22
maio
2017
Crítica: “Colossal”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

Colossal

Nacho Vigalondo, 2016
Roteiro: Nacho Vigalondo
Paris Filmes

3.5

A mistura entre gêneros cinematográficos sempre pode ser um exercício interessante, e a comédia talvez seja a mais fácil e comum de associar com outros tons. Podemos pegar como exemplo o excelente Todo Mundo Quase Morto (Edgar Wright, 2004), que funcionava igualmente bem em seu caráter cômico e também no seu elemento de terror com zumbis. E o subgênero “filme de monstro” também é um ótimo convite para associar com outras ideias: o sul-coreano O Hospedeiro (Joon-Ho Bong, 2006), por exemplo, utilizava sua criatura para fazer um comentário político e social. Então por mais que a ideia de juntar monstro com comédia a princípio possa não parecer das mais promissoras, o fato é que funciona como união de um subgênero que convida um “algo a mais” com outro gênero que costuma encaixar bem em vários contextos… Em outras palavras: tem tudo para funcionar.

E de fato funciona muito bem, já que o que este Colossal tem de melhor é justamente seu tom diferente e, por consequência, divertido, falhando apenas ao tentar exagerar em seu elemento dramático e em assumir uma obrigação de criar um vilão para adicionar um conflito mais “convencional”.

A trama é a seguinte: Glória (Anne Hathaway) é forçada a deixar Nova York e voltar para sua cidade natal após terminar um relacionamento e perder o emprego. Ao mesmo tempo, um monstro gigante e misterioso está provocando pânico ao surgir destruindo Seul, na Coreia do Sul. Logo, Glória descobre que tem uma ligação com esse monstro, já que ele aparentemente está repetindo todos seus movimentos.

O que mais atrai no filme é justamente a peculiaridade e originalidade de sua premissa, o que obviamente tem um potencial cômico grande, e que é muito bem explorado. E uma das coisas que mais contribuem para esse senso de humor competente é a excelente performance central de Anne Hathaway, que mesmo com um visual clichê (com os cabelos desenhadamente despentados), consegue trazer um timing cômico impecável seja por sutilezas, como um olhar diferente, ou por momentos de humor físico mais exagerados.

Já o diretor Nacho Vigalondo se diverte ao brincar com os gêneros: por mais que às vezes utilize planos contra-plongée (ângulo inclinado de baixo para cima) em momentos inapropriados e injustificados, ele também consegue criar uma rima visual interessante e significativa ao percorrer a câmera verticalmente no corpo da atriz da mesma forma que faz com o corpo do monstro – comentando visualmente a ligação entre os dois.

Mas o filme encontra seu principal problema ao se sentir na necessidade de incluir um vilão para criar algum arco narrativo mais convencional de filme de monstro e dar a impressão de que o filme foi para algum lugar. O que obviamente não é, a rigor, um erro, mas o problema é que a justificativa encontrada pelo roteiro para incluir esse vilão e a forma abrupta como um personagem secundário de repente se transforma em antagonista acaba soando muito artificial.

Conseguindo também se encaixar bem no momento histórico atual ao fazer uma ótima piadinha envolvendo memes de internet, Colossal é um filme curioso que vale a pena justamente por sua peculiaridade e por seu senso de humor. Tem um problema grave e que o prejudica bastante, mas também traz qualidades suficientes para divertir e se estabelecer como um bom filme.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael