12
abr
2017
Pipoca Clássicos: “Sindicato de Ladrões”
Categorias: Críticas, Pipoca Clássicos • Postado por: João Vitor Moreno

Não é necessário gostar de alguém para apreciar seu trabalho, nem tampouco concordar com o objetivo de uma obra para apreciá-la com Arte. Elia Kazan (1909 – 2003) ficou marcado por durante o macarthismo ter denunciado colegas que eram membros do Partido Comunista (ele próprio havia sido membro até alguns anos antes), fazendo com que muitos fossem proibidos de trabalhar em Hollywood. Foi uma atitude covarde e imperdoável, muito criticada na época e lembrada até hoje, mas isso afeta de alguma forma a importância e a qualidade de sua obra? Nem um pouco.

Sindicato de Ladrões foi feito em 1954, logo depois de Kazan ter denunciado seus ex-colegas, e conta a história de um personagem que, depois de presenciar crimes e desonestidades ocorridas no “sindicato” local, decide testemunhar contra eles e sofre perseguição por causa disso. É claramente uma alusão e até mesmo uma tentativa de “justificação” por parte do diretor, não há dúvidas, mas não muda o fato de ser um filmaço.

Este é um filme onde tudo está em seu lugar e todos os elementos fluem como deveriam. Pegue o personagem principal como exemplo, sua construção dramática é impecável: seu irmão é o braço direito do chefe do crime local, o que consequentemente o colocou em um lugar que ele nunca pediu para estar, além disso, se ressente por quem deixou de ser, ao abandonar a carreira de boxeador para beneficiar os negócios ilegais com os quais seu irmão está envolvido (ele teve que entregar uma luta importante porque as apostas estavam em seu adversário). E cercado por desonestidades com as quais nunca concordou inteiramente, é claro que eventualmente sua consciência e moral (que se refletem na figura do padre presente no filme) falam mais alto e ele decide fazer o certo mesmo que sofra consequências com isso. E suas frustrações e ressentimentos atingem seu ápice na famosa cena do carro, onde conversando com seu irmão ele diz a famosa fala “Eu poderia ter sido um competidor. Eu poderia ter sido alguém. Ao invés de um vagabundo, que é o que sou, vamos admitir”, cena esta que é sempre lembrada entre os melhores momentos da carreira de Marlon Brando e entre os melhores momentos do cinema americano.

E o filme é cheio desses momentos memoráveis e impactantes (SPOILERS até o fim do parágrafo), como quando o protagonista encontra o corpo de irmão assassinado e pede à sua parceira que vá chamar o padre, mas reitera que não “o deixe muito tempo sozinho”, ou quando ele encontra seus pombos de estimação mortos por vingança. E um dos momentos mais bem planejados e eficientes é aquele em que traz Marlon Brando indo confessar para sua amada que de certa forma foi responsável pela morte do irmão dela: nesse momento, quando Brando vai pronunciar as palavras, sua voz é encoberta pelo barulho de um navio, e apenas ouvimos esse barulho e vemos a expressão de choque da outra personagem – é um momento genial, já que não havia necessidade de ouvirmos algo que já sabíamos, e o barulho ensurdecedor do navio acaba por reforçar o terror da personagem recebendo aquela informação.

 

 

 

 

 

 

 

 

Mas não é só pelos personagens ou por momentos isolados que o filme funciona tão bem, já que também traz uma abordagem realista que era rara em filmes americanos até então. A filmagem em locação em Nova Jersey, com suas ruas sempre cheias de fumaça, somada ao uso de figurantes “reais” (pessoas que realmente viviam naqueles lugares) criam um senso de realidade enorme, que se aproximava do espectador como raramente filmes hollywoodianos faziam. E como lembra o grande diretor Martin Scorsese, “as pessoas na tela eram pessoas que eu conhecia, não pareciam estrelas de cinema”.

E claro que um dos principais motivos para isso é a sensacional atuação central de Marlon Brando, que desde que havia surgido alguns anos antes em Uma Rua Chamada Pecado, do mesmo diretor, foi o responsável por uma mudança definitiva na forma de atuar em Hollywood. Ao invés da atuação mais “formal” até então característica (e que até hoje às vezes afastam novos espectadores de filmes antigos), Brando trouxe uma abordagem (conhecida como Método) que visa ser mais próxima da realidade, com pequenos improvisos e “imperfeições”, como uma coçada no rosto ou uma pausa no meio de uma frase. Uma cena que ilustra bem a inovação trazida por Brando é aquela que o traz caminhando e conversando com a personagem de Eva Marie Saint: em determinado momento, a moça deixa uma de suas luvas (em um ato que provavelmente não estava no roteiro e deve ter acontecido por acaso), e em um filme convencional feito naquela época a cena seria cortada e gravada de novo para corrigir o “erro”, mas ao invés disso, Brando simplesmente age como seu personagem realmente iria agir diante daquela situação, pegando a luva do chão e enquanto fala seus diálogos vai distraidamente brincando com a luva em suas mãos enquanto sua parceira tímida e discretamente tenta pegá-la de volta. É um momento simples, que hoje passa despercebido justamente por ter virado senso comum, mas naquela época representava uma inovação revolucionária.

 

 

 

 

 

 

E a direção de Elia Kazan também é perfeita. Reparem, por exemplo, como ele utiliza uma discreta e elegante rima visual envolvendo grades pontiagudas que se repete durante todo o filme: logo no início, ao ser cúmplice de um assassinato, vemos Marlon Brando atrás das pontas dessas grades; posteriormente, ao conversar com a irmã do rapaz assassinado (por quem ele agora começa a se apaixonar), Kazan volta a nos mostrar as pontas dos portões, como se a lembrança do ocorrido não conseguisse deixar o personagem; e seguindo a lógica, na próxima vez que vemos essas pontas é quando o personagem finalmente não aguenta mais e decide confessar seus sentimentos para um padre.

Outro detalhe estético bonito e cuidadoso é como Kazan utiliza a rede de proteção do pombal do personagem para evocar sua melancolia e “prisão” emocional: assim, toda vez que o personagem está nesse local, a câmera sempre nos mostra ele através dessa rede, com expressão sempre triste, como se realmente estivesse preso através de grades– e não é por acaso que a armadilha que ele participa e que acaba com um assassinato com o qual ele não concorda tenha como isca justamente um pombo, o que acaba dando mais um significado para o pombal (é o local que o lembra de seu erro, e justamente por isso reforça sua prisão).

Há também alguns momentos mais simples, embora divertidos de alguma forma, como quando o protagonista convida sua amada para sair com ele e quando ela diz que sim ele imediatamente solta um pombo que estava segurando e que sai voando, refletindo seu próprio estado de felicidade e liberdade.

E por mais que o desfecho possa parecer um pouco “feliz demais” em relação ao que havia ocorrido até então, não há como negar que ao menos encerra o arco dramático do filme de maneira perfeita. E se a decisão de Elia Kazan de comparar seus antigos colegas do Partido Comunista (cujo único “crime” era de caráter puramente ideológico) com mafiosos responsáveis por negócios ilegais e assassinatos seja uma atitude extremamente cínica e reprovável, o que importa é que como Cinema e dentro da lógica do próprio filme, ela funciona de forma impecável. E é isso o que importa.



Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.