07
abr
2017
De Chaplin a “Rei Leão”, selecionamos cinco grandes cenas do cinema!
Categorias: Listas Radioativas • Postado por: Marcelo Silva

Sabe aquelas cenas que, por mais que você tenha visto o filme há um bom tempo, nunca saem da sua cabeça?

Pensando nelas, fizemos uma seleção com de grandiosas cenas do cinema, feita especialmente para relembrar aquele diálogo que nos levou às lágrimas, aquela morte que nos deixou com raiva, aquele beijo que nos arrancou um sorriso, aquele final que nos fez acreditar em um mundo melhor; feita, enfim, para relembrar toda vez em que percebemos que a vida sem a sétima arte não seria a mesma.

Para começar, nada melhor do que lembrar a obra de um gênio. O Grande Ditador, filme de 1940 em que Charlie Chaplin faz uma divertida paródia de Adolf Hitler, traz em sua sequência final um dos melhores discursos que o cinema poderia nos dar. Apesar de o longa ser de uma época assombrada pela Segunda Guerra Mundial,  a mensagem permanece mais do que necessária nos tempos bicudos em que vivemos, em que o ódio e a intolerância parecem falar mais alto do que o diálogo e o entendimento.  Considerando que Chaplin demorou dois meses só para escrever o discurso de cinco minutos do seu personagem (o texto, inclusive, arrancou elogios de George Orwell, autor dos clássicos A Revolução dos Bichos e 1984), nada melhor do que deixar o momento falar por si mesmo. Assista:

O próximo é um já clássico do cinema brasileiro: Central do Brasil, filme dirigido por Walter Salles e lançado em 1998. Na história, Fernanda Montenegro vive Dora, uma professora aposentada que trabalha na estação Central do Brasil escrevendo cartas para pessoas analfabetas. No entanto, ela nunca as envia para os destinatários, fazendo isso só pelo dinheiro. Uma das suas clientes é Ana (Sôia Lira), que pede a ela para que escreva uma carta para o pai do seu filho, Josué (o excelente Vinícius de Oliveira), de apenas nove anos. Na saída da estação, a mulher é atropelada e o garoto fica órfão.

Mesmo a contragosto, Dora toma conta de Josué e o leva para conhecer o pai no sertão nordestino. Essa viagem pelo interior do Brasil acaba conectando duas pessoas tão distintas e se transformando em uma jornada de descoberta existencial – com direito até mesmo a uma paixão perdida pela estrada.

Os prêmios conquistados no mundo inteiro não mentem sobre a qualidade de Central do Brasil: a obra ganhou o Globo de Ouro e o BAFTA de Melhor Filme Estrangeiro, o Leão de Ouro no Festival de Berlim e ainda foi indicado a dois Oscars (na categoria de Atriz e Filme Estrangeiro).

Com uma direção bastante segura de Walter Salles, o drama no melhor estilo road movie apresenta uma sensibilidade poucas vezes vista antes na telona. E a cena escolhida para a coluna é justamente aquela que dificilmente vai sair da memória do espectador: o momento em que Dora e Josué se separam.

A voz sempre marcante de Fernanda Montenegro se soma à belíssima trilha sonora de Antonio Pinto e Jaques Morelenbaum na última cena. Dora, uma pessoa carrancuda e impaciente que, pouco a pouco, foi criando um laço afetivo com Josué – uma relação quase maternal, eu diria. Salles alterna o momento em que a ouvimos ler a carta com a cena do garoto à sua procura. “No dia que você quiser lembrar de mim, dá uma olhada no retratinho que a gente tirou junto”, diz um trecho. Em seguida, vemos Dora e Josué, quase que simultaneamente, olharem a foto. Fica difícil não se emocionar.

O Rei Leão é um dos filmes obrigatórios do cinema. É difícil encontrar alguém que não tenha assistido pelo menos uma única vez – e quem nunca viu costuma ser alvo de piada. Junto com Mogli, Procurando Nemo, Monstros S.A. e Os IncríveisO Rei Leão foi uma das animações que moldaram a minha infância. E ela não poderia deixar de aparecer na Grandes Cenas do Cinema, coluna que eu, agora adulto, dedico aos trechos e momentos que mais me marcaram, independente se o filme é um clássico em preto e branco, uma animação da Disney ou um blockbuster recém-lançado.

