30
abr
2017
Crítica: “Corra!”
Categorias: Críticas • Postado por: Marcelo Silva

Corra! (Get Out)

Jordan Peele, 2017
Roteiro: Jordan Peele
Universal Pictures

4

Engana-se quem pensa que filmes de terror são feitos só para dar sustos ou causar medo no espectador. Muitos deles são carregados de simbolismos, mensagens e contextos políticos. Só para citar dois exemplos recentes: depressão, luto e conflitos psicológicos são o tema central de The Babadook; ao passo que Sob a Sombra retrata a paranoia da guerra entre Irã e Iraque e a dura realidade das mulheres em países regidos por leis islâmicas. Eis que, em seu primeiro trabalho como diretor, Jordan Peele apresenta Corra!, um longa que tem muito a dizer sobre o racismo e os desafios de ser negro em um país que agora tem Donald Trump como presidente.

Na história, Chris (Daniel Kaluuya) é um fotógrafo negro que viaja com a namorada Rose (Allison Williams) para conhecer a família dela em uma cidade do interior. Quando percebe que todas as pessoas no local agem de modo estranho, ele passa a desconfiar de que foi levado para lá por algum outro motivo e de que sua vida está em risco.

É partindo dessa ideia de um simples fim de semana na presença dos sogros que Peele constrói sua história com uma dose crescente de tensão, em que acompanhamos pela perspectiva do personagem todo o desenrolar do mistério. Desconfiamos, junto com ele, de cada sorriso, gesto ou palavra vindos das pessoas daquele estranho lugar. Como todo bom roteirista, Peele mostra que sabe distribuir as pistas e o timing das revelações, permitindo que o espectador forme sua própria teoria sobre o segredo e as intenções da família de Rose – ele também evita jump-scares ou soluções fáceis.

O britânico Daniel Kaluuya, que já tinha aparecido em obras como Sicario: Terra de NinguémKick-Ass 2, é bem-sucedido na tarefa de transmitir o desespero e o medo que dominam o protagonista. A cena da hipnose, em que o vemos sofrendo ao relembrar a morte da mãe, é um dos pontos altos do ator no filme. Mas o grande destaque fica por conta mesmo de Allisson Williams, cuja personagem – spoilers a seguir; pule para o próximo parágrafo se ainda não viu o filme – assume o papel inesperado de figura central na armadilha armada para Chris. A atriz consegue, em questão de instantes, se desligar de toda a aura de inocência para transformar Rose em uma antagonista fria e manipuladora.

Os atores Betty Gabriel, Marcus Henderson e Lakeith Stanfield partem de trejeitos quase robóticos para mostrar que há algo de errado com Georgina, Walter e Andrew, os únicos negros que Chris encontra na visita à casa dos sogros. Quem demora um pouco a convencer é LilRel Howery, que dá vida ao melhor amigo do protagonista e atua como o alívio cômico da trama. Suas piadas nem sempre funcionam e, até a metade do filme, fica difícil acreditar que sua presença era mesmo necessária. Essa sensação vai embora quando percebemos que ele parece perto de uma resposta para explicar os estranhos eventos na residência da família de Rose e interfere nos eventos da narrativa.

A capacidade de traçar paralelos com os estereótipos racistas e a escravidão é algo que não falta para Peele. O protagonista Chris é um homem ciente das dificuldades enfrentadas pelas pessoas da sua cor de pele – tampouco ele consegue disfarçar a maneira como se sente deslocado em meio a tantos indivíduos brancos que direcionam perguntas preconceituosas e vulgares sobre a sua etnia e o seu físico. O personagem ouve de tudo: desde que habilidades em luta estão no seu código genético até dúvidas sobre o que um afro-americano teria de diferente quando o assunto é sexo. Além disso, o “jogo do bingo” é a reprodução fiel de um leilão de escravos do século 19, ocasião em que os números falam muito mais alto do que o valor de qualquer vida humana ali presente.

Na parte técnica, a fotografia é muito bem utilizada, principalmente na impactante cena de hipnose de Chris, em que ele vai aos poucos perdendo o controle da sua consciência e caindo no abismo escuro e profundo. Apesar de não ser memorável (dificilmente o espectador vai lembrar ou recorrer ao Youtube para escutar novamente), a trilha sonora é fruto do trabalho cuidadoso de Michael Abels, que atendeu ao pedido de Peele para criar uma “música essencialmente negra, mas diferente do otimismo e da esperança presentes nas letras e nos sons das canções afro-americanas”. A primeira faixa, inclusive, é intitulada Sikiliza Kwa Wahenga – que, no idioma suaíli, significa “Escute os Seus Ancestrais” -, e contém em sua letra a mensagem “Algo ruim vai acontecer. Corra”. De acordo com o diretor, essas palavras já representariam um aviso direto a Chris.

Orçado em cinco milhões de dólares, Corra! já arrecadou ao redor do mundo quase 190 milhões, cifra que elevou Peele ao posto de primeiro diretor negro a fazer mais de 100 milhões em seu filme de estreia. Vários degraus acima de qualquer Invocação do Mal ou Annabelle, o longa é uma obra revelante e criativa – e o sucesso de público e crítica dificilmente não levará a uma continuação, por mais que o desfecho não deixe pontas soltas.



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!