22
abr
2017
“La Fan”, A Novela que Parece Série!
Categorias: Críticas, Séries de TV • Postado por: Andressa Gomes

La Fan

Carmen Cecilia Urbaneja, 2017
Roteiro: Marcela Citterio
120 episódios (42 min.)
Telemundo

4

Em janeiro deste ano, a Telemundo estreou um dos projetos mais originais e inovadores que já assisti em termos de novela. Trata-se de La Fan, novela escrita pela autora argentina Marcela Citterio (Patito Feo) e baseada em uma ideia original de sua protagonista, a atriz Angélica Vale (A Feia Mais Bela).

A história gira em torno de Valentina Perez (Angélica Vale), jovem alegre e trabalhadora, fanática pelas telenovelas e presidente do fã clube do galã Lucas Duarte (Juan Pablo Espinoza). Por causa de diversas circunstâncias, suas vidas acabam se cruzando, e ela se torna assistente pessoal de seu ídolo, conhecendo sua verdadeira face, assim como os bastidores da televisão e das novelas que sempre admirou.

E o que há de tão diferente nessa obra? Primeiramente, não se trata simplesmente de uma comédia romântica, mas vai muito além disso, a começar pelo ritmo. Os protagonistas já se conhecem no primeiro minuto do primeiro capítulo. Analisando estruturalmente, o roteiro lembra muito mais uma sitcom do que uma novela convencional, ainda que exista um arco dramático de duração maior (que diz respeito a uma personagem pertencente ao passado de ambos). Em sua maioria, os conflitos têm início e resolução no mesmo capitulo ou em dois, no máximo.

As situações inusitadas, o tom dos personagens e o timing cômico (com uma quantidade mínima de piadas a cada cena e capítulo) são características normalmente vistas em sitcoms com episódios de 20 min, não telenovelas com capítulos de 40 min de duração. Mesmo os momentos mais tristes e emocionantes são executados de forma similar, sem grande estardalhaço melodramático, mas de forma sutil e breve, ainda que tocante.

Outro ponto forte é o tom satírico, com elementos de farsa. Trata-se de uma meta-telenovela, que não tem qualquer pretensão de se levar a sério, e o tempo todo debocha e satiriza as convenções narrativas e clichês típicos do gênero, enquanto os reproduz ou subverte (há até quebra da quarta parede em alguns momentos). Em resumo, é uma novela que ri de si mesma, do gênero e da indústria de telenovelas e tudo aquilo que a compõe (os protagonistas, os empresários, os egos, a equipe, o diretor, o jornalista fofoqueiro, os fãs, etc.) de forma saudável e inteligente. Como toda paródia, é também uma homenagem a esse universo.

O elenco está divertidíssimo – normalmente nas novelas, as protagonistas acabam sendo boazinhas e sonsas demais, e a comédia fica nas mãos do chamado “núcleo cômico”, mas em La Fan, todos são o “núcleo cômico”. Valentina não poderia ser mais carismática e divertida. Inclusive, faltam nas novelas brasileiras mais atrizes com o talento cômico de Angélica Vale, que está brilhante.

Para quem curte séries como 30 Rock e Jane the Virgin, que abusam da autoironia, La Fan é uma boa opção. Com um total de 120 capítulos (divididos em 2 temporadas, e sem barriga), personagens consistentes, uma premissa forte, bem dirigida e produzida, trata-se de uma novela de alto nível. Qualquer um que tenha um repertório mínimo como espectador telenoveleiro, e que seja ou já tenha sido fã de algum artista, irá se divertir com essa história, e se identificar com a protagonista.

Em tempos de Netflix e tantos serviços de conteúdo on demand, já passou da hora da televisão aberta se adequar e se reinventar, principalmente no que diz respeito a dramaturgia. Telenovelas de vanguarda como essa, ainda que representem um risco para qualquer emissora, são necessárias para a renovação do gênero. Esperemos que as emissoras brasileiras sigam o exemplo da Telemundo em termos de ousadia e criatividade.

Até o momento, não existe previsão de transmissão no Brasil, apesar de a produção estar em outros países pelo canal a cabo Telemundo Internacional. Nos EUA, está em hiatos e dividida em duas temporada. Não é preciso muito esforço para perceber que a novela é a cara do que SBT costuma exibir – se forem realmente espertos, darão o horário nobre que uma obra como essa merece. Quem sabe, repitam o êxito que um dia já tiveram exibindo tramas importadas nesse horário.



Não lembro de uma época em que os filmes ou a TV não fossem parte da minha vida. Considero o Cinema mais do que entretenimento, uma das mais completas formas de arte e de registro da humanidade. Estudante de Cinema e Audiovisual. Dentre os diretores/roteiristas favoritos estão: François Ozon, Lars Von Trier, Michael Haneke, Satoshi Kon e Vincent Minneli. Sem vergonha de gostar de consumir/discutir cultura pop, viciada em "The Big Bang Theory", alguns reality shows (Master Chef, The Bachelor) e séries coreanas.