Como é impossível separar apenas uma cena de O Rei Leão, é bem provável que ele vai voltar a aparecer por aqui mais vezes. Mas hoje o destaque fica por conta de Se Preparem, canção em que Scar arquiteta com as hienas o golpe contra Mufasa. Trata-se de um momento carregado de simbolismos, em que tudo lembra um governo autoritário, desde o discurso do vilão até a disposição das tropas que marcham (uma alusão clara ao exército fascista de Mussolini). Há ainda quem enxergue a suástica sendo formada pelas hienas, além do símbolo do comunismo no momento em que Scar canta com a Lua ao fundo.


Por isso eu disputo
E por isso eu luto
O trono terá que ser meu!
Que os amigos não me desamparem
Se preparem!

(Que os amigos não me desamparem)
Se preparem!

Normalmente, evito filmes dublados, mas, como vejo O Rei Leão em português desde que era criança, as vozes originais me parecem menos espontâneas do que as do dubladores. E aí temos que reconhecer o trabalho do já falecido Jorgeh Ramos, que conseguiu trazer, em sua voz, toda a maldade de Scar. Quando nos damos conta, estamos cantando junto com ele e as hienas!

O próxima da nossa lista, é uma verdadeira pérola nacional: Lavoura Arcaica (2001), longa baseado na genial obra de Raduan Nassar. A história é narrada em primeira pessoa por André (Selton Mello, em uma das melhores interpretações já vistas na sétima arte), que foge de casa em busca de vida nova na cidade. Quando é encontrado por seu irmão Pedro (Leonardo Medeiros), ele revela as razões por trás da fuga: entre elas, o caso de amor com a sua própria irmã Ana (Simone Spoladore) e o autoritarismo do pai (Raul Cortez).

O principal mérito do diretor e roteirista Luiz Fernando Carvalho foi manter-se extremamente fiel ao romance de Nassar – que, para muitos, seria considerado “inadaptável” por sua linguagem. Assim, a grande cena de hoje é a reprodução precisa do que é mostrado no livro: a narração de André, a dança provocativa da sua amada, a reação de choque dos convidados da festa e, por fim, o assassinato.


 Tudo isso é mostrado pela estilo inquieto de direção de Luiz Fernando Carvalho, pela entonação perfeita de Selton Mello, pela entrega de Simone Spoladore ao papel (sua personagem, aliás, não tem uma única fala no filme) e pela trilha memorável de Marco Antônio Guimarães. A cena ideal para o desfecho de um filme com potencial de gerar boas discussões sobre patriarcalismo, machismo, repressão, família, união e incesto.

Para finalizar, precisamos saber que há pelo menos umas cinco cenas em Taxi Driver (Martin Scorsese, 1976) que podem ser colocadas entre os melhores momentos da rica carreira de Scorsese: não há como esquecer o “Are you talking to me?” (momento improvisado por Robert De Niro, diga-se de passagem), tanto referenciado em outros filmes, ou então a cena em que o protagonista no meio de uma discussão abruptamente faz uma pose de karatê, ou toda a sequência clímax, marcada pela violência escatológica…

Mas a escolhida de hoje será uma cena um pouco menos lembrada, mas que comprova a genialidade de seu diretor e também seu talento para sutilezas (qualidade que nem sempre é lembrada como uma de suas marcas): aquela que traz Travis (Robert De Niro) tentando, em vão, reestabelecer contato com seu interesse romântico (Cybill Shepherd), após ela ter se afastado quando ele a levou para um cinema pornô no primeiro encontro.

A primeira coisa que dá para perceber nesta grande cena é a ironia sutil e melancólica envolvendo os aparelhos telefônicos: reparem como tem três telefones na parede, dois deles conectados com cabos e um (justamente o que Travis está usando) sem cabos algum – o que de forma delicada comenta como aquela tentativa de “reconexão” está fadada ao fracasso e mostra como ele está completamente desconectado e sozinho (o que comenta não só a situação da cena como toda a situação psicológica do personagem ao longo do filme).

Mas o que mais me chama a atenção na cena e que, para mim, demonstra o controle total de Scorsese sobre o filme é o movimento de câmera que ele usa: antes mesmo de Travis ter desligado o telefone, a câmera se move lentamente, o deixando fora do quadro e nos mostrando a porta. Isso serve a dois propósitos: primeiro, é uma forma humana de “privar” o personagem da visão do espectador em um momento de embaraço, é como se desviássemos o olhar para não presenciar a vergonha dele; e segundo, é uma forma simples, mas inteligente, de antecipar o fim inevitável da conversa, mostrando que aquela tentativa de socialização não tem como dar certo, e o único caminho que o personagem pode seguir é sair pela porta, de volta às ruas.

É um momento intimista e humano de um diretor sempre associado à violência e energia pulsante. E são pequenos momentos como esse que nos fazem perceber que estamos diante de um grande cineasta.



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!