30
abr
2017
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “Dias Selvagens”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Matheus Benjamin

Dias Selvagens (A Fei Jingjyuhn)

Kar Wai Wong, 1990
Roteiro: Kar-Wai Wong e Jeffrey Lau
Hong Kong
In-Gear Film

4

Desembarcamos no país que é considerado ocidental em meio à Ásia, estamos falando de Hong Kong, que no passado pertenceu à Inglaterra e é confundido até hoje como parte da China. Detalhe: para se entrar em Hong Kong pela China é necessário de um novo visto e vice-versa. Boa notícia para nós: somos isentos de vistos para visitar Hong Kong. O filme de hoje da Volta ao Mundo é um drama urbano com tramas paralelas que se complementam.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman desenvolveu uma tese sobre os amores líquidos, em seu livro ele defende que na pós-modernidade esses amores estão cada vez mais “flexíveis” e diferentes dos modelos de antigamente, o que pode gerar diversas “complicações” como a insegurança, a falta de estabilidade e o companheirismo. Em Dias Selvagens, pode-se dizer que esses tipos de amores estão presentes na narrativa de Kar-Wai Wong, tendo em vista que as paixões de seu protagonista são corriqueiras e ilusórias. Em Hong Kong, na década de 60, Yuddy (Leslie Cheung), esse protagonista, é um jovem que vive de relações intensas, seja com as moças com quem tem pequenos casos ou com a própria mãe (Rebecca Pan), que acaba de descobrir não ser a sua biológica.

E a recusa dessa “mãe” em lhe dizer sobre sua verdadeira história o deixa completamente incomodado e agindo de forma cada vez mais impulsiva e estranha, tentando descobrir a verdade sobre sua vida, sua história e ao mesmo tempo se libertar de algo que o esteja oprimindo em sua própria mente. É bastante interessante notar a forma como os “amores” de Yuddy se desenvolvem a partir daí e como suas relações são cada vez mais frias, distantes e líquidas. As duas mulheres com quem ele tem pequenos envolvimentos amorosos passam por situações intensas de angústia, desespero e tristeza por conta de seu abandono e, quando se confrontam, uma parece querer sair por cima da outra, enquanto essa outra tenta abrir os olhos de sua correspondente. Inclusive, parece haver uma certa submissão dessas mulheres com relação a Yuddy que é bastante incômoda aos espectadores.

Sendo o primeiro longa de uma trilogia que se fecharia apenas na década seguinte, o roteiro da dupla Kar-Wai Wong e Jeffrey Lau caminha com um ritmo bem calmo e a direção se apoia nessa constante, que traz consigo cenas bastante conflituosas repletas de diálogos bem construídos e personagens inquietos. A trilha sonora incidental traz pequenos toques e traços de nossa Bossa Nova e se completa com a bela fotografia de Christopher Doyle com diversificados planos fechados em sua maioria, mas também algumas inventividades criativas e autorias na construção da narrativa. A organicidade desses planos também pode ser vista quando Wong faz pequenos planos sequência, tentando mostrar as dimensões da zona urbana em que todos esses personagens complexos estão inseridos. E se todos esses elementos presentes na trama não são suficientes, a montagem se faz presente colaborando para o ritmo desacelerado e contemplativo desse cinema ocidental em pleno oriente.

O design de produção é bastante melancólico e carregado de tons plenos e escuros, com jogos de sombras, que poderiam facilmente remeter aos filmes noir da década de 40. As vestimentas das personagens são traçadas por meio de uma paleta de cores carregada de tons de preto, cinza, bordô, também cores mais neutras como o branco e o bege e passando por tons de verde e azul escuros fazendo um choque na tela.

Esse é o segundo longa da carreira de Kar-Wai Wong e o que viria pela frente o consagraria como um dos cineastas mais inventivos e criativos, não só de Hong Kong, mas do mundo. Em suas obras, o realizador investiga as mais diversas possibilidades amorosas e seus romances urbanos se entrelaçam com as teorias postuladas pelo polonês Bauman, deixando cada vez mais interessante toda essa chamada pós-modernidade. O desfecho inconclusivo que Dias Selvagens carrega consigo é angustiante, poético e ao mesmo tempo instigante, fazendo o espectador ansiar por mais, por mais experiências facilmente identificáveis em nossa sociedade sobre esse tipo de amor. Um romance com tons mais sérios e mais fáceis de serem encontrados, vistos e vividos. Vale a pena conferir, nem que precisemos observar esses personagens todos como se fossem ratinhos de laboratório, prestes a realizar ações que nos deixem ainda mais intrigados.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-MA-LA" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta Produções.