01
abr
2017
Sátira (ou a Esperada Virtude da Ironia)
Categorias: Especiais • Postado por: Matheus Benjamin

A maioria dos cineastas gosta de provocar seus espectadores com suas obras, sejam elas provocações com violência como Lars Von Trier (de Dogville), Michael Haneke (de A Professora de Piano) e Gaspar Noé (de Irreversível) fazem, ou por meio das ironia com as sátiras que criticam fortemente o modelo de sociedade que temos – como Charles Chaplin em O Grande Ditador.

Zombar dos padrões impostos pela sociedade é uma virtude e tanto; fazer isso com maestria e propriedade é para poucos. Desde filmes consagrados (como o ótimo e incômodo Saló ou 120 Dias de Sodoma) em que temos a atenção do espectador voltada para visualizar coisas consideradas banais ou até mesmo que sejam sérias (mas banalizada em seu contexto) para se fazer críticas, os cineastas trabalham com os personagens de forma distante, como se fossem seus ratinhos de laboratório, moldando-os ao seu ridículo e expondo copiosamente em diversas proporções. Vamos ilustrar essa tese com alguns exemplos mais recentes.

Cena de Saló ou 120 dias de Sodoma

É o caso dos longas do cineasta grego Yorgos Lanthimos. Em Dente Canino (2009) o roteiro aborda uma família disfuncional nada divertida, tendo em vista que os pais criam seus três filhos (duas mulheres e um homem que já têm no mínimo 30 anos de idade) de forma privativa: eles não podem sair de casa (ultrapassar os altos muros) para não serem corrompidos pelo mundo exterior. Seus pais criaram uma série de regras, mudaram o nome de coisas simples e inventam diversas histórias para que sua prole seja a mais ingênua possível. Nesse cenário, apenas o filho homem conhece o prazer do sexo, mesmo que não entenda muito bem o que aquilo significa (sim, os pais pagavam para uma mulher ir até eles para transar com o filho e apenas ele). Acontece que embora tentem provar a tese de Rousseau que postulou a célebre frase “o homem é bom, mas a sociedade o corrompe”, o tiro acaba saindo pela culatra com tantas mentiras contadas a suas crianças que elas acabam mostrando ao espectador que até mesmo a pequena família da qual faziam parte era uma sociedade que os corrompia.

Já em O Lagosta, filme indicado merecidamente ao Oscar de Melhor Roteiro Original, a sátira se dá de forma mais mórbida. Os personagens se encontram em uma sociedade de certa forma distópica, na qual é proibido ser solteiro e não ter um amor verdadeiro. Por conta desse impasse, existem programas (uma espécie de spa) em que os candidatos se inscrevem para participar e dele devem sair comprometidos com um companheiro ou companheira. A punição para quem não conseguir um companheiro nos dias em que o programa ocorre é de ser transformado em um animal de livre escolha (o protagonista vivido por Colin Farrell escolhe uma lagosta, por isso o título). E as pessoas fazem de tudo para conseguirem um “amor verdadeiro”, desde de se humilhar a enganar. Acontece que a mentira do personagem de Farrell é descoberta e ele foge para um acampamento onde é tudo ao contrário: lá é proibido se apaixonar, todos devem ser solteiros e serem autossuficientes, realizando todas as suas tarefas em total solidão. Conforme o longa avança, o espectador pode perceber facilmente as críticas à nossa sociedade e suas pressões impostas para a felicidade alheia, desde aquelas pessoas normativas que pressionam outras para que namorem ou se casem (e consequentemente procriem) às que ditam o contrário e criticam quem é feliz à sua maneira. O desfecho desse longa provoca bastante e podemos até nos pegar fazendo uma autoanálise sobre como nos comportamos.

Léa Seydoux em cena de O Lagosta

David Cronenberg também demonstra uma vontade de fazer sátira com os padrões hollywoodianos com o filme Mapas para as Estrelas (2014). Nele podemos encontrar indivíduos que fazem de tudo para subir na vida, seja por estar em uma família com grande poder ou se apoiar em pessoas da indústria. A trama segue primeiramente a vida de uma atriz em decadência que quer dar a volta por cima interpretando a mesma personagem que foi da mãe em um remake, coisa bastante frequente em Hollywood. O filme mostra como todas essas tiradas de vantagens acabam prejudicando não só a si mesmos, mas também muitas outras pessoas que acabam sendo atingidas. Essa premissa pode parecer batida, mas a execução bizarra e o tom mórbido de Cronenberg fazem o longa ser muito mais interessante do que aparenta.

Poderia ficar citando vários exemplos de filmes que são sátiras completas ou que têm algumas cenas que fazem esse papel de provocar e criticar seus espectadores, mas são tantos que discuti-los levaria muito tempo. Para finalizar deixo o trailer de Personagem Feminina Pouco Desenvolvida, O Filme um possível longa que satiriza o machismo no cinema mais popular. Vale a pena conferir, sobretudo pelo tom de ironia empregado pelo roteiro.


 

 



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.