06
abr
2017
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “A Outra Margem”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Marcelo Silva

A Outra Margem (Gagma Napiri)

George Ovashvili, 2009
Roteiro: George Ovashvili, Nugzar Shataidze e Rustam Ibragimbekov
Geórgia
East Gate Film, George Ovashvili Production e Kino Company

3

O conflito entre a Geórgia e a Abecásia (hoje uma república autônoma na região do Cáucaso) é um daqueles que nunca ouvimos falar – e que, quando aparece em um filme, somos obrigados a recorrer à Internet para entender alguma coisa. Entre 1992 e 1993, separatistas da Abecásia e oficiais georgianos se enfrentaram em uma guerra civil que arrasou a economia local e deixou de 200 mil a 250 mil refugiados. Os anos seguintes não foram de paz: uma rápida pesquisa revela que houve combates em 1998, 2001 e 2008, e que a tensão entre os dois lados permanece até os dias de hoje.

É nesse pano de fundo que A Outra Margem, representante da Geórgia na Volta ao Mundo em 80 Filmes, conta a história da busca de um garoto por seu pai. Tedo (Tedo Bekhauri), um refugiado de apenas 12 anos, parece não se adaptar à vida na cidade de Tbilisi e passa grande parte do seu tempo na companhia do seu amigo Tsupak (Galoba Gambaria), com quem pratica pequenos furtos. Mantendo um relacionamento distante da sua mãe, que está envolvida com um amante, o garoto decide viajar sozinho à Abecásia (de onde foi obrigado a fugir anos atrás por conta da guerra) em busca do pai, que ele sequer sabe se está vivo. O problema é que cruzar a fronteira é algo mais perigoso do que Tedo poderia imaginar.

Primeiro longa-metragem do diretor George Ovashvili, A Outra Margem é um filme mais preocupado em mostrar como conflitos armados afetam a vida das pessoas do que impressionar por seu roteiro ou pelas atuações do elenco. Tudo aqui é construído com naturalidade: Tedo poderia ser qualquer uma das crianças que têm a sua história pessoal marcada pela guerra. Ao escolher um protagonista infantil, Ovashvili permite que toda a narrativa seja mostrada pela óptica inocente que um adulto, por exemplo, não teria. Tedo empreende sua viagem à Abecásia sem se intimidar ao ouvir dos outros que seu pai provavelmente não está vivo ou com a insegurança de cruzar um território em que a vida humana vale pouco – o que fica evidente na morte de um viajante inocente pelas mãos do oficial na fronteira. O fato de ele ter de se passar por surdo-mudo para esconder sua nacionalidade e assim sobreviver gera situações interessantes dentro da narrativa: uma delas, inclusive, tem ar cômico.

O roteiro, assinado por Ovashvili em parceria com Nugzar Shataidze e Rustam Ibragimbekov, constrói Tedo não como um protagonista destemido e seguro de si – mas, sim, como um garoto vulnerável e espantado com a violência que encontra. A expressão dele ao presenciar um homem ser morto na sua frente e o choro ao ser capturado pelos soldados evidenciam isso.

Outro acerto do filme é não idealizar os personagens que cruzam o caminho de Tedo. Ninguém ali faz caridade: todos têm a vida marcada pela guerra e pensam bem nas conseqüências antes de ajudar o protagonista. O caminhoneiro, por exemplo, abandona o rapaz assim que ele revela sua nacionalidade. A dupla de ladrões, então, nem se fala.

Com mais de 29 prêmios em festivais na Europa, na Ásia e nos Estados Unidos, A Outra Margem é um filme que cativa por sua simplicidade e sensibilidade. Em um planeta habitado por líderes xenofóbicos, a obra de George Ovashvili mostra-se necessária: como dito antes, Tedo é georgiano, mas, na prática, poderia ser um dos mais de cinco milhões de refugiados sírios que o mundo tem hoje ou até mesmo parte do grupo para o qual o Brasil não pode abrir as portas, de acordo com o deputado Jair Bolsonaro.

Na próxima semana, vamos conhecer o país que é conhecido como a terra dos filósofos: a Grécia, representada pelo filme Alpes, de Yorgos Lanthimos, o mesmo diretor de O Lagosta!



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!