09
abr
2017
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “Alpes”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Marcelo Silva

Alpes (Alpeis)

Yorgos Lanthimos, 2011
Roteiro: Yorgos Lanthimos e Efthymis Filippou
Grécia
Haos Films, Hellenic Radio & Television, Faliro House Productions, Nova, Cactus Three, Avion Films, Marni Film, Feelgood Entertainment

3

“Nenhuma outra montanha se compara às montanhas dos Alpes. O que é formidável com as montanhas dos Alpes é que ao mesmo tempo que não podem ser substituídas por nenhuma outra, elas podem tomar o lugar de todas as outras”

Perder uma pessoa próxima não é nada fácil. E até mesmo quem nunca passou por isso imagina a dor de acordar e olhar para o outro lado da cama vazio, de não ter mais alguém para levar à escola, para dividir um segredo, uma decepção, um sorriso – alguém, enfim, para compartilhar os momentos da vida. Mas e se um outro indivíduo assumisse o lugar do falecido e passasse a fazer tudo o que ele fazia?

Esse é a ideia central de Alpes, o representante da Grécia na Volta ao Mundo em 80 Filmes. Na história, uma enfermeira (Angeliki Papoulia), um paramédico (Aris Servetalis), uma ginasta (Ariane Labed) e seu treinador (Johnny Vekris) são parte de um grupo em que, contratados por amigos e familiares, substituem pessoas falecidas. Em dias combinados, eles assumem o nome e a personalidade daqueles que morreram.

Quem já viu alguma coisa do trabalho de Yorgos Lanthimos sabe que seria ingenuidade esperar um filme convencional vindo de sua mente. Sempre criativo, o diretor já mostrou em Dentes CaninosO Lagosta (que, inclusive, foi indicado ao Oscar neste ano), sua capacidade de satirizar as relações humanas, de transformá-las em um conto tragicômico. E Lanthimos não faz diferente em Alpes: trata-se de uma história sobre identidade pessoal, ou melhor, sobre a falta dela e a tentativa de preencher vazios. A existência de um grupo como o que vemos no filme pode parecer, à primeira vista, absurda. No entanto, ela possui ecos com a realidade quando percebemos que somos constantemente substituídos. Ao fim de uma amizade, de um namoro, um casamento, um contrato de trabalho, busca-se alguém para colocar no lugar do outro – algo não muito diferente do que traz o roteiro escrito por Lanthimos em parceria com Efthymis Filippou.

Dos quatro membros do grupo (cujo nome dá título do filme), a enfermeira vivida pela excelente Angeliki Papoulia é a que possui maior tempo de tela. Independente da identidade que está assumindo, ela carrega sempre uma expressão melancólica, típica de alguém que nunca se vê completo. Ao invés de servir de mero apoio emocional às pessoas que a contratam, a personagem (seu nome e o dos colegas não são apresentados, em uma estratégia sábia do roteiro) passa a viver em função delas: em determinada cena, ela se desespera ao ser expulsa da casa de uma das famílias, por exemplo. Isso para não falar no momento em que acaba misturando suas vidas fictícias. Na pele de uma adolescente, a enfermeira tem seus planos de passar a noite com um rapaz atrapalhados pelos pais. Em seguida, ela o convida para ir à casa que divide com um senhor – o filme não explica se o homem é, de fato, seu pai ou só mais um cliente.

A direção de Lanthimos combina bem com a proposta do longa. Muitas cenas carregam uma artificialidade proposital, tanto na condução dos atores quanto na construção dos diálogos. Discussões amorosas, traições e até mesmos os tiques dos papéis que a personagem de Papoulia interpreta são extremamente desprovidos de naturalidade. Repare quando a senhora cega pede para que haja uma traição entre a enfermeira e o seu marido (que também já faleceu e tem sua função substituída), se faz de brava e parte para a agressão com tapas que mais parecem movimentos de uma máquina programada, de um robô. Ou ainda o casal que estranhamente só se comunica em inglês e protagoniza uma discussão sem um único traço de naturalidade, como se os dois estivessem no piloto automático. É a artificialidade tomando conta até mesmo dos momentos de frustração, de revolta, de desentendimento – que, em tese, são situações difíceis de se controlar ou se manter indiferente.

Melancólico, mórbido, irônico e desconcertante, Alpes é mais uma obra que comprova o talento de Lanthimos, que ainda deve nos surpreender com sua criatividade sem limites nos próximos filmes – aliás, há um previsto para estrear nesse ano, intitulado The Killing of a Sacred Deer e com Nicole Kidman, Alicia Silverstone e Colin Farrell no elenco. Infelizmente, as próprias qualidades do longa e o ritmo lento são obstáculos para que um público maior se interesse pela história. Uma pena, pois, assim como os outros trabalhos de Lanthimos, Alpes é mais uma perfeita análise da natureza e das relações humanas.

Apertem os cintos, pois semana que vem nossa escala é na Guatemala, com o filme Puro Mula. Não perca!



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!