08
abr
2017
Pipoca Clássicos: “Pacto de Sangue”
Categorias: Críticas, Pipoca Clássicos • Postado por: João Vitor Moreno

Uma das coisas mais interessantes que a Segunda Guerra mundial proporcionou para o Cinema foi a imigração para os Estados Unidos de vários artistas talentosos europeus, que ao invés de se limitarem a reproduzir o padrão ufanista habitual dos filmes americanos, passaram a abordar assuntos mais delicados e ousados, apresentando visões mais ricas e interessantes em filmes de grande orçamento e maior alcance.

Dentre eles, o melhor talvez seja o austríaco Billy Wilder. Dono de uma carreira invejável tanto pelo número de obras-primas quanto pela diversidade entre elas (que vai de dramas pesadíssimos como Inferno nº 17, até comédias divertidas como Quanto Mais Quente Melhor, passando por doces romances como Sabrina e também, é claro, o eletrizante gênero Noir), o diretor surpreendia também pela coragem de abordar temas delicados, e que provavelmente seriam evitados por um diretor americano comum. Em Farrapo Humano, por exemplo, temos um retrato cruel e nada delicado do vício em bebidas alcóolicas, já em A Montanha dos Sete Abutres vemos um jornalista que põe a vida de um homem abaixo de sua ambição, já em Crepúsculo dos Deuses conhecemos um submundo dentro da tão sonhada Hollywood. E aqui em Pacto de Sangue, um de seus primeiros trabalhos, já vemos muito do que viria marcar sua impressionante carreira, já que é filme fascinante, e que ajudou a definir o gênero Noir quando este ainda dava seus primeiros passos (o primeiro sucesso do gênero foi Relíquia Macabra, de 1941, feito apenas três anos antes), além de já trazer traços de sua visão crítica (ou pelo menos consciente) do “American Dream”.

A história é bem mais simples do que outros clássicos Noir (especialmente se compararmos com Relíquia Macabra ou À Beira do Abismo): um vendedor de seguros (Fred MacMurray) é convencido por uma manipuladora mulher (Barbara Stanwyck) a matar seu marido de modo a parecer acidente para que ambos possam desfrutar de seu seguro de vida, que em caso de acidentes garante ao beneficiário uma indenização dobrada (O “Double Indemnity” do título original).

Já de cara podemos identificar o protagonista como sendo um típico anti-herói, e sua parceira como a emblemática femme fatale, além disso, logo no primeiro plano do filme já vemos a sombra de uma figura caminhando em direção à câmera em meio a um denso nevoeiro: é o suficiente para que qualquer fã do gênero Noir já se sinta em casa.

Mas mais do que um filme que define perfeitamente seu gênero, trazendo todas as suas principais características, Pacto de Sangue envolve pelo cuidado com que Billy Wilder conta sua história.

Se por um lado não deixa de ser um pouco expositivo demais optar por uma estrutura que traz o protagonista ditando uma confissão em um gravador, ao menos o roteiro (adaptado de um livro pelo próprio Billy Wilder em parceria com Raymond Chandler, autor de livros que viraram clássicos no cinema como À Beira do Abismo e O Último Adeus) tira vantagem disso e consegue não só criar um clima de tragédia ao longo de toda a projeção (afinal, já nos primeiros minutos ouvimos o protagonista dizer que não conseguiu nem o dinheiro nem a mulher), como também nos permite saber mais detalhes da trama e – o que é mais importante – sobre os sentimentos e conflitos internos do personagem principal.

E é interessante notar como o filme em diversos momentos já traz o toque irônico e crítico da visão que Billy Wilder tem dos Estados Unidos: não é à toa que o emprego do protagonista seja em uma agência de seguros, e o crime que ele comete tenta burlar o sistema em prol de um benefício material. Também é notável como a primeira ação da agência de seguros após o acidente é lamentar não pela morte do cliente, mas sim pela quantia de dinheiro que terá que abrir mão para a indenização.

Outra coisa admirável no filme é sua capacidade em criar tensão: reparem como logo na primeira vez em que vemos o personagem Keys (o chefe da agencia de seguros, interpretado por Edward G. Robinson) ele está justamente desvendando de maneira perspicaz uma fraude de um de seus clientes, o que posteriormente já deixa o espectador automaticamente tenso quando ele começa a investigar o assassinato, já que sabemos de sua capacidade. Outra cena de excelente suspense é quando o protagonista recebe uma visita inesperada desse seu chefe enquanto espera sua amante – se ela chegar enquanto ele ainda está no apartamento ficará clara a cumplicidade dos dois, e no fim da cena temos uma imagem que só pelo conceito estético já seria interessante, e que somada com toda a tensão que vinha dos minutos anteriores, se torna um daqueles momentos impossível de se esquecer.

E por falar em estética, é impossível não se admirar com o cuidado de Wilder em comentar sobre a situação de seus personagens de maneira puramente visual: reparem como, por exemplo, ao se encontrar pela primeira vez com sua futura amante (e também, como sabemos pela narração, a responsável pela sua ruína) eles estão em uma sala onde as sombras das cortinas os cobrem com listras horizontais, o que cria um visual de gaiola – e não por acaso, será nessa mesma sala onde os dois terão seu clímax.

Da mesma forma, quando seu chefe começa a desvendar o mistério e a participação do protagonista no crime fica cada vez mais clara, os personagens se encontram em uma sala pequena e mal iluminada, que mais uma vez lembra o visual de uma gaiola.

E seguindo a mesma lógica, quando o personagem posteriormente passa a ter dúvidas em relação à sua amante, ele está na frente de uma janela com cortinas que o cercam de uma forma que mais uma vez nos remete a grades.

Outro detalhe estético interessante diz respeito às roupas da femme fatale, e como elas comentam suas motivações sombrias, que vão se revelando aos poucos: em sua primeira aparição ela está nua, logo em seguida se veste com roupas brancas; um pouco depois, quando começam a ficarem claras suas intenções, a parte de baixo de sua roupa fica preta e a de cima continua branca; e depois quando o acordo para o assassinato está selado, logicamente, sua roupa fica inteiramente preta.

E além de todo esse rigor estético, o filme ainda faz pensar sobre as motivações de seus personagens. Como apontou o crítico Roger Ebert, o casal de criminosos não pareciam realmente desesperados por dinheiro (tanto que eles não falam muito mais sobre isso depois que o assassinato é cometido), e nem tampouco apaixonados perdidamente para fugirem juntos. Então é quase como se eles estivessem atraídos e excitados não pelo desejo sexual ou até mesmo pelo dinheiro, mas sim pelo próprio ato de cometer um “crime perfeito” – o que nos faz lembrar de clássicos de Alfred Hitchcock, tais como as obras-primas Festim Diabólico (1948) e Pacto Sinistro (1951).

Levantando questões interessantes sobre seus personagens, e contando sua história de uma forma tão cuidadosa e fascinante que chega a ser um verdadeiro presente para qualquer cinéfilo, Pacto de Sangue é um dos melhores filmes do gênero Noir (que por sua vez é um dos mais fascinantes da “era de ouro” de Hollywood) e apenas uma dentre as várias obras-primas do incrível diretor Billy Wilder.



Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.