15
maio
2017
Crítica: “Alien: Covenant”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

Alien: Covenant

Ridley Scott, 2017
Roteiro: John Logan e Dante Harper
Fox Film do Brasil

2.5

A carreira do britânico Ridley Scott é igualmente interessante e irregular. Capaz de dirigir uma obra prima como Blade Runner (um dos meus filmes favoritos, diga-se de passagem), se mostrou capaz também de comandar desastres absolutos como Um Bom Ano (cujo um dos principais alívios cômicos consistia em um cachorro urinando na perna de um personagem). E se por um lado seu Alien: O Oitavo Passageiro está entre seus melhores trabalhos, sua volta ao universo da ficção científica com Prometheus deixou muito a desejar, já que se tratava de um filme com potencial, mas que era desperdiçado em um roteiro fraquíssimo, que nem mesmo parecia interessando em discutir suas principais ideias. E agora, depois de mais alguns anos afastado do gênero de ficção científica (período no qual fez um de seus melhores trabalhos, o surpreendente e otimista Perdido em Marte), ele retorna com um filme que serve de continuação a Prometheus e “prequel” de Alien: O Oitavo Passageiro, e que beira o desastre.

A trama se passa após os acontecimentos do filme anterior, agora com novos personagens, mas que eventualmente irão parar no local onde se encontravam os personagens do outro filme. Mas apesar de servir se continuação para Prometheus (e, por consequência, acabar tendo que dar continuidade a suas discussões), a estrutura da trama é a mais batida possível: uma nave com tripulantes em estado de hibernação sofre um acidente e eles têm que pousar em um planeta inesperado. Neste planeta encontram uma ameaça (o clássico alien) e tentam se livrar dela para poderem voltar para sua viagem.

Se a trama nada traz de novo, o mesmo se aplica aos personagens: a (suposta?) protagonista, apesar do talento de Katherine Waterston, nem sequer tem o tempo de tela necessário para gerar empatia e identificação com o espectador; a figura vivida por Danny McBride é o estereótipo do estereótipo de um “caipira”, refletido no seu chapéu de caubói (por que usar isso em uma nave??) e em seu próprio nome: Tennessee (o equivalente a ter um personagem com chapéu de cangaceiro chamado Ceará, suponho); já o personagem de Billy Crudup é usado para jogar a sugestão de uma discussão sobre fé, mas que é completamente abandonada, e todos os outros personagens são tão desinteressantes e sem personalidade que se confundem ao ponto de chegar certo momento e eu perceber que alguns já haviam morrido, mas eu não sabia quais ainda faltavam. E até mesmo o personagem mais interessante do filme, o androide vivido por Michael Fassbender, acaba tendo um arco tão frágil, que suas ações finais e principais já podem ser antecipadas muito antes do final do filme.

Mas os personagens não são os únicos problemas do roteiro, já que além da trama batida, nem sequer se propõe a discutir suas ideias mais interessantes: por mais que consiga responder satisfatoriamente algumas dúvidas levantadas por seu antecessor (principalmente no que se refere à “evolução” da criatura alien), suas principais questões temáticas são deixadas de lado (como ao ignorar completamente as figuras dos “engenheiros”, que pareciam tão importantes no filme passado e que seguem uma incógnita). Isso para não falar das coincidências absurdas, como a transmissão pega por acaso e que leva os personagens para o planeta em que se passa a trama.

Fora isso, a trilha sonora incomoda um pouco por ser onipresente e, por consequência, repetitiva, porém funciona em momentos pontuais. Também não posso deixar de elogiar a excelente sequência que envolve a primeira vítima do parasita alien – uma sequência que parece pertencer a outro filme, de tão boa que é –, onde Ridley Scott aproveita não apenas para se divertir com o horror dos acontecimentos, mas também para fazer diversas referências ao clássico de 79: o uso de lente grande-angulares com a câmera tremendo próxima do rosto dos atores, ou correndo próximo a eles em um longo corredor, além do próprio conceito interessantíssimo da criatura “explodindo” pelas costas da vítima, indo na direção oposta do “habitual”, onde sai pelo peito.

E já que falei da criatura, achei interessante como Scott traz um visual mais macabro para ela desta vez (o que funciona, na maior parte das vezes), porém parece esquecer o que sabia nos anos 70 que é o poder da sugestão: a criatura aqui assusta apenas porque tem um visual horripilante, e não porque é criado um suspense em torno dela a ponto de a imaginarmos e temermos o filme todo mesmo ela aparecendo apenas por poucos minutos, como acontecia no original. Além disso, não há como negar que o exagero nos efeitos especiais atrapalha o próprio objetivo básico do monstro de criar medo, já que sua natureza digital é escancarada nos momentos em que a vemos de corpo inteiro se movimentando rapidamente. Este é um dos casos em que o efeito digital nunca superará os efeitos práticos, e não digo isso como um “purista”.

Sendo também profundamente aborrecido, com um primeiro ato que se estende demais e logo de cara já cansa o espectador, e tendo também longas cenas que não servem a propósito algum (como aquela que traz dois androides tocando flauta, e cujo principal objetivo parece ser mostrar a capacidade dos efeitos visuais de colocar Michael Fassbender duplicado vivendo dois personagens), Alien: Covenant é insatisfatório como continuação de um filme que por sua fez já era muito insatisfatório, e não parece interessado em suas próprias ideias. Pode até funcionar pontualmente, principalmente quando vai para o lado do horror mais “gore”, mas em seu objetivo geral falha gravemente.



Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.