesmo o clássico Blade Runner, mas é prejudicado por seu roteiro pouco inovador e que deixa de lado as reflexões criadas na obra original.

Adaptado de um mangá, Ghost in the Shell é uma animação de 1995 que deu origem também a algumas séries, hoje o universo de Ghost in the Shell é considerado um marco na ficção científica. No centro desse universo há Motoko Kusanagi, chamada de Major por sua equipe, uma humana que teve o cérebro transportado para um corpo cibernético e que é usada como arma no combate ao ciberterrorismo. Neste live-action, a personagem, interpretada por Scarlett Johansson, não conhece seu nome verdadeiro e é apresentada ao espectador como Major Mira Killian, ela não tem lembranças de seu passado e apenas na segunda metade do longa torna-se claro a importância que este terá para a trama.

O que inicia como uma busca da Major a um hacker que ameaça a Hanka, corporação responsável pelos experimentos que a originaram, logo se torna uma busca à sua própria identidade. Ela é acompanhada por Batou (Pilou Asbaek) e na maior parte do tempo segue as ordens de Aramaki (Takeshi Kitano) que infelizmente aparece poucas vezes no filme, na verdade, os atores coadjuvantes possuem pouco espaço, até mesmo a cientista (Juliette Binoche) com quem Major tem diálogos importantes. No início, o hacker Kuse (Michael Pitt) é deixado nas sombras, quando finalmente é revelado mais sobre o personagem percebe-se que este poderia ser tão interessante quanto a protagonista, mas o roteiro não ajuda e o personagem é pouco desenvolvido.

Durante essa caçada, a agente passa a questionar seus “criadores” – como de costume na ficção científica – e também sua natureza, porém, não de forma tão profunda quanto no anime. Em um momento é dito à Major que ela é “o que um dia todos serão”, e é uma pena que ao invés de discutir o que ela representa naquela sociedade, o filme se limita a mostrar apenas sua história. Além disso, os monólogos da protagonista são dispensáveis, ao contrário do anime que trazia longas reflexões da personagem sobre sua existência e a dualidade entre humano e máquina, aqui os diálogos e reflexões são superficiais diante da infinidade de questionamentos que poderiam ser levantados.

Embora a trama seja diferente, vemos que a obra de 1995 é tomada como referência principal, sendo que muitas das cenas são copiadas com cenários e enquadramentos idênticos – como a cena icônica na qual a Major salta do alto de um prédio, os créditos iniciais, a luta na água e também a do tanque no final. Esse esforço do diretor, Rupert Sanders, em tornar o filme uma versão do anime não é ruim, pelo contrário, como o filme é visualmente belo e o diretor acerta na ambientação, esses momentos tornam-se deslumbrantes, principalmente para os fãs.

Entretanto, é importante evitar as comparações com a obra original – que é muito melhor – e analisar o filme por si só, Afinal, apesar das falhas no roteiro, A Vigilante do Amanhã é muito bom ao retratar de maneira justa o universo cyberpunk – um futuro distópico no qual implantes cibernéticos são comuns e a tecnologia aproximou a humanidade das máquinas e do ciberespaço. Aspectos técnicos como efeitos visuais, fotografia e direção de arte são impecáveis. As sequências de ação também não deixam a desejar e funcionam muito bem no ritmo criado pelos dois primeiros atos, ritmo que não consegue ser mantido porque o terceiro ato é decepcionante, além dos personagens mal desenvolvidos, o desfecho é de certa forma previsível e não permite que o filme alcance um prestígio maior.

Quanto à escolha polêmica de colocar Scarlett Johansson em um papel que supostamente deveria pertencer a uma japonesa, é algo justificado pelo roteiro do filme, já que a personagem é uma ciborgue sem nacionalidade definida e o filme constrói a história de seu passado.

O que os fãs de Ghost in the Shell podem esperar é uma nova versão visualmente incrível, mas que acrescenta pouco à original. Já aqueles que não conhecem esse universo podem esperar um filme de ficção científica razoável e com boas sequências de ação.



Sou fascinado por cinema desde que vi uma exibição de "Taxi Driver" sem ter ideia do que o filme tratava, ou seja, a curiosidade me move. Logo depois descobri filmes do Kubrick que até hoje são meus favoritos, e mais tarde, Ingmar Bergman. Um dia pretendo cursar Cinema e Filosofia, enquanto não chego lá, tento ocupar o tempo livre com tanta coisa que comecei a escrever sobre cinema.