16
abr
2017
Grandes Cenas do Cinema #5: “Sindicato de Ladrões”
Categorias: Grandes Cenas do Cinema • Postado por: João Vitor Moreno

É sempre difícil escolher apenas uma cena de um filme quando se trata de um clássico. E como para esta 5ª edição da nossa coluna Grandes Cenas do Cinema o filme escolhido é Sindicato de Ladrões, talvez o melhor filme do excelente diretor Elia Kazan, a tarefa se torna ainda mais difícil. Há, claro, a famosa cena em que Marlon Brando expõe todo sua dor e arrependimento para o irmão (com a famosa fala “I coulda been a contender!”), há aquela que o traz distraidamente brincando com uma luva e que ilustra de maneira simples e direta suas inovações como ator, mas a escolhida de hoje será uma menos lembrada, mas que traz em si muitas das qualidades do filme e prova como a genialidade de um grande diretor pode ser encontrada até mesmo em “pequenos” momentos.

A cena é aquela que traz Terry (Brando) confessando sua responsabilidade no assassinato de um jovem pela máfia local para um padre, e logo em seguida indo confessar também para a irmã do falecido, por quem ele está apaixonado.

No diálogo com o padre, temos uma frase que resume bem toda a temática do filme: “Consciência… essa coisa pode te deixar louco”. Afinal, o filme é sobre alguém atormentado pela consciência por ter feito coisas erradas e querer fazer o certo.

Além disso, podemos notar uma interessante rima visual na cena: as grades pontudas que cercam os personagens são praticamente idênticas às grades que cercavam o apartamento do jovem que Terry foi cúmplice do assassinato – como que o lembrando de seu erro.

Mas o que realmente me fascina em toda a cena e que comprova a genialidade de Kazan é quando o personagem segue o conselho do padre e vai confessar sua culpa para sua amada. Ao invés de trazer um diálogo expositivo, onde o personagem explicaria tudo o que já sabemos (que ele não tinha a intenção, que ele se arrepende, etc.), apenas o vemos mexendo a boca e só conseguimos distinguir uma ou outra palavra, pois sua fala é encoberta por um som forte de navio que passava por perto. E esse ensurdecedor ruído, somado à expressão de choque da outra personagem, evita um momento de diálogo expositivo e – o que é ainda mais brilhante – acaba por acentuar o terror experimentado pela personagem ao saber que o homem que ela ama foi responsável pela morte de seu irmão – o que para ela é tão incômodo quanto o ruído do navio.

É uma grande cena, que atesta o poder de um bom diálogo, de uma boa imagem, mas nos lembra também que muitas coisas não precisam ser ditas em palavras.


 

Aproveite para ler também:

Pipoca Clássicos: Sindicato de Ladrões

Pipoca Clássicos: Doutor Fantástico

Grandes Cenas do Cinema #4: O Rei Leão

Grandes Cenas do Cinema #3: Central do Brasil



Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